Thank you, Sophia!

Thank you, Sophia!

amliteratura@hotmail.com A cronista se reveza quinzenalmente neste espaço com Affonso Romano de Sant'Anna
postado em 04/05/2014 00:00

Vivo dizendo para meu sobrinho-neto, Estude inglês! Enquanto isso, vou lhe passando uns rudimentos, This is a table! The book is on the table! No meu tempo de menina, em Brasília, eu ouvia que era preciso aprender o francês, e aprendi, as freiras na escola nos ensinavam a meter um lápis na boca, fazer beicinho e dizer, Oui! Le jour! La nuit! E estudei na Aliança Francesa, já contei que cheguei a ganhar de Charles de Gaulle um beijinho e um pequeno livro, L;esprit des arts. O velho e portentoso estadista acertou sem saber, a menina era e sempre seria do espírito das artes. O livro desapareceu nas dobras do tempo, o francês ficou meio abandonado, mas a pronúncia é perfeita, mesmo sem o lápis.

Aprendi também italiano, quando estudava no secundário, ia para aulas dessa língua na universidade. A professora de italiano ficava conversando comigo em francês, e os alunos se espantavam, como era que uma menina tão tímida, com duas tranças tão matutas e idiotas, sabia falar em francês? Mas o inglês eu não podia aprender, não queria, era a língua de um país que sustentava a tirania que eu tanto detestava. Eu era uma menina de princípios e os respeitava, a qualquer preço. Cheguei a recusar uma viagem de exchange nos States, preferia ir para a Polônia fazer um curso de galinhas pintadas.

Mas então conheci uma mulher extraordinária, mãe de um amigo com quem eu ensaiava um jogral para teatro. Essa mulher me convenceu a estudar inglês, achei sua preocupação para com uma quase estranha algo tão inusitado, que ouvi seus argumentos. Ela entendeu meus ideais e conseguiu para mim uma bolsa no British Council. Era inglês, mas não era yankee. Sim, nós íamos em nossas fardas de estudantes para a frente da Casa Thomas Jefferson e gritávamos, Yankees, go home! Fiz o curso do belo inglês britânico, graças a esta mulher de quem nunca me esqueço, e com satisfação vejo seu nome estampado sempre no topo da mesma página onde aparecem minhas crônicas brasilienses: Sophia Wainer. Uma lutadora, guerreira, educadora, jornalista consciente e cheia de classe. Thank you, my dear Sophia. Life is misterious.

A vida tem suas armadilhas e ironias. Meu filho foi estudar na Califórnia, ficou ali 11 anos, e o destino quis que meus dois netinhos nascessem... yankees! E yankees maravilhosos, adoráveis. To be or not to be. A questão é que, hoje, quem não aprende inglês, seja yankee ou British, sofre limitações. Fashion mall, shopping center, delivery, hot dog, drive thru, drive in, jeans, band-aid, page down, page up, end, escape, control, insert, wizzkid, low profile... Foi um grande plano de expansão da língua inglesa, ensejado por filmes, músicas, artes, literaturas, moda, mídias, tecnologia, the american way of life, e apoiado por casas de ensino encravadas no mundo todo. Uma supremacia profunda, e consentida.

O nosso belo português não é ensinado mundo afora. Um nonada. São tão modestos os cursos nas universidades, sempre limitados aos departamentos de Spanish and Portuguese... Por que nossa língua fica tão à margem dos interesses mundiais? Bem, somos cult. O meu consolo é que nós, the happy few que sabemos o português, podemos ler padre Vieira, Gregório de Matos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector... no original. Com todas as nuanças, sutilezas, segredos das nossas palavras. Ok?


;Essa mulher me convenceu a estudar inglês, achei sua preocupação para com uma quase estranha algo tão inusitado, que ouvi seus argumentos;

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