Ucrânia retira tropas

O governo interino de Kiev ordena a saída de pessoal militar e famílias da península. Paramilitares pró-Moscou ocupam a sede do comando naval e capturam almirante

Gabriela Freire Valente
postado em 20/03/2014 00:00
 (foto: VASILIY BATANOV/AFP)
(foto: VASILIY BATANOV/AFP)





Brasília ; O governo interino da Ucrânia começou ontem a retirar da Crimeia seu efetivo militar, depois que forças paramilitares aliadas à Rússia ocuparam ao menos quatro instalações, entre elas o comando local da Marinha ucraniana. ;Estamos elaborando um plano que nos permita remover os soldados e suas famílias da península, para que sejam levados rápida e eficientemente para a Ucrânia continental;, anunciou o secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa, Andrii Parubi. A ofensiva ocorreu um dia depois de o presidente Vladimir Putin formalizar a anexação da região à Federação Russa.

Bandeiras da Rússia foram erguidas nas bases de Sevastopol e Novoozerne, onde um comandante da Marinha ucraniana foi capturado pelas forças pró-Moscou. Em outra indicação de que a ocupação da Crimeia parece irreversível, Kiev anunciou seu desligamento da Comunidade de Estados Independentes (CEI), que reúne 11 ex-repúblicas soviéticas, e estabeleceu a exigência de visto para que cidadãos russos ingressem na Ucrânia. Em Kiev, o governo ucraniano declarou que o ministro da Defesa, Igor Teniukh, e o vice-primeiro-ministro, Vitali Yarema, pretendiam viajar à Crimeia para ;acabar com a escalada;, mas o primeiro-ministro da região da Crimeia, Serguii Axionov, imediatamente declarou que os ministros seriam impedidos de entrar na península.

Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama descartou a ideia de uma reação militar e defendeu o uso de ;todos os nossos recursos diplomáticos para garantir uma coordenação internacional forte, que envie uma mensagem clara;. ;Enquanto a Rússia continuar nesse caminho sombrio, terá de enfrentar crescente isolamento político e econômico;, reforçou o vice, Joe Biden. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, a embaixadora americana Samantha Power afirmou que a ofensiva militar russa na Crimeia ;não pode se repetir em outras partes da Ucrânia;, e completou: ;O ladrão pode roubar algo, mas isso não lhe confere o direito de propriedade;. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, pediu à Rússia que deixe claro que não buscará anexar qualquer território além da Crimeia.

Apesar das tensões, Edward Lozansky, cientista político e presidente da American University, em Moscou, minimizou a possibilidade de confronto entre tropas de Kiev e milícias pró-Moscou. ;O Exército ucraniano não é páreo para o russo. Além disso, muitos militares estão passando para o lado russo;, relatou ao Correio. Segundo Lozansky, um conflito armado só ocorreria se forças dos EUA ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se envolvessem.

Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), endossa a avaliação, mas lembra o perigo de uma escalada de violência no Leste ucraniano. ;Há cidades com uma forte comunidade russa, que está tentada a repetir o processo de desligamento da Ucrânia (leia mais abaixo), e a situação pode ficar mais tensa;, observou.

AGRESSÃO O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, classificou a anexação da Crimeia à Rússia como a ameaça ;mais grave; à estabilidade europeia desde o fim da Guerra Fria. "Isso é um alerta. Para a Otan, para todos aqueles compromissados com a Europa, com a liberdade e com a paz", considerou. Rasmussen denunciou a movimentação russa como uma ;agressão militar; que violou a soberania da Ucrânia, e observou que, se continuar no curso atual, a Rússia estará escolhendo um crescente isolamento internacional.

Antecipando-se à reunião de segunda-feira entre os chefes de Estado e governo do G-7, o premiê britânico, David Cameron, defendeu que a Rússia seja expulsa permanentemente do G-8, do qual participa ao lado dos sete países mais industrializados (EUA, Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Japão). Em uma primeira reação concreta, o governo da Alemanha suspendeu um importante projeto militar com a Rússia por achar que qualquer comércio de armas com Moscou é ;indefensável;.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki- moon, pretende reunir-se hoje, em Moscou, com Putin e o chanceler Sergei Lavrov. Amanhã, deve deslocar-se para Kiev e encontrar-se com o governo ucraniano. Yevhen Perebyinis, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que ;as ações da Federação Russa não serão deixadas sem resposta;, e acenou com ;graves consequências para as relações bilaterais;.

O desligamento do país da CEI deve afastar Kiev definitivamente da zona de influência da Rússia, que, no entanto, avança também para consolidar a ligação física com a Crimeia. Foi anunciada ontem a decisão de construir uma ponte de 7,5km ligando a península ao território russo, para permitir o acesso à área sem necessidade de passar por solo ucraniano. O Parlamento da Crimeia aprovou uma lei e criou um órgão para assumir o controle de todos os portos da Ucrânia. Operadores disseram que os portos de Kerch, Yalta, Evpatoriya, Theodosia e o porto comercial de Sevastopol agora estão sob controle do novo comitê.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação