Pouca-vergonha

Pouca-vergonha

ana dubeux anadubeux.df@dabr.com.br
postado em 04/05/2014 00:00
A Câmara dos Deputados é, por definição, a Casa do Povo, lugar em que representantes eleitos pelos cidadãos devem trabalhar em prol dos interesses públicos. Por isso mesmo, há galerias, de onde as pessoas interessadas nas atividades e nas votações de plenário podem assistir aos debates e se manifestarem. Não raro, há faixas e cartazes. Há também vaias e aplausos. Tudo parte do jogo democrático. O que não combina com democracia é pagar por essa participação. E foi o ocorreu na votação e na aprovação de um projeto de lei que institui mudanças na lei dos caminhoneiros, segundo flagrou o réporter do Correio André Shalders, no fim da semana passada.

Não bastassem os votos que os elegem, os deputados carecem de palmas, mesmo que sejam compradas. Para isso, valem-se do poder econômico, muito provavelmente patrocinado pelo dinheiro público. No caso em questão, cerca de 30 pessoas saíram das galerias, após a votação do projeto e de fartos aplausos e manifestações de apoio, e dirigiram-se ao gabinete do relator, deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP). De lá, foram orientadas a subir ao 10; andar da Câmara, fizeram fila, assinaram uma lista e receberam das mãos de funcionários, com os devidos crachás pendurados no pescoço, entre R$ 20 e R$ 50. Não se sabe quanto foi distribuído nem exatamente quem pagou. Só não restam dúvidas sobre o que a prática de pagar pelo aplauso a si próprio ou pela vaia aos adversários políticos significa: mais uma pouca-vergonha. Mesmo diante das evidências trazidas à tona pelo Correio, Marquezelli debochou da situação. Primeiro, negou a iniciativa e afirmou desconhecer o ocorrido. Quando não havia saída, foi irônico: ;Se ninguém assumir, eu assumo;. Foi além. Em um ato de despreparo e covardia, o parlamentar chamou de imbecil, em entrevista a uma rádio, o repórter que denunciou o esquema de vale-claque.

Sempre pesaram suspeitas sobre a participação de claques pagas em manifestações e muitas recaíam sobre os ombros de entidades de classe, como sindicatos ou associações, que financiavam ; não apenas com recursos próprios ; os custos de transporte a alimentação para levar trabalhadores ou desocupados a protestos diversos. Mas o flagrante do Correio em plena Câmara dos Deputados, documentado em fotos e vídeo, é mais um sinal do escárnio que joga no lixo a reputação do Legislativo. O deputado Marquezelli disse desconhecer o fato e achou que o repórter que o questionou só ;poderia estar mentindo;. Ou seja, a cena patética em pleno Congresso não foi vista pelos políticos nem por funcionários do Congresso. Nem vista nem explicada por ninguém. Resta aos ilustres deputados negar a existência dela. Simples assim. Você, leitor e eleitor, pôde comprová-la assistindo ao vídeo e lendo a notícia. Ainda bem.

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