O caminho em campo

O caminho em campo

Marcos Paulo Lima
Marcos Paulo Lima
postado em 04/05/2014 00:00
Um dos maiores medos da presidente da República, Dilma Rousseff, é ser lembrada, ao fim da Copa do Mundo de 2014, como a ;Angela Merkel; brasileira. Em 2006, a chanceler alemã foi anfitriã do evento da Fifa e terminou com fama de pé-frio. Eliminada pela Itália nas semifinais, a seleção da casa venceu a decisão do terceiro lugar contra Portugal.

Neste ano, o prêmio de consolação será disputado em Brasília, em 12 de julho. Em ano de eleições, tudo o que a chefe de Estado do país sede não deseja é ver o Brasil jogando na capital do país na véspera da final marcada para o Maracanã. Se não quiser correr risco de perder popularidade ; e votos ;, Dilma terá de se apegar a alguns tabus, amuletos, e torcer como nunca pela família Scolari. Levando em conta que a Seleção jamais terminou em segundo na fase de grupos e a lógica nas outras chaves, o caminho até o hexa ; a partir do mata-mata ; pode ter apenas campeões mundiais.

Para sorte de Dilma, a primeira fase promete ser tranquila. O Brasil não é eliminado na etapa de grupos desde a Copa de 1966, na Inglaterra, quando a nação era comandada pelo marechal Humberto Castelo Branco. Impossível imaginar uma tragédia semelhante em uma chave contra Croácia, México e Camarões. Cair nas oitavas também é raríssimo. A última lembrança é de 1990, no início da Era Collor, na derrota por 1 x 0 para a Argentina.

Como respeito é bom e os adversários gostam, a hipótese de queda nas oitavas não deve ser descartada na Copa de 2014. O adversário no primeiro mata-mata pode ser a atual campeã, Espanha, ou a vice, Holanda. Chile e Austrália são os azarões do Grupo B.

As quartas de final são um trauma recente, com eliminações diante da França (2006) e da Holanda (2010), ambas quando o presidente da República era Luiz Inácio Lula da Silva. O inimigo da vez nas quartas pode vir do Grupo D. A chave conta com três campeões mundiais ; a tetracampeã Itália, o bi, Uruguai, e a campeã Inglaterra.

Nas semifinais, o pesadelo pode ser ainda maior, com possíveis cruzamentos contra a França, carrasco verde-amarelo em 1986, 1998 e 2006, ou a Alemanha, sedenta de vingança depois de perder o título de 2002 justamente para o Brasil.

Se Brasil e Argentina terminarem em primeiro nas chaves e tiverem sucesso ao longo do mata-mata, Dilma assistirá, de camarote, no Maracanã ; provavelmente ao lado da amiga Cristina Kirchner ;, à final mais esperada da história das Copas. Nesse último caso, ela terá de provar ao papa Francisco que Deus é mesmo brasileiro. Do contrário, sentirá na pele a mesma tristeza de Eurico Gaspar Dutra, presidente da República no ano em que o país chorou a derrota para o Uruguai no Maracanazo de 1950. As consequências poderiam ser terríveis nas eleições de outubro. Dilma sabe disso.

Risco Brasil /
Dez problemas que podem impedir a Seleção Brasileira de conquistar a Copa do Mundo e provocar efeitos colaterais nas eleições de outubro

1. Goleiro
Julio César está jogando na MLS, a liga norte-americana de futebol. Logo, não vem sendo exigido em alto nível. Na melhor fase da carreira, falhou na eliminação da Copa de 2010.

2. Gols contra

A dupla de zaga titular de Felipão fez três gols contra nesta temporada do futebol europeu. Thiago Silva marcou dois pelo Paris Saint-Germain e David Luiz um, com a camisa do Chelsea.

3. Contusões

Todos os titulares da Seleção Brasileira sofreram ao menos uma lesão depois da conquista da Copa das Confederações. Neymar e Fred foram os que passaram mais tempo parados.

4. Queda de rendimento

Três intocáveis de Felipão não vivem boa fase e são reservas nos clubes. Marcelo perdeu moral no Real Madrid, Oscar foi padrão banco no Chelsea e Paulinho é estepe no Tottenham.

5. Juventude

Dificilmente um figurão de Seleção conquista o título na primeira participação em Copa. Pelé foi a exceção ao ser campeão na Suécia com apenas 17 anos. Neymar tem 22.

6. Mau presságio

Felipão já perdeu um importantíssimo título de seleções em casa. Em 2008, foi vice da Eurocopa à frente de Portugal. Na final, foi derrotado pela Grécia por 1 x 0, em Lisboa.

7. Obsessão pelo Maracanã

A tabela da Copa do Mundo prevê que o Brasil só jogue no Maracanã se chegar à final. O trauma do vice em 1950 cobrará caro a presença no estádio carioca em 13 de julho.

8. Toque de experiência

Felipão deu vários indícios de que não chamará dois ex-melhores do mundo que poderiam ajudar o elenco com a bagagem adquirida em copas passadas: Kaká e Ronaldinho Gaúcho.

9. Samba de uma nota só
Na segunda era Felipão, o Brasil disputou 20 partidas. Neymar começou todas como titular. A Seleção ainda não deu uma demonstração de como jogará sem ele quando for preciso.

10. Efeito casa
O último anfitrião que ganhou a Copa foi a França (1998). Japão e Coreia do Sul (2002), Alemanha (2006) e África do Sul (2010) prepararam a festa para um visitante levar a taça. (Marcos Paulo Lima)

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