A culpa não é da polícia

Policiais se queixam, com razão, de trabalhar em vão

postado em 19/02/2014 00:00

É hora de a sociedade repensar o alvo de sua ira, que aflora toda vez que um crime violento comove as pessoas, ou quando uma pessoa indefesa é vítima de assaltantes à saída de um banco, ou volta para casa depois de um dia de trabalho honesto. Nessa hora, nada é mais fácil do que atirar sobre a polícia a culpa pelo clima de insegurança que, inegavelmente, tem aumentado nas grandes cidades brasileiras.

Chocado com o noticiário policial, cada vez mais intenso e mais violento, é natural que cada um pense como seria bom ter um policial de plantão à sua porta (só na sua, o vizinho que defenda a parte dele). Daí é só um pequeno passo para se propagar a ideia de que a culpa pelo crime é da polícia, ou da falta dela.

Qualquer um de bom senso sabe que nem a polícia pode ser responsabilizada pela criminalidade nem o Estado dispõe ou disporá de efetivo para cometer o equívoco de manter guarda pessoal a gosto de cada contribuinte. Então, o que resta é procurar com mais juízo e ponderação onde estamos falhando, o que temos feito ou deixado de fazer e que tem resultado na alimentação do crime, organizado ou não.

Convivendo com os mais baixos níveis de desemprego da história recente da economia brasileira, a explicação (também fácil) da falta de oportunidades de trabalho honesto perdeu força e, embora ainda tenha algum peso, está longe de justificar e muito menos perdoar a tentação de tomar de alguém o que se deseja, muitas vezes provocando ferimento ou morte.

Certamente falta educação de qualidade oferecida a todos. Esse é, sem dúvida, um ponto que tem o consenso geral, mas que, curiosamente, se arrasta para longe da revolução no ensino, que precisa ocorrer no país. E mesmo que, de repente, todas as autoridades e o Parlamento acordassem dispostos a mudar essa realidade rapidamente, levaríamos mais de uma geração para corrigir o atraso. Ou seja, não dá para esperar que a nova escola produza os efeitos civilizatórios que movem a convivência pacífica entre as pessoas.

É, portanto, forçoso reconhecer que, pelo menos por um bom tempo, contamos mesmo é com a polícia. Por isso mesmo, todos teremos mais a ganhar se procurarmos entender as dificuldades e as limitações que a própria sociedade brasileira tem imposto à atividade policial e, principalmente, tratar de remediá-las. A exacerbação do sentimento contra o autoritarismo que marcou o recente regime militar tem turvado a compreensão de muitas pessoas do papel das forças de segurança.

Braço do Estado em defesa do cidadão, a polícia não pode perder o monopólio da força, sob penas de estimular o crime. E, pensando bem, tem sido fácil promover esse enfraquecimento, pela via da leniência com o infrator. Apesar de nossas prisões estarem cheias, a verdade é que a polícia tem razões de sobra para se queixar de que anda enxugando gelo. O bandido preso é solto com facilidade. O condenado, se pegar poucos anos, dificilmente os cumprirá na cadeia. Criamos uma teia de recursos e de atenuantes que, a menos que se trate de crime hediondo (como estupro ou homicídio qualificado), quase ninguém fica preso por muito tempo. Menos ainda se for réu primário. Sim, é hora de valorizar, equipar e treinar melhor nossa polícia. Mas isso também valerá pouco se lhe negarmos as armas mais importantes: a lei e as condições para cumpri-la.

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