Voto pós-Mandela

Voto pós-Mandela

Na primeira eleição desde a morte do patriarca da democracia racial, o partido que ele liderou enfrentará nas urnas um país insatisfeito com o continuísmo, a corrupção e as desigualdades persistentes na economia

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Alexander Joe/AFP
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(foto: Alexander Joe/AFP )

Passados 20 anos após o fim do apartheid, em 1994, os sul-africanos voltam às urnas para eleições gerais que devem desenhar o futuro político do país. É a primeira disputa realizada sem a presença física do ex-presidente Nelson Mandela, herói da luta contra o regime racista e patriarca da democracia racial, que morreu em dezembro do ano passado. O desempenho do Congresso Nacional Africano (CNA), que Mandela personificou por várias décadas, será observado com atenção. Embora a legenda governe o país desde 1994 e continue favorita, uma série de escândalos de corrupção, somados aos problemas socioeconômicos, vem derrubado os índices de aprovação do presidente Jacob Zuma e, consequentemente, de confiança no partido. Para analistas ouvidos pelo Correio, a eleição da próxima quarta-feira representa o início de um novo cenário político na África do Sul.

De acordo com um estudo divulgado pelo instituto Ipsos, em novembro passado, apenas 46% dos sul-africanos aprovam o trabalho de Zuma. Em teoria, a insatisfação com o governo deve se refletir nas urnas, mas sondagens eleitorais indicam que os partidos opositores carecem de força em nível nacional, propiciando que o CNA ultrapasse os 60% dos votos. Cleomar Souza, professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília, acredita que o passado de segregação alimente uma resistência a propostas distintas. ;No inconsciente coletivo daquela maioria negra, não existe ainda, de forma competitiva, outro elemento político que possa ser mais confiável que o CNA. Por mais que Mandela tenha pacificado a África do sul, institucionalmente, ainda há, de maneira óbvia, alguns ranços que contaminam a tomada de decisão;, sustenta Souza.

A ausência da figura conciliadora de Madiba, nome tribal de Mandela, pode evidenciar as deficiências do partido e abrir uma nova perspectiva para o país. James Mittelman, professor de relações internacionais da American University, em Washington, avalia que os votos dos sul-africados devem tentar colocar em prática os ideias da longa batalha por liberdade que precedeu a democratização. ;O desafio político é preservar os ganhos do período pós-apartheid e atender as questões de justiça social. Enquanto o governo do CNA avançou na construção de uma sociedade multicultural, a desigualdade entre as classes se tornou cada vez mais um divisor;, observa.

Embora a legenda tenha arrebatado a herança política de Mandela, André Duvenhage, especialista em cenários políticos da Universidade North-West, na África do Sul, disse à reportagem que a imagem do ícone da luta antirracista tem sido explorada de forma sutil ; a figura do presidente Zuma é predominante do material eleitoral. ;Acredito que eles queiram evitar comparações, pois isso teria reflexos negativos para o partido;, indicou. ;Essa é, definitivamente, a eleição mais difícil para a CNA desde 1994;, considera.

Desde meados de 2012, a África do Sul enfrenta uma série de violentos protestos e greves em setores importantes da economia. De acordo com dados oficiais, o desemprego atinge 25% da população e chega a 40% entre os jovens. ;Alguns avanços foram feitos, mas ainda há problemas com a criação de empregos, o que implica mudanças na política macroeconômica e com a corrupção, que destrói a capacidade do Estado para atacar questões do desenvolvimento;, indica Alexander Beresford, especialista em política africana da Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Dificuldades

Embora a Aliança democrática (AD, centrista), principal partido opositor, tente convencer os eleitores ; especialmente os de classe média ; de que uma agenda mais liberal trará mais prosperidade, a legenda enfrentou problemas de articulação danosos à sua imagem. A AD, que é liderada por Helen Zille, uma mulher branca, tentou se coligar com Mamphela Ramphele, negra e fundadora do partido AgangSA. A união, porém, durou pouco. ;Isso deixou uma impressão de fraqueza no partido, e tais problemas de publicidade afetam as esperanças de conquistarem uma parcela maior dos votos;, avalia Beresford.

O CNA ainda possui o apoio dos poderosos sindicatos e associações trabalhistas, mas vem perdendo apoio desse importante eleitorado. A União Nacional de Metalúrgicos, uma das principais representações de trabalhadores do país, desligou-se do partido governista logo após a morte de Mandela. ;Se mais sindicatos seguirem esse caminho, isso pode ser muito significativo. Eles têm um discurso mais socialista, que pode atrair grande parte dos sul-africanos;, pondera Beresford.

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