Freio para o mau motorista

Freio para o mau motorista

Tese de doutorado apresentada na Universidade de Brasília mostra que fiscalização, semáforos, interseções e curvas fazem condutores reduzirem a velocidade e, assim, evitarem acidentes. Mas pesquisadora alerta sobre a necessidade de campanhas educativas

» ADRIANA BERNARDES
postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)




Nas ruas do Distrito Federal, quanto mais reta e extensa é a via mais o motorista dirige acima da velocidade permitida. E se o asfalto é bom, as chances de o transgressor acelerar são maiores. É o que revela uma tese que acaba de ser defendida pela doutora em transportes Mônica Velloso na Universidade de Brasília (UnB). O estudo mostra ainda que a fiscalização eletrônica e, principalmente, a presencial, os semáforos, as interseções e as curvas são instrumentos eficazes para conter os infratores contumazes. De acordo com Mônica Velloso, é possível mudar o mau comportamento também com campanhas educativas.

A pesquisadora distribuiu 1 mil questionários com diversas perguntas ligadas a comportamento no trânsito. Recebeu 914 respostas. Desse total, selecionou 41 pessoas para testar se o discurso e a prática eram coerentes e se a idade, o gênero ou as características das vias exercem algum tipo de influência. Após dois anos de observação, coleta e análise dos dados, Mônica Velloso descobriu que homens e mulheres se comportam de forma semelhante nas pistas do Distrito Federal. Já em relação à faixa etária, é diferente. Quanto mais velha a pessoa, mais ela tende a obedecer aos limites de velocidade.

O aposentado João Paulo de Morais, 60 anos, não fez parte do grupo pesquisado, mas se enquadra no perfil. Ele diz que nunca, em quase quatro décadas de habilitação, tomou uma multa. Qual o segredo? ;Em vez de procurar o radar em poste, eu fico de olho nas placas de sinalização. O Detran (Departamento de Trânsito) uma vez prometeu estrelinha na carteira de quem não leva multa. Estou esperando até hoje;, diz. João Paulo garante respeitar a velocidade da via. ;Acho que é preciso respeitar. Quando a gente vai tirar carteira, os instrutores ensinam direitinho como dirigir. Fico muito zangado com outros motoristas que desrespeitam a sinalização e não são punidos;, completa.

O autônomo Maycon Jhon Martins, 29, morador da Candangolândia, também corrobora as constatações da pesquisadora e tem um comportamento oposto ao de João Paulo. Ele dirige desde os 18 anos e admite o recorrente desrespeito ao limite de velocidade. Justifica a atitude pela ;correria do dia a dia;. O rapaz trafega diariamente pela Estrutural e pela Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e defende o aumento da velocidade nas duas rodovias. ;Só 80km/h não dá;, opina.

Perguntado sobre o que o faz pisar no freio, ele cita curvas, quebra-molas, além dos pardais. ;Mas pardal a gente sabe quando tem e o próprio GPS avisa, né? Então, quando estou chegando, reduzo e depois volto a correr;, admite. Maycon Martins diz ter consciência de que está infringindo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), mas isso não o faz parar. ;Infelizmente, não me conscientizo. A nossa vida é muito corrida. Reconheço o erro;, acrescenta.

O discurso do rapaz revela outro dado da pesquisa apresentada na Universidade de Brasília. Quem se reconhece como infrator, na maioria das vezes, acredita que a conduta é negativa e justifica o desrespeito à pressa ou ao mero prazer de dirigir em alta velocidade. Mas também há uma parcela de pessoas que extrapola os limites da via e não admite ser transgressora. Carrega consigo o sentimento de que apenas escolhe uma velocidade ;mais confortável; e, dessa forma, não se sente como ;motorista de risco;. Para essas pessoas, a placa de sinaliz"icon" type="image/png" sizes="228x228" href="/frontend/dist/assets/img/icons/coast-228x228.png">

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Freio para o mau motorista

Freio para o mau motorista

Tese de doutorado apresentada na Universidade de Brasília mostra que fiscalização, semáforos, interseções e curvas fazem condutores reduzirem a velocidade e, assim, evitarem acidentes. Mas pesquisadora alerta sobre a necessidade de campanhas educativas

» ADRIANA BERNARDES
postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)




Nas ruas do Distrito Federal, quanto mais reta e extensa é a via mais o motorista dirige acima da velocidade permitida. E se o asfalto é bom, as chances de o transgressor acelerar são maiores. É o que revela uma tese que acaba de ser defendida pela doutora em transportes Mônica Velloso na Universidade de Brasília (UnB). O estudo mostra ainda que a fiscalização eletrônica e, principalmente, a presencial, os semáforos, as interseções e as curvas são instrumentos eficazes para conter os infratores contumazes. De acordo com Mônica Velloso, é possível mudar o mau comportamento também com campanhas educativas.

A pesquisadora distribuiu 1 mil questionários com diversas perguntas ligadas a comportamento no trânsito. Recebeu 914 respostas. Desse total, selecionou 41 pessoas para testar se o discurso e a prática eram coerentes e se a idade, o gênero ou as características das vias exercem algum tipo de influência. Após dois anos de observação, coleta e análise dos dados, Mônica Velloso descobriu que homens e mulheres se comportam de forma semelhante nas pistas do Distrito Federal. Já em relação à faixa etária, é diferente. Quanto mais velha a pessoa, mais ela tende a obedecer aos limites de velocidade.

O aposentado João Paulo de Morais, 60 anos, não fez parte do grupo pesquisado, mas se enquadra no perfil. Ele diz que nunca, em quase quatro décadas de habilitação, tomou uma multa. Qual o segredo? ;Em vez de procurar o radar em poste, eu fico de olho nas placas de sinalização. O Detran (Departamento de Trânsito) uma vez prometeu estrelinha na carteira de quem não leva multa. Estou esperando até hoje;, diz. João Paulo garante respeitar a velocidade da via. ;Acho que é preciso respeitar. Quando a gente vai tirar carteira, os instrutores ensinam direitinho como dirigir. Fico muito zangado com outros motoristas que desrespeitam a sinalização e não são punidos;, completa.

O autônomo Maycon Jhon Martins, 29, morador da Candangolândia, também corrobora as constatações da pesquisadora e tem um comportamento oposto ao de João Paulo. Ele dirige desde os 18 anos e admite o recorrente desrespeito ao limite de velocidade. Justifica a atitude pela ;correria do dia a dia;. O rapaz trafega diariamente pela Estrutural e pela Estrada Parque Taguatinga (EPTG) e defende o aumento da velocidade nas duas rodovias. ;Só 80km/h não dá;, opina.

Perguntado sobre o que o faz pisar no freio, ele cita curvas, quebra-molas, além dos pardais. ;Mas pardal a gente sabe quando tem e o próprio GPS avisa, né? Então, quando estou chegando, reduzo e depois volto a correr;, admite. Maycon Martins diz ter consciência de que está infringindo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), mas isso não o faz parar. ;Infelizmente, não me conscientizo. A nossa vida é muito corrida. Reconheço o erro;, acrescenta.

O discurso do rapaz revela outro dado da pesquisa apresentada na Universidade de Brasília. Quem se reconhece como infrator, na maioria das vezes, acredita que a conduta é negativa e justifica o desrespeito à pressa ou ao mero prazer de dirigir em alta velocidade. Mas também há uma parcela de pessoas que extrapola os limites da via e não admite ser transgressora. Carrega consigo o sentimento de que apenas escolhe uma velocidade ;mais confortável; e, dessa forma, não se sente como ;motorista de risco;. Para essas pessoas, a placa de sinalizlementById('publicidade-anchorads-1').style.display = 'none'); });

ação não faz qualquer sentido. É como se nem existisse.

Radares
A jornalista Larissa Morais, 31 anos, diz respeitar a velocidade em Brasília mais do que em qualquer outra cidade em que já morou ; São Paulo e Goiânia;, mas, ainda assim, trafega acima da velocidade. ;Aqui, têm muitos radares, e esses equipamentos inibem a pessoa de correr. Mas, nas rodovias, eu ando mais rápido porque os limites são muito baixos. Se conheço o percurso, é uma pista segura e não tem ninguém, não faz sentido andar a 80km/h;, argumenta.

Colaborou Roberta Pinheiro


Pesquisa

Os motoristas brasilienses ignoraram a velocidade da via e as placas com alertas de fiscalização mais de 1 milhão de vezes em 2012. Em 83,2% dos casos, eles dirigiam até 20% acima da velocidade permitida na via. Ou seja, em uma pista de 80km/h, como o Eixão, por exemplo, o carro estava a 96km/h. O detalhamento dos flagrantes revela ainda que uma grande parte dos infratores é vítima da desatenção: 37,89% dos condutores acabam punidos por excederem em apenas 5% o limite fixado para via.


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