Dom Tomás Balduíno, bispo dos oprimidos

Dom Tomás Balduíno, bispo dos oprimidos

Bispo emérito de Goiás, ele fundou a Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário. Considerado subversivo pelos militares, formou-se em antropologia e linguística na UnB, aprendeu línguas indígenas e reuniu lavradores para ensinar táticas de organização e luta

Luiz Carlos Azedo
postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 13/6/07)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 13/6/07)

Bispo emérito de Goiás (GO), fundador da Pastoral da Terra e co-fundador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) , dom Tomás Balduíno morreu na noite de sexta-feira, aos 91 anos, em Goiânia (GO), em decorrência de uma trombo-embolia pulmonar. Seu corpo será velado hoje na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, na capital goiana, até as 10h, momento em que será celebrada a Eucaristia. Logo em seguida, será transladado para a cidade de Goiás (GO), onde vai ser velado até as 9h de segunda-feira na Catedral da cidade, na qual será sepultado.

Dom Tomás esteve gravemente enfermo, entre 14 e 24 de abril último, no Hospital Anis Rassi, em Goiânia. Recebeu alta, mas, no dia seguinte, foi novamente internado, desta vez no Hospital Neurológico, também em Goiânia. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunida em Assembleia Geral na cidade de Aparecida (SP), recebeu com ;profunda tristeza; a notícia do falecimento de dom Tomás Balduíno, conforme nota distribuída pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB. ;Este nosso irmão dedicou sua vida e ministério ao serviço do povo de Deus e à defesa dos direitos humanos, especialmente à causa dos pequenos agricultores e povos indígenas.;

Bispo voador
Em 1957, dom Tomás Balduino foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, no estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época, a Pastoral da Prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz junto com os índios, fez mestrado em antropologia elinguística, na UnB, concluída em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, do grupo Bacajá, e Kayapó. Para atender a enorme região da Prelazia, que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do baixo Araguaia mato-grossense, fez o curso de piloto de aviação. Amigos solidários da Itália o presentearam com um teco-teco, com o qual prestou assistência a povos indígenas e também ajudou a salvar pessoas perseguidas pelo regime militar.

Foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Vivenciou os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e denunciou a invasão de áreas indígenas, a expulsão de famílias sertanejas e de posseiros, além da exploração de trabalhadores braçais trazidos de outros estados. Em 1967, foi nomeado bispo diocesano da Cidade de Goiás, onde permaneceu durante 31 anos, até 1999, quando, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se para Goiânia.

Reações

Dom Tomás era considerado um ;subversivo; pelos militares, por adequar a Diocese de Goiás ao novo espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II e de Medellín (1968). Criou um Centro de Treinamento onde reuniu lavradores para debater formas de organização e estratégias de luta. Essa atuação provocou reações do governo e dos latifundiários locais, que perseguiram e assassinaram algumas lideranças dos trabalhadores. Em julho de 1976, quando foi ao sepultamento do padre Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, assassinados pelos jagunços, na aldeia de Merure, em Mato Grosso, dom Tomás escapou de uma emboscada. Alguns movimentos nacionais, como o Movimento do Custo de Vida e a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, nasceram na Diocese de Goiás.

Dom Tomás Balduino nasceu em Posse, Goiás, em 31 de dezembro de 1922. Ele é filho de José Balduino de Sousa Décio, goiano, e de Felicidade de Sousa Ortiz, paulista. Seu nome de batismo é Paulo Balduino de Sousa Décio. Foi o último filho homem de uma família de 11 filhos, três homens e oito mulheres.

Repercussão

;Foi com tristeza que soube da morte de dom Tomás Balduíno, incansável lutador das causas populares. Em nome do governo brasileiro, rendo, nessa hora de dor, minhas homenagens à vida de dom Tomás;
Dilma Rousseff, presidente da República

;Ele era um bispo muito identificado pelos excluídos. Como frade, dedicou sua vida aos sem-terra e aos povos indígenas, sem querer fazer destes católicos;

Frei Betto, escritor e teólogo

;Trabalhadores rurais e povos indígenas perderam um dos maiores aliados em suas lutas. Que Deus console familiares, amigos e irmãos de fé de Dom Tomás Balduíno;
Marina Silva (PSB), candidata a vice-presidente de Eduardo Campos (PE)

;Apesar da tristeza, temos a certeza de que Dom Tomás viveu a sua vida em plenitude, em comunhão com a causa dos pobres da terra. Seu exemplo e luta estarão sempre no caminho daqueles e daquelas que lutam por um mundo melhor e justiça social;
Assessoria da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

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