Brasil S/A

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Na 65ª posição entre 160 países medidos pelo desempenho logístico, o Brasil está entre a apatia e outro salto

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 20/03/2014 00:00
Ainda o Jeca Tatu

O Brasil não está à beira do abismo, segundo o economista popstar Paul Krugman afirmou numa palestra em São Paulo, tendo a seu lado o ex-ministro e também economista Antonio Delfim Netto a afiançar que a situação das contas fiscais nacionais é ruim, mas não calamitosa, e assim fizeram para criticar a condução da economia sem, com isso, concordarem com os cenários mais pessimistas do mercado financeiro.

Curioso é que, exceto pelos que praticam uma aversão militante aos governos do PT, nenhum dos quais tem posição de destaque no debate sobre a economia brasileira, ninguém prevê descontrole da inflação, moratória da dívida, crise cambial, desalento social ; cenários de insolvência comuns no passado recente e esconjurados a duras penas desde a reforma monetária de 1994. O Brasil não está quebrado nem flertou com o abismo mesmo quando o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, simbolizava a nossa riqueza potencial deitada em berço esplêndido.

O debate econômico e social começa a se dar num plano mais sutil, tratando, ainda que apenas pelos especialistas, dos conflitos do contrato fiscal (entre demandas por maior distribuição de renda e qualidade dos serviços públicos, além dos níveis de tributação e o próprio peso da carga tributária em relação ao PIB); dos subsídios e seu custeio frente a um orçamento rígido e com viés deficitário; da recuperação da capacidade do investimento privado e estatal.

Essas são as referências que informam sobre o crescimento à vista da economia e sua capacidade de atender as demandas. O cenário não parece promissor. A participação dos lucros retidos das empresas no financiamento total dos investimentos, por exemplo, está em queda desde 2005, quando representou 67% dos fundos investidos em aumento de produção e infraestrutura. No ano passado, caiu a 32%. E sem a perspectiva de ser compensada por capitais externos (dado o viés de menor liquidez do dólar), pelos financiamentos do BNDES (sujeitos à restrição fiscal) e pelo mercado de capitais (acanhado pela pressão da dívida pública, causa também dos juros sempre recordes).

Tais distorções se deram mais ou menos em equilíbrio. Hoje, tendem à exaustão, num quadro com muito gasto, pouco investimento e certo sentimento de conformismo tal como ao tempo de Jeca Tatu. Mas agora calçado, sem barriga d;água e com a visão para além de onde a vista alcança graças à internet. Completa a imagem um novo ;extrativismo; ; a distribuição do que nem foi produzido, como diz Delfim Netto.

O risco do conformismo

É este o sentido da crítica mais responsável, que busca ir além do movimento da inflação, dos déficits fiscais e das contas externas, e do que os acompanham: da taxa de juros à desvalorização da moeda.

Não cabe falar de economia andando para o abismo nem de que tudo está bem, mas vale cogitar se, à falta de diagnóstico preciso, de prescrição apropriada e de coesão para implantá-la, venha um longo período de apatia econômica, tal como ocorre na Europa, sem termos alcançado o nível civilizatório dos europeus. Estaríamos presos ao que os economistas chamam de ;armadilha da renda média;, quando a estagnação se seque a um período de forte crescimento, com a renda per capita ao redor de US$ 12 mil a US$ 15 mil (onde estamos)?

Transportes sofríveis

A pergunta encontra respostas em referências internacionais. Hoje, o Banco Mundial divulga um indicador bienal iniciado em 2007 e nele o Brasil, como em outras dessas comparações, deixa a desejar. Desta vez, a pesquisa avalia o desempenho da logística em 160 países, com a situação da qualidade de estradas e de transportes, do custo e da eficiência aduaneira e do tempo gasto para movimentação de cargas.

No estudo, intitulado Connecting to Compete 2014, o Brasil ocupa a 65; posição no Índice de Desempenho Logístico ; ou LPI, na sigla em inglês ;, algo baixo para a sétima maior economia do mundo. Não só: para o país líder na exportação de diversas commodities agrícolas e minerais. E que tem na exportação a principal receita para bancar a importação decorrente da melhoria da renda e do baixo desemprego. A logística insuficiente e cara achata a competitividade da economia.

Até Argentina à frente

Menos mal que esteja ganhando tração o vasto programa de concessão de operações de logística, envolvendo rodovias, aeroportos, portos e ferrovias. Mas se perdeu tempo, que no mundo significa a perda de mercados, portanto, de receita e renda, enquanto a concorrência foi em frente. No bloco dos BRICS, só a Rússia vem trás no LPI, no 90; lugar. China aparece em 28;; Índia, 54;; e África do Sul, 34;.

Até a Argentina está à frente, na 60; posição. Na América Latina, despontam o Chile, no 42; lugar, e México, no 50;. Alemanha lidera o índice, com os EUA na 9; posição. É axiomático que sem estrada e transporte não se vai a lugar algum. Nem se movimenta a economia. O estudo do Banco Mundial indica nosso atraso e o esforço para vencê-lo. Não é impossível, se houver entusiasmo para compensar o suor da consistência macroeconômica que o sustenta. Esse é o desafio.

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