Parentes de Cláudia processarão o Estado

Parentes de Cláudia processarão o Estado

O marido e os filhos da mulher baleada em operação policial e, depois, arrastada no asfalto por um camburão, são recebidos pelo governador fluminense e vão exigir indenização. Presos há três dias, os PMs envolvidos no caso prestaram novo depoimento ontem

ANA POMPEU
postado em 20/03/2014 00:00
 (foto: Daniel Marenco/Folhapress)
(foto: Daniel Marenco/Folhapress)

Em meio à dor da perda traumática, o dia da família da auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira teve agenda cheia de questões burocráticas. Morta no domingo, vítima de uma violenta sequência de erros, o caso ganhou repercussão com a divulgação de um vídeo que registrou a mulher sendo arrastada no asfalto, por cerca de 350 metros, após cair da caçamba de um camburão da Polícia Militar. Ela tinha sido baleada momentos antes, na Favela da Congonha, onde morava, e estava sendo levada, segundo a polícia, para um hospital. Além de encontro com o governador do estado, Sérgio Cabral, os parentes de Cláudia se reuniram com o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa, deputado Marcelo Freixo (PSol), e prestaram novos depoimentos à Polícia Civil.

A família pretende processar o Estado e pedir indenização. Os parentes foram recebidos pelo delegado Fernando Veloso, na manhã de ontem. No encontro, o titular informou que, após a fase de depoimentos, será feita uma reconstituição da sequência que levou à morte de Cláudia. O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Luís Castro, também participou da reunião.

Veloso ressaltou a importância da participação e do testemunho dos moradores para a conclusão das investigações. ;É muito importante que moradores da comunidade que tenham presenciado a ação dos policiais militares e também o socorro à Cláudia compareçam à delegacia para nos ajudar a entender a dinâmica dos fatos.; A reconstituição ainda não tem data marcada. A reunião ocorreu no prédio da Chefia da Polícia Civil e foi acompanhada por representantes da Defensoria Pública.

Dois dos três PMs envolvidos têm ficha criminal longa e constam como suspeitos de autoria de vários assassinatos. O subtenente Rodney Miguel Archanjo tem três registros de homicídio decorrentes de intervenções policial, ou seja, quando há confronto. Já o subtenente Adir Serrano Machado é apontado como autor de 13 homicídios na mesma situação. O sargento Alex Sandro da Silva Alves é o único que não tem antecedentes. O inquérito vai apurar também de onde partiu o disparo que atingiu a moradora do Morro da Congonha.

Novas testemunhas

Rodney Miguel, Adir Serrano Machado e Alex Sandro da Silva prestaram novo depoimento, na tarde de ontem, na 29; DP (de Madureira). Mais dois policiais que participaram da operação no Morro da Congonha também foram ouvidos. O primeiro-tenente Rodrigo Boaventura, chefe da operação no Morro da Congonha, e o sargento Zaquel Jesus Bueno estavam em outro veículo, no domingo. Eles teriam sido os primeiros a chegar ao local onde Cláudia estava caída, baleada. Boaventura e Bueno não estão presos nem foram indiciados. Eles prestaram depoimento como testemunhas.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj pretende acompanhar de perto a apuração do crime para garantir que os envolvidos sejam punidos. Em reunião com Marcelo Freixo, o irmão de Claudia, Júlio César da Silva Ferreira alertou para o risco de as armas dos policiais envolvidos não terem sido apreendidas para perícia. Segundo ele, os três PMs que levaram o corpo de Cláudia não participaram da operação na favela. ;A viatura se deslocou de lá (da base do 9; BPM). Eles ficaram encarregados de fazer a retirada, que, por sinal, foi muito malfeita. Eles chegaram, pegaram Cláudia e a jogaram na viatura de qualquer maneira. O exame de balística das armas deles não vai dar nada. Tem que recolher as armas dos nove (PMs que participaram da operação na favela);, lembrou.

A preocupação foi relatada ao governador Sérgio Cabral e à chefia da Polícia Civil. Freixo também se comprometeu a acompanhar o desempenho escolar dos quatro filhos e dos quatro sobrinhos de Claúdia, com idades entre 5 e 18 anos. De acordo com a assessoria de imprensa do deputado, ele pretende se reunir com a direção das escolas dos menores para conversar sobre o que pode ser feito.

;Já passou da hora de eles (PMs) estarem presos. Essa coisa de chegar à comunidade atirando e falar que foi tiroteio precisa acabar;

Alexandre Fernandes da Silva, marido de Cláudia

Palavra de especialista
Pela desmilitarização
É preciso que haja uma investigação rigorosa para entender o que realmente aconteceu com Cláudia. Independentemente disso, o socorro totalmente inadequado dá visibilidade para uma prática da Polícia Militar que não tem como fim a preservação da vida. Nós e outras organizações de direitos humanos temos alertado há muitos anos que essas cenas chocantes, na verdade, não são um fato isolado. O chamado falso socorro, descaracterização da cena de crimes, supostos confrontos, recolhimento de cartuchos, intimidação de testemunhas, é regra. A resistência seguida de morte acoberta grande parte das execuções sumárias. Ainda na década de 1990, pesquisas observaram que a distância dos locais até os hospitais não condizia com o tempo até a chegada à unidade de saúde.

Por isso, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo proibiu o socorro por policiais. No Rio, uma portaria trata dos autos de resistência e determina que, nesses casos, seja feito o acionamento de equipe de apoio para preservar o local. Precisamos de uma reforma ampla da corporação, com desmilitarização da polícia e aprimoramento dos órgãos de controle externo, de perícia. A crescente militarização, o uso de armamento cada vez mais letal, a violência policial durante as manifestações, os casos de execuções sumárias e de desaparecimentos, como o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, demonstram que esse modelo de polícia não funciona, não serve, precisa ser modificado.

Sandra Carvalho, diretora da ONG de direitos humanos Justiça Global

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