Dentro das leis de mercado

Marina Colasanti
postado em 20/03/2014 00:00

Mais de 400 PMs, além das tropas do Bope e do Choque, partiram para retomar o Alemão depois dos ataques às UPPs.

Toda vez que chego do Galeão ou da montanha, olho à minha direita aquela massa de moradias que se estende a perder de vista por cima de morros e vales, compacta, sem uma pausa de verde, sem um ponto de respiro, parede contra parede, tudo no osso, tijolo e carne à mostra, e me pergunto como se deixou isso acontecer, e como se administra.
Falo de coisas que pouco sei, mas vejo homens armados avançando, e enterros, e carcaças de ônibus incendiados. E sei que isso me diz respeito. Tateio, pois, com cuidado.

O consumo de cocaína aumentou brutalmente no Brasil. Consumimos hoje quatro vezes mais do que a média mundial. É uma tremenda demanda. E pelas leis de mercado, toda vez que existe uma demanda muitos se apresentam para atendê-la, disputando as fatias da torta.

Nenhum grande mercado, hoje, é apenas nacional. No caso da cocaína, importamos a matéria-prima, ou pasta, processamos uma parte para consumo interno, a outra exportamos. Está aí armada ; a palavra vem a calhar ; uma multinacional. O dinheiro resultante disso tudo é, para mim, inimaginável.

Pensando do ponto de vista empresarial, se há produto e se há demanda tem que haver pontos de venda. Quanto mais, melhor. O jogo do bicho, por exemplo, sabe disso muito bem: por qualquer lado que eu saia da minha casa em Ipanema, sou levada a passar por um ponto, espécie de escritório móvel, em que um funcionário sentado em cadeira ou banquinho atua de forma visível na calçada.

Os pontos de venda de tóxicos sempre funcionaram nas comunidades. Lembro-me de que quando amamentava minha filha mais jovem, acordando de três em três horas, via pela janela o movimento com que, a noite inteira, usuários eram atendidos no sopé do Pavão/Pavãozinho. O comércio do ilícito atua com eficiência, porém não com a maciez de um shopping center. E, correndo por fora da lei, essa eficiência só se mantém graças ao estabelecimento de outro código.

É onde mora o desastre.

Agora os policiais invadem o Alemão para, proteger os habitantes. Fecham-se os pontos de venda. Os funcionários e responsáveis pelos pontos tentam resistir, depois emigram. Um clima civilizatório pousa sobre o Alemão.

Mas nas festas, nos escritórios, nos banheiros, nas casas, fileiras de pó branco continuam sendo estendidas sobre superfícies polidas e cheiradas através de canudinhos de papel. Como se os usuários não tomassem conhecimento ou não tivessem nada a ver com o que acontece do outro lado, a demanda continua inalterada. Ou, certamente, aumentando.

Nisso tudo, o tráfico acaba sendo bom de marketing. O espaço que ocupa na mídia é grandioso. Contam a favor da sua imagem de poder as notícias e fotos de comércio fechado por sua ordem nas comunidades, cenas de protesto contra mortes por bala perdida, divulgação de enterro de policiais assassinados, e até mesmo o noticiário da força militar necessária para enfrentá-lo.

Não vejo espaço equivalente sendo ocupado por campanhas ou ações contra o consumo. Pelo contrário, tudo nos diz que as drogas continuam na crista da moda.

Com a demanda a mil, é impossível acabar com o fornecimento. Conseguiremos, se tanto, obrigar mudança de pouso para pontos de venda.

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