Corregedor garante apuração

Corregedor garante apuração

Com atraso de 72 horas, caciques da Câmara afirmam que vão abrir investigação para apurar claque paga na Casa

ANDRÉ SHALDERS
postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Saulo Cruz/Câmara dos Deputados - 3/11/11)
(foto: Saulo Cruz/Câmara dos Deputados - 3/11/11)

Três dias após o Correio flagrar a distribuição de dinheiro nas dependências da Câmara à claque que aplaudia no plenário as mudanças na chamada lei do descanso, que amplia a jornada de trabalho dos caminhoneiros para até 12 horas diárias, autoridades da Casa se manifestaram à favor da apuração dos fatos. O deputado Átila Lins (PSD-AM), corregedor parlamentar da Câmara, prometeu abrir investigação para apurar o ocorrido na noite da última terça-feira. ;Chegando à Corregedoria, pode estar certo de que vamos abrir sindicância e dar seguimento à apuração dos fatos. Se eu não puder fazer sozinho, posso nomear outros parlamentares que queiram participar das investigações. Mas pode ter certeza de que vamos dar seguimento;, declarou o corregedor parlamentar.

O presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), disse não saber ainda se a Mesa Diretora já recebeu alguma representação sobre o assunto, mas que encaminhará à Corregedoria quaisquer pedidos de investigação. ;Certamente remeterei a ele (Átila);, declarou o presidente. Alves disse ter tomado conhecimento das reportagens, e que não havia se pronunciado sobre o assunto por estar envolvido em atividades políticas no estado potiguar. ;Estou aqui no Rio Grande do Norte, em Mossoró, com eleição suplementar agitadíssima amanhã (hoje). Mas soube da matéria, cujos fatos e relatos examinarei segunda, chegando a Brasília;, disse ele por mensagem de texto.

Átila Lins lembrou que a Corregedoria só pode abrir investigação sobre algum fato se for provocada. Pelo regimento, representações à Corregedoria têm de ser encaminhadas pela Presidência da Câmara. ;É importante destacar que, pelo regimento, qualquer um ; cidadão, parlamentar, movimento, entidade ; é parte legítima para solicitar a apuração desse tipo de coisa à Mesa Diretora;, disse Átila. Na avaliação do parlamentar amazonense, o pagamento à claque atenta contra a instituição. ;É um comportamento que atinge a imagem do parlamento, o de usar de meios pecuninários para fazer pressão dentro do plenário. É preciso que se apure, até para resguardar a dignidade e a representatividade do Legislativo;, disse ele.

A distribuição de dinheiro flagrada pelo Correio teve início na chapelaria do Congresso, por meio de pequenos envelopes brancos. De lá o grupo que momentos antes aplaudia a votação na galeria, foi orientado a seguir para o gabinete do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), no 9; andar do Anexo IV. Vários integrantes da claque chegaram a entrar no escritório, que estava aberto. A distribuição prosseguiu no 10; andar do prédio, onde não há gabinetes.

Vaias
Na edição de ontem do Correio, o líder da bancada do PSol, Ivan Valente (SP), disse que os fatos mereciam uma ;investigação séria;. O parlamentar chegou a ser vaiado pela claque ao falar contra o projeto. Outro parlamentar vitimado pelas vaias compradas foi o gaúcho Assis Melo (PCdoB), no momento em que encaminhou o voto do partido contra a proposta. ;O projeto prevê que se possa aumentar a jornada para até 12 horas, desde que seja negociado. Há anos neste país que o movimento sindical e os trabalhadores lutam para que o negociado não se sobreponha ao legislado. E também prevê que as horas extras possam ser compensadas e não pagas. Querem roubar as horas dos trabalhadores; ; nesse momento, Assis de Melo é interrompido por uma forte vaia da claque.

;No Primeiro de Maio, esta Casa aqui está flexibilizando a jornada de trabalho. Nós não podemos, em nome da produtividade, sacrificar ainda mais os trabalhadores;, lamentou ele. O registro da sessão em vídeo e áudio está disponível no portal da Câmara dos Deputados na internet. PCdoB e Psol foram os únicos a votar contra a proposta.

Personagem da notícia

Aplausos e laranjas

; Étore Medeiros

Um dos deputados federais mais antigos na Câmara, Nelson Marquezelli (PTB-SP) acumula, desde 1991, seis mandatos consecutivos como representante dos eleitores de São Paulo. Tido como um dos mais influentes parlamentares do baixo clero, é considerado um exímio analista político. Quase nunca erra uma previsão, mesmo nos cenários mais complexos. Apesar da experiência, o petebista atua longe dos holofotes.

Em maio de 2012, um dos poucos momentos de evidência se deu após uma declaração polêmica. Ao se queixar sobre a PEC do Trabalho Escravo, levantou a hipótese de ser enquadrado na prática criminosa em sua fazenda, e previu as consequências: ;Minha esposa e meus herdeiros vão ficar sem um imóvel. É uma penalidade muito maior do que tirar a vida de alguém;.

Um dos maiores produtores de laranja do Brasil, o parlamentar tem projetos peculiares sobre a fruta. Em 2003, propôs que o suco de laranja passasse a ser a bebida oficial de recepções e eventos do governo brasileiro. No mesmo ano, apresentou legislação para obrigar a inclusão do suco no programa de alimentação escolar. Ambas as propostas acabaram arquivadas. Representante do setor agropecuário no Congresso, entre os financiadores da eleição do petebista em 2010 estão a indústria de suco de laranja Cutrale (R$ 200 mil) e o frigorífico JSB, popularmente conhecido como Friboi (R$ 300 mil).

A trajetória política do petebista começou em 1962, quando se elegeu vereador de Pirassununga (SP), pelo PSD. Com a ditadura, migrou para a Arena, partido de apoio aos militares. Em 1992, durante a primeira legislatura na Câmara dos Deputados, foi líder do PTB e um dos principais defensores de Fernando Collor durante o processo de impeachment ; no qual votou contra a derrubada do presidente.

O atual líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO), classifica o colega como um político ;da melhor qualidade;. ;É um excelente parlamentar, de lisura impecável, dedicado à vida de deputado;. De fato, Marquezelli pode ser acusado de pagar claques, mas não de ser um deputado pouco atuante. Desde 2011, faltou sem justificativas a apenas três das 346 sessões plenárias da Casa, e a outras 24 das 355 reuniões de comissões.

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