"Manda água, mãe de Deus"

Mário Ribeiro
postado em 20/03/2014 00:00
Os antigos definiram a água como ;precioso líquido; por ser simples, pura e essencial, enquanto nós, modernos, não lhe damos justo valor porque parece não passar por nossas cabeças o risco de sua falta.

Em época de seca, físico mineiro ganhou fama de, a bordo de avião teco-teco, fazer chover ao injetar misteriosa substância nas nuvens.

A gente duvidava que a chuva viesse, talvez por não acreditar no real poder do conhecimento científico e dos avanços tecnológicos, que com o tempo tornaram-se ainda maiores.

Rendidos ao computador, ao celular e tablets com suas infernais (in)utilidades, torramos energia para recarregá-los sem parar e sem lembrar que antes recorria-se à interferência divina para pedir chuva. Hoje, sem ajuda dos céus, há ameaça de faltar eletricidade ; mãe de todas energias ; pelo pouco investimento em energias alternativas.

No pequeno sítio da infância, nossa mãe repreendia meu pai por ele, na seca, erguer as mãos e gritar: ;Manda água, mãe de Deus!”.

Para evitar atritos, Joãozito parou de apelar a divindades: criativo como músico e mecânico, deu um jeito de distribuir a água do açude de modo que ela ao mesmo tempo tocasse o moinho de fubá e a turbina que ele próprio projetou e a antiga Mesbla tornou realidade.

A turbina acionava um dínamo e éramos os únicos na área rural da região a ter energia em corrente contínua, menos potente que a corrente alternada de cidades, mas capaz de iluminar a casa, irrigar o laranjal, tocar rádio e o ralo de esfarelar mandioca para fazer farinha.

Hoje, fala-se na construção de pequenas usinas para complementar a energia gerada por grandes hidrelétricas, o que já deveria ter sido adotado há tempos não fosse o desprezo por soluções trocadas pela idolatria a bobagens surgidas na garupa do avanço tecnológico e que se somam à insensatez de desabrida poluição do meio ambiente.

Avanço que parece atraso, pois tem acabado com a importância a ser dada à água e, no embalo, com a gentileza e o respeito ao outro.

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