Conservadorismo nas urnas

Pesquisadoras mostram que o eleitor brasileiro prefere votar em homens com mais de 50 anos, alta escolaridade e da carreira política. Em Minas Gerais, o envelhecimento dos eleitos é maior

Bertha Maakaroun
postado em 03/03/2014 00:00
 (foto: João Miranda/Esp. EM/D.A Press- 9/7/13)
(foto: João Miranda/Esp. EM/D.A Press- 9/7/13)

Estudo inédito sobre o perfil dos deputados estaduais e distritais eleitos entre 1998 e 2010 revela um eleitor conservador, que privilegia o voto em representantes homens, com alta escolaridade, da carreira política. Além disso, até pelo crescimento das taxas de reeleição, a cada novo pleito é registrado aumento da idade média com predominância, em 2010, de deputados eleitos de 50 a 59 anos. A conclusão é de Simone Cristina Dufloth, da Fundação João Pinheiro, coordenadora do projeto ;Análise do perfil dos representantes eleitos nas assembleias legislativas: estudo aplicado às unidades da federação;, e das pesquisadoras Cláudia Júlia Guimarães Horta e Carla Cristina Aguilar de Souza.

É um voto que favorece o status quo e o parlamentar que já está na carreira. ;Entre 1998 e 2010, cresceu de 17,1% para 47,6% o sucesso eleitoral de candidatos que informaram à Justiça Eleitoral ter carreira política;, avaliam elas. Até porque, reeleitos, os parlamentares também estão mais velhos a cada novo pleito. A idade média dos deputados estaduais eleitos subiu nesse período de 44,97 anos em 1998 para 47,85 anos em 2010, indica o estudo. Quando os deputados estaduais e distritais eleitos para as assembleias legislativas e câmara distrital são analisados segundo as faixas de idade, há um deslocamento entre 1998 e 2010 da categoria de 40 a 49 anos ; que em 1998 representava 41,5% dos eleitos ; para a categoria de 50 a 59 anos, que em 2010 já integrava 31,34% dos eleitos.

Em Minas Gerais, esse perfil da representação de deputados estaduais que se expressa na ;carreira política; e, a cada novo pleito, no ;envelhecimento; dos eleitos, é ainda mais intenso. Entre 1998 e 2010, os deputados que informaram ter carreira política à Justiça eleitoral saltaram de 21,92% para 63,8%. Além disso, a sua idade média é maior do que a média geral de idade dos deputados estaduais e distritais das assembleias do país: passou de 47,59 anos em 1998 para 48,28 anos em 2010.

Esses dados são consistentes com a queda na taxa de renovação nos legislativos brasileiros ao longo da última década: mais parlamentares estão se reelegendo. Dados do Departamento Intersindical de Estudos Parlamentares (Diap) indicam que na Câmara dos Deputados em 2006 foram 48% de novos deputados eleitos. Em 2010, 45% novos deputados ganharam cadeiras. Nas assembleias legislativas de todo o país, a taxa de renovação média caiu de 52,58% em 2002 para 44,17% em 2006 e para 40% em 2010, segundo informações fornecidas pela União Nacional dos Legislativos (Unale).

Além de ter, ao longo das últimas quatro eleições para as assembleias legislativas, optado cada vez menos por novos candidatos ;de fora; da carreira política, o eleitor brasileiro continua a se identificar mais com as candidaturas de homens do que de mulheres. Também para as assembleias legislativas é reiterada a constatação de especialistas que acompanham a representação feminina na Câmara dos Deputados. ;Entre 1998 e 2002, as deputadas eleitas subiram de 10,11% para 13,35%. Mas esse percentual oscilou para 11,66% em 2006 e para 13,02% em 2010;, sustenta Simone Cristina Dufloth.

Em 2010, as assembleias legislativas do Mato Grosso do Sul, do Mato Grosso, de Goiás e de Minas Gerais apresentaram o pior desempenho em relação à representação feminina. Nas duas primeiras, nenhuma mulher foi eleita. Em Goiás, apenas 5,71% das cadeiras; em Minas, 5,8%. Nas assembleias legislativas de Sergipe, do Amapá e do Piauí foram registrados os maiores índices de sucesso eleitoral feminino: 23,81%, 25% e 25,93% das cadeiras foram conquistadas por mulheres.

Preconceito O pífio desempenho eleitoral das candidaturas femininas se verifica apesar da chamada política de cotas, diretriz legal em vigor desde 1997, segundo a qual cada partido ou coligação deve preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo, assinalam as pesquisadoras. ;As mulheres também continuam subrepresentadas a despeito de a composição do eleitorado brasileiro ter se revertido no hiato de gênero, passando as mulheres a representar a maioria dos votantes em todas as faixas etárias;, acrescenta Simone Cristina Dufloth.

As pesquisadoras chamam ainda a atenção para o fato de a subrepresentação da mulher nos legislativos brasileiros apontar para o preconceito do eleitorado em relação à mulher, que, em sua avaliação, manifesta-se, principalmente, pelo eleitorado feminino, que também é influenciado pela cultura patriarcal, conservadora, e, muitas vezes, por forças religiosas que reforçam o ;papel subalterno; da mulher.

Apesar de na população brasileira, segundo o censo de 2010, apenas 7,9% ter o ensino superior completo, 70% dos deputados estaduais e distritais eleitos no último pleito têm nível de escolaridade superior completo. ;Na eleição de 1998, 63,69% dos deputados estaduais e distritais declararam ter nível de escolaridade superior completo. Ao longo das últimas eleições, esse percentual vem aumentando paulatinamente;, afirma Simone Cristina Dufloth. ;Pessoas com baixa escolaridade têm, a princípio, menores chances de ser eleitas para deputado estadual ou distrital;, considera Simone Cristina Dufloth. Em 2010, apenas 5,21% dos deputados estaduais e distritais eleitos tinham escolaridade menor do que o ensino médio completo. Em Minas Gerais, em 2010, 72,46% dos deputados estaduais eleitos tinham escolaridade superior e apenas 4,35% não tinham concluído o ensino médio.

Estratégia eficiente

Embora ainda considerada alta quando a taxa de renovação dos legislativos brasileiros é comparada com outras democracias estáveis, é fato que a carreira política é intercalada por mandatos legislativos e executivos. Depois de eleitos, muitos deputados estaduais e federais disputam, já no ano seguinte, as prefeituras. Especialistas consideram a estratégia eficiente para que os deputados permaneçam na carreira política: nas eleições majoritárias ganham visibilidade e, se eleitos, assumem a chave do cofre do município, o que constitui grande oportunidade para levar benefícios às suas bases eleitorais. Ao fim do mandato executivo voltam para as assembleias legislativas e Câmara dos Deputados.

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