Jaguara: igreja-mãe

No ano do bicentenário da morte do Aleijadinho, seria bom que peças dispersas do mestre fossem reunidas em acervo público

Marcos Paulo de Souza Miranda Coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais
postado em 20/03/2014 00:00

Situada no atual município de Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Fazenda da Jaguara foi uma das maiores e mais importantes propriedades rurais do período colonial em Minas Gerais. Depois de ter pertencido a Francisco Cunha de Macedo (1754), a fazenda foi adquirida pelo abastado minerador português Antônio de Abreu Guimarães, que ali, em 1786, erigiu a igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, substituindo uma velha capela.

Sob os auspícios do potentado Antônio de Abreu Guimarães, na Jaguara trabalhou, entre 1786-1788, o maior mestre do barroco mineiro: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que produziu os altares, os púltipos, o coro, móveis e muitas imagens sacras e peças de talha para decorar o primoroso templo.

Apesar de estar situada em uma fazenda de propriedade privada, a igreja da Jaguara era um templo consagrado pelo bispado de Mariana ao uso coletivo. Nela eram realizados atos religiosos por padres da Paróquia de Santa Luzia e, ao seu lado, existia um cemitério onde eram sepultados moradores da região.

Por se tratar de templo dedicado ao uso coletivo, todo o seu patrimônio estava vinculado à Igreja Católica, ficando submetido a um peculiar regime jurídico (os chamados bens de mão-morta, caracterizados pela inalienabilidade).

Entretanto, no início do século 20, com a aquisição da fazenda onde estava situado o templo pelo anglicano George Chalmers, que havia sido diretor da Mina de Ouro Morro Velho, a edificação foi sendo relegada ao abandono. Não querendo uma Igreja Católica em funcionamento em suas terras, mas certamente sabendo que os bens que guarneciam o templo não lhe pertenciam, o inglês Chalmers passou a remetê-los a outras igrejas, para que pudessem continuar a servir ao culto religioso.

O conjunto mais expressivo, constituído pelo altar-mor, altares laterais, a tarja do arco-cruzeiro, com dois anjos, um altar da sacristia, dois púlpitos e uma tribuna de coro, foi enviado por Chalmers à cidade de Nova Lima no ano de 1910, onde foi inserido na igreja do Pilar. Essas obras de talha, de rara beleza e erudição, foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1950.

Uma belíssima Nossa Senhora da Piedade, de autoria do Aleijadinho, foi remetida à capela do Bagre, hoje cidade de Felixlândia, da qual é a padroeira. Outras imagens de menor vulto foram incorporadas ao patrimônio de capelas de Pedro Leopoldo e região. Assim, a Jaguara pode ser considerada a igreja-mãe de vários outros templos mineiros.

Infelizmente, muitas outras obras de talha (parte do coroamento de um altar e florão com anjo contendo o nome de Antônio de Abreu Guimarães em uma fita), imaginárias (Pomba representando o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora das Dores, Santa Rita e São Jerônimo), cantarias (portais, óculos e soleiras), peças de madeira (portas e janelas), móveis (credências) e ferragens (cruz, galo e esfera armilar das torres) foram parar nas mãos de antiquários e colecionadores em transações nebulosas e juridicamente ilícitas, que são objeto de investigação.

A possível pia batismal da primitiva capela da Jaguara encontra-se atualmente integrada ao acervo do Museu Mineiro, em Belo Horizonte, onde pode ser conhecida e fruída coletivamente, ao contrário das demais peças, que se transformaram em objetos de decoração de residências privadas.

Seria desejável, neste ano em que se celebra o Barroco Mineiro e o bicentenário da morte do Aleijadinho, que tais objetos, hoje dispersos sobretudo por Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, fossem novamente reunidos e integrados a um acervo gerido pelo poder público, mediante devolução voluntária de quem os detêm.

Ao caso da Jaguara cabem, com exatidão, as palavras do Dalai Lama: ;Podemos perdoar a destruição do passado, causada pela ignorância. Agora, no entanto, temos a responsabilidade de examinar eticamente o que herdamos e o que passaremos às gerações futuras.;

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