Presa por envenenar filhas

Presa por envenenar filhas

Foragida desde 2006, mulher é detida no Varjão quase oito anos após matar, no Rio de Janeiro, as gêmeas, de oito meses. Ela colocou chumbinho na mamadeira. Maria Elizete de Jesus trabalhava como doméstica em uma casa do Lago Norte

» ARTHUR PAGANINI
postado em 20/03/2014 00:00
 (foto: Divulgação/Policia Civil do DF)
(foto: Divulgação/Policia Civil do DF)


Após sete anos foragida da Justiça carioca, uma empregada doméstica acusada de um crime bárbaro foi encontrada ontem pela polícia no Varjão. Em setembro de 2006, Maria Elizete de Jesus, 32 anos, chegou a ser presa, logo após ter assassinado as duas filhas gêmeas, de oito meses, com veneno de rato misturado ao leite nas mamadeiras das crianças. À época, ela se valeu de uma ordem judicial, que lhe garantiu o direito de responder ao processo em liberdade. Mas Maria Elizete fugiu e foi condenada, à revelia, a 32 anos de prisão.

A mulher foi para a Bahia e, depois, chegou ao Distrito Federal, onde estava desde janeiro de 2013. Foi presa em casa, no Varjão. Não resistiu à ação conduzida por agentes da 66; Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro (Piabetá) e do Instituto de Identificação Félix Pacheco, do estado carioca, e que contou com a participação de policiais civis da 9; DP (Lago Norte).
Maria ficou presa na carceragem da Polinter, no Rio, até o início de 2007, quando um alvará de soltura lhe foi concedido por conta do prazo para diligências concedido à época para a investigação. Uma vez em liberdade, segundo informações prestadas pelo titular da 9; DP, Ricardo Viana, Maria fugiu para a Bahia. Há um ano e dois meses, chegou a Brasília na companhia do atual marido e fixou residência no Varjão.

Então moradora da favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, Maria teria colocado o veneno conhecido como chumbinho na mamadeira das filhas antes de sair para o trabalho, às 7h de 23 de setembro de 2006. As filhas ficaram com uma babá, que notou as reações nas crianças cerca de duas horas depois da saída da mãe.
Maria negou o crime inicialmente e tentou incriminar a babá, mas, depois que policiais ouviram a cuidadora e apreenderam o frasco que continha o veneno em sua casa, a mulher acabou confessando o duplo homicídio em depoimento na 32; DP, em Taquara (RJ). Raíssa morreu na tarde do mesmo dia, e Larissa, um dia depois, no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca.

Vingança

À época, Maria afirmou que serviu o veneno para as filhas para se vingar do ex-marido, que a teria abandonado durante a gestação. Eles haviam rompido o relacionamento e, ao saber que ele já teria constituído nova família, decidiu atentar contra a vida das filhas. O mandado de prisão da acusada foi expedido pelo 3; Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. O delegado responsável pelo caso, Antônio Silvino, foi procurado pela reportagem, mas não foi localizado até o fechamento desta edição. Ele e outros dois agentes cariocas retornaram ao Rio de Janeiro com Maria ontem, às 21h30, em um voo comercial.

;Uma ordem de prisão contra a acusada constava do cadastro nacional de mandados, mas não tínhamos informação de que ela residia em Brasília. A Polícia Civil do Rio de Janeiro fez um trabalho de investigação, que acabou chegando ao local onde ela morava, por isso prestamos apoio à operação. Durante toda a ação policial, ela se manteve fria e só esboçou emoção quando foi questionada pela imprensa sobre o crime;, afirmou o titular da 9; DP, Ricardo Viana. Maria trabalhava no Lago Norte e, segundo Viana, tinha bom relacionamento com a patroa. A casa não tem crianças. Os policiais do Rio de Janeiro chegaram a Brasília na última terça-feira para cumprir o mandado.

Memória

Crianças mortas em Ceilândia

Em 12 de setembro de 1989, os brasilienses testemunharam um crime cruel. Deprimida com o diagnóstico de uma doença estigmatizada, a hanseníase, a desempregada Valéria Dutra da Silva, 27 anos, deu veneno de rato para as filhas Adriene, 6, e Mariana, 5. As meninas eram frutos do primeiro casamento. Como mantinha um novo relacionamento e acreditava que o companheiro não aceitava as crianças, decidiu matá-las na esperança de resguardar o marido.

Depois de comprar o veneno em um mercadinho próximo de casa, em Ceilândia, ela deu uma porção do produto dissolvido em leite para as filhas. As duas começaram a passar mal quase imediatamente, e, vendo as pequenas agonizarem, Valéria desesperou-se e as levou até o Hospital Regional de Taguatinga. Elas chegaram a ser atendidas, mas os médicos pouco puderam fazer. Na madrugada de 13 de setembro, as duas garotinhas morreram por causa do envenenamento. A mãe foi presa em flagrante.

Depois de quatro meses detida, ganhou a liberdade por força de um habeas corpus e se mudou para Goiás. Nunca mais foi encontrada pela Justiça para responder pelo crime. Dezenove anos e cinco meses depois da morte de Adriene e Mariana, a pouco menos sete meses da prescrição do duplo homicídio, a Polícia Civil do DF encontrou Valéria. A mulher acusada de matar as filhas vivia em Anápolis, a apenas 160km de Brasília, desde que fugiu do DF.

A prisão aconteceu por acaso, quando a Divisão de Repressão a Sequestros (DRS) fazia uma operação no município vizinho. Um morador da cidade comentou com os agentes sobre o caso de uma senhora que vivia na cidade e teria cometido um crime no Distrito Federal nos anos 1980. Ao buscar o nome da mulher no sistema de informações da polícia, foi descoberto que havia um mandado de prisão preventivo contra ela. ;Quando soube da doença, comecei a ser humilhada. Não queria que elas ficassem feias como eu;, disse Valéria, ao ser detida.

Cinco meses depois, em 30 de junho de 2009, o caso chegou ao Tribunal do Júri de Ceilândia. Ela acabou condenada a 20 anos e 8 meses de prisão. A pena, no entanto, foi reduzida porque os jurados acataram os argumentos apresentados pela defesa de que a ré não tinha pleno domínio do que fazia no momento em que envenenou as filhas, tanto que, ao vê-las passando mal, teria se arrependido e buscado socorro médico. De acordo com a Defensoria Pública, a mulher era semi-imputável, ou seja, passava por perturbação psicológica e não tinha plena consciência do que fazia, mas não era, no entanto, isenta de receber punição.

O fato de ter confessado os assassinatos também contribuiu para garantir uma punição menor. ;Todo mundo me olhava e me chamava de leprosa. Na hora, eu não pensei. Não lembro com quem eu estava, nem onde foi. Depois, saí para comprar leite, mas não sei porquê. Não queria ver as meninas com lepra. Matei porque eu não tinha lugar para ficar;, tentou justificar a mãe no julgamento.


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