Desejos de mudança

Dilma segue favorita, apesar dos fortes sinais de insatisfação e desejo de mudança. Os candidatos de oposição não conseguiram, até agora, apropriar-se de tal sentimento

Tereza Cruvinel
postado em 20/02/2014 00:00
Nem o governo nem o PT soltaram fogos com a pesquisa CNT-MDA divulgada anteontem, mantendo a presidente Dilma Rousseff como favorita na disputa pelo Planalto, vencendo no primeiro turno se a eleição fosse hoje. E não apenas porque, contraditoriamente com esse indicativo eleitoral, a avaliação do governo oscilou negativamente, só ficando acima do fosso em que caiu após as manifestações de junho. Na parte menos lida e divulgada, a pesquisa traz uma profusão de sinais sobre a insatisfação e o desejo de mudança da população. Entretanto, Dilma segue favorita, porque os dois principais adversários, até agora, não conseguiram colar as candidaturas a esses sentimentos.

Dilma obtém na pesquisa 43,7% de intenções de voto. Está praticamente parada, tendo crescido apenas dois décimos percentuais em relação à última sondagem da série, em novembro. Nem por isso a oposição ganhou. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) oscilou negativamente para 17% e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), para 9,9%. Outras razões explicam uma dinâmica tão paradoxal, como o baixíssimo interesse das pessoas pela disputa. E isso só vai mudar depois da Copa e com o início da campanha oficial. Outro fator também ajuda Dilma. Ela tem uma rejeição alta, de 37,3%, mas Aécio não fica muito atrás, com 36%, e Campos, com 35,5%. Isso mais a vida deles, que precisam crescer para alcançá-la.

Mas muito abaixo dessas tendências estão as disposições e os sentimentos mais profundos da população, ainda não traduzidos em inclinações eleitorais sólidas. A maioria é pessimista em relação a quase tudo: 77,2% acham que o custo de vida aumentou e 71,8% temem que continuará aumentando este ano. Destacaram o alto custo dos alimentos e das tarifas. Algum otimismo existe em relação ao emprego, que, para a maioria (36,7%), vai melhorar, contra 20,7% que acreditam em piora. Os números são semelhantes em relação à educação e à renda, mas a maioria (33,7%) crê em piora na segurança, contra 27% que acreditam na melhora. Aqui, a conta é compartilhada com os governadores. A maioria acredita também em piora na saúde.

O sentimento em relação à Copa é o pior possível: 75,8% consideram que os investimentos foram desnecessários, 80,2% reprovam os gastos com estádios, 66,6% não acreditam que as obras de mobilidade urbana ficarão prontas antes do evento e 85,4% acham que haverá protestos durante os jogos. Paradoxalmente, mais de 50% aprovam a realização da Copa no Brasil. Em relação a esses pontos, especialmente aos gastos, há muita desinformação, que o governo corre para superar, com ações mais eficientes de comunicação.

Agora, direto ao ponto da política: mais de um terço dos entrevistados (32%) não está com o menor interesse na eleição. Apenas 15%, muito interessados. Para a grande maioria, 37,2%, o próximo presidente precisa mudar completamente a forma de governar, 25% querem muitas mudanças, conservando algumas ações, e 23,1%, o inverso. Apenas 12,1% preferem que nada mude. Teoricamente, seria esse o eleitorado de Dilma, mas ela é preferida por 43,5%. No curso do processo, um dos oposicionistas convencerá os eleitores de que representa a mudança. Se isso não acontecer, Dilma será reeleita, mas terá que acenar com mudanças para poder continuar. Seria algo como ;mudar com Dilma;. O problema é que, na atual conjuntura, não basta prometer. Em tudo, é preciso convencer.

Comoção no PSDB
A renúncia do agora ex-deputado Eduardo Azeredo, réu na Ação Penal 536, comoveu o PSDB e abalou a saúde dele, impedindo-o de anunciar a decisão, tomada para evitar constrangimentos ao partido e à Câmara. O mais candente discurso foi o do presidente do PDSB mineiro, deputado Marcus Pestana, que falou de sua trajetória e honradez, do papel de seu pai, Renato Azeredo, arqueiro de Tancredo Neves, na política de Minas, da ausência de provas contra ele. Como governador, não tratou pessoalmente das finanças de sua campanha à reeleição em 1998. Em mais de uma passagem, tratou de apontar diferenças com o chamado mensalão do PT e a conduta que Azeredo e o PSDB adotarão. Uma das carapuças. ;Não esperem de um mineiro sereno como Eduardo Azeredo atitudes agressivas, punhos cerrados ao ar, cenas ou gestos provocativos e de confrontação com as instituições democráticas.;

É mesmo triste ver uma figura como Azeredo no banco dos réus. Acompanhei sua atuação como prefeito, governador, senador e deputado. Veremos ainda tragédias semelhantes atingirem outras figuras e outros partidos, por conta do maccartismo udenista engendrado para atingir o PT, que envenenou a sociedade contra a política. O PT, que no passado seguiu esse credo, parece ter aprendido. Ali, não se ouviu palavra de regozijo. Com essa nova ação penal, vamos descer mais, como já dito aqui, rumo ao poço escuro da descrença nas instituições da democracia.

Se Pernambuco deixar;
O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) desconcertou colegas ontem ao anunciar, à queima-roupa, que não disputará a reeleição nem será candidato à Câmara, como já noticiado, puxando votos para a eleição de uma grande coligação ligada a Eduardo Campos. E assim decidiu, não por dificuldades eleitorais, mas por razões subjetivas: depois de tantos anos, e de ter ocupado tantos cargos, o desencanto tomou o lugar da paixão em sua relação com a política. Ouviu, entretanto, mais de uma voz dizer: Pernambuco não deixará que isso aconteça.

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