CIDADE DO CONHECIMENTO

A agitada rotina de um dos maiores celeiros de ensino e cultura do país: no câmpus são 55 mil pessoas aprendendo, ensinando, lutando contra a insegurança ou apenas ganhando a vida

Jefferson da Fonseca Coutinho (Textos) Alexandre Guzanshe (Fotos)
postado em 03/03/2014 00:00

Fôssemos dois criminosos a notícia seria outra. Em 18 horas de andanças por quase 30 prédios da Universidade Federal de Minas Gerais, nenhuma abordagem. Só no fim da jornada de dia e noite no câmpus Pampulha um segurança anota a placa do carro em que está a equipe do EM. Aproveitando-se dessa aparente liberdade, no último caso de assalto na UFMG cinco bandidos levaram um carro, dois celulares e uma carteira. A universidade apertou o controle nas portarias e pediu reforço policial. Mas a insegurança é só um de muitos aspectos da vida dos cerca de 55 mil cidadãos (mais gente do que em 790 dos 853 municípios mineiros) que transitam por este universo. Há mais. Muito mais, como mostra esta imersão nos 5,3 milhões de metros quadrados de uma das mais importantes universidades do país.

Pelas salas de aula da UFMG, meta de tantos, entre outros alunos de tutano passaram Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, João Guimarães Rosa, Juscelino Kubitschek, Dilma Rousseff, Pedro Nava e Tancredo Neves. Inspiração para muitos. É pelo futuro de expressão para o filho a batalha de Norival Souza, de 43 anos. Antes das 6h, o encarregado de instalações hidráulicas já está de pé para levar o caçula à universidade. Lucas, de 5, é aluno da Unidade Municipal de Educação Infantil (Umei) Alaíde Lisboa, no câmpus da federal. ;É um sonho ver meu filho formado em algum curso aqui dentro;, diz.

A Portaria 1 é o acesso à cidade do conhecimento pela Antônio Carlos. O Centro de Desenvolvimento da Criança, creche inaugurada em 15 de março de 1990, fica logo acima, à esquerda. É emocionante ver menininhos e menininhas arrastando as mochilas coloridas em rodinhas. Há também os pequenos cidadãos de colo, grudados no cangote dos pais. Pouco a pouco, essa boa gente miúda vai ocupando as salas da Umei, enquanto o parquinho, vazio, adormece.

Às 7h05, um batalhão aperta o passo para vencer o asfalto e ganhar o número 6.627 da grande avenida. No sinal verde para os pedestres, aos montes, os estudantes passam pela portaria, a essa hora sem controle ; depois do último assalto no câmpus, a Reitoria determinou que alunos e visitantes devem se identificar, porém, só depois das 18h. Pela manhã, os que estão motorizados vão em busca das 5,5 mil vagas de estacionamento. Já pelas calçadas, trilhas e gramados se espalha uma diversidade de estilos ; especialmente em cabelos, barbas e óculos: rapazes e moças com roupas básicas, extravagantes, coloridas e curtas, de mochilas ou bolsas descoladas.

Nem todos estão a caminho das salas. A moça bonita, vestida de oncinha, vende balas, doces, jornais e biscoitos de queijo. Também café, leite e suco para matar a sede logo cedo. Sorridente, em paz, a vendedora é antídoto para o mau humor das manhãs. Na bancada improvisada na calçada, ela conversa amizades com alguns já conhecidos. De arranjo nos cabelos e brincos de bom gosto, Ludmila, que acorda à 1h para preparar a venda e desde as 5h está em público, esbanja doçura no desjejum do câmpus.

Ao longe, chama a atenção o garoto andando e lendo. Em passos espertos, o magro barbado não tira os olhos de Primeiras estórias, de um certo João, ex-aluno da UFMG. Anotações nos banheiros também deixam impressão no turno: ;+ amor, por favor!”, ;Querem nos transformar em máquinas;, ;Je$u$ Incorporation;, ;A gente se adaptou ao mundo feroz. Agora é hora de fazer com que o mundo se adapte a noz (sic);, ;Fundamentalismo religioso, não!”, ;Vote nu por um partido despido;. Também lá é lugar de opinião.

Indiferentes aos slogans e bandeiras, os pombos, os gatos e os peixes vão bem. Mirando os bichos, a fotógrafa bonita vai ao chão pelo melhor disparo rumo à natureza. No auditório 1 da Faculdade de Ciências Econômicas (Face), a 1; Jornada de Estudos Indianos. Cooperação Acadêmica Brasil-Índia no Século 21. O programa anuncia para as 9h mesa de cultura e filosofia com Maria Lúcia Abaure (UFPB) e Evandro Vieira Ouriques (UFRJ).

É recreio no diretório acadêmico (DA). Meninos e meninas se revezam nas mesas de pebolim e sinuca no Edifício Professor Yvon Leite de Magalhães Pinto. A estudante de economia, carregada de livros, aperta o passo nas havaianas brancas no sentido da Biblioteca Central, território de gente graúda. Não muito longe dali, a outra, morena e de pouca educação com o trânsito, ignora a placa de proibido estacionar e, na lata, embica o Uno azul no ponto de ônibus ; cena comum, no caos das vagas para estacionar. Carro parado, vamos atrás do que mais há para se ver neste mundo do conhecimento.

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