Kiev em chamas com fim da trégua

Confrontos entre forças de segurança e manifestantes da oposição deixam pelo menos 14 mortos, policiais e civis

Lucas Fadul
postado em 19/02/2014 00:00
 (foto: David Mdzinarishvili/REUTERS
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(foto: David Mdzinarishvili/REUTERS )




Brasília ; A violência voltou a explodir ontem na Ucrânia entre as forças de segurança e manifestantes que exigem a renúncia do presidente Viktor Yanukovich, pondo fim a algumas semanas de relativa calma. Confrontos que se prolongaram por todo o dia no coração da capital, Kiev, deixaram ao menos 14 mortos, entre eles seis policiais, e 150 feridos. Depois de uma breve trégua durante a tarde, com a desocupação de um acampamento mantido há três meses pela oposição, os choques recomeçaram à noite, quando a tropa de choque avançou sobre os manifestantes que resistiam a acatar as ordens de dispersão. Barricadas em chamas e coquetéis molotov iluminavam a área do Parlamento e da Praça da Independência, repetindo cenas testemunhadas horas antes na sede do Partido das Regiões, a legenda de Yanukovich, atacada com bombas incendiárias e golpes de machado. Um manifestante teve a mão amputada.

Na Praça da Independência, ocupada há três meses, líderes da oposição tentavam evitar que setores mais radicais entrassem em confronto com a polícia. ;Nosso objetivo é cercar o Parlamento e bloquear o local, para impedir que os deputados nomeiem um primeiro-ministro ;russo;;, declarou o parlamentar oposicionista Andrii Parubii ; em referência à orientação pró-Moscou do presidente. O chanceler Leonid Kozhara rechaçou ;ingerências; por parte de governos estrangeiros e organizações internacionais, de quem cobrou um posicionamento objetivo e imparcial sobre a crise ucraniana. Kozhara também pediu que sejam condenadas as atividades ;ilegais;. ;Os manifestantes estão fazendo ataques armados contra escritórios do governo, colocando os edifícios em chamas, ferindo gravemente os agentes policiais, usando armas de fogo e incitando outros a atos ilegais;, denunciou.

A União Europeia (UE), porém, reiterou as reservas quanto ao tratamento da situação pelo governo e sugeriu que pode adotar represálias pelo ;uso excessivo de violência;. Os Estados Unidos reagiram no mesmo tom e pediram a Yanukovich que ponha fim à repressão indiscriminada. ;Estamos consternados pelo que acontece no Centro de Kiev. Pedimos ao presidente que freie imediatamente a escalada e ponha fim aos confrontos;, disse Laura Lucas Magnuson, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. Washington aconselhou Yanukovytch a ;retomar o diálogo com os líderes da oposição;.

A moradora de Kiev Julia Kocherzhenko, que esteve nas manifestações da manhã em Kiev, falou sobre o bloqueio de vias e a suspensão do serviço de metrô. ;As ruas estavam extremamente perigosas. Várias pessoas se machucaram por causa das revoltas;, lamentou. Julia só conseguiu chegar em casa com ajuda de um desconhecido, que lhe ofereceu carona.

DIVISÃO O impasse na Ucrânia teve início em novembro de 2013, quando o governo desistiu, na última hora, de assinar um acordo comercial e político com a UE, em nome de intensificar as relações com a Rússia. O primeiro-ministro Mykola Azarov, que depois renunciou ao cargo, admitiu que Moscou havia pressionado pelo adiamento da assinatura.

A interferência foi criticada pelo bloco europeu, que denunciou ameaças do presidente russo, Vladimir Putin, de cortar o fornecimento de gás e tomar medidas protecionistas contra os produtos ucranianos. Na tentativa de refrear os protestos, Yanukovich argumentou que a decisão foi difícil, mas inevitável, por causa das duras regras da UE. O presidente ucraniano afirmou que pretende criar ;uma sociedade de padrões europeus; e que as políticas com esse propósito ;têm sido e continuarão a ser consistentes;. Ele assegurou que o país assinará o acordo com o bloco europeu em ;futuro próximo;. No entanto, para firmar o tratado negociado durante mais de seis anos, ainda faltam passos importantes. Até ontem, a onda de protestos tinha deixado saldo de oito mortos.

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