A leitura nos conecta com o mundo

A leitura nos conecta com o mundo

Lucília Garcez - Incentivar a leitura é uma das atribuições que a escritora Lucília Garcez assumiu, desde que descobriu a importância da atividade na formação do ser humano e da sociedade. Ainda pequena, Lucília aprendeu que a paixão pelos livros a acompanharia pelo resto da vida. Lendo José de Alencar, Machado de Assis e Érico Veríssimo, na infância, ela se tornou leitora voraz quando adulta. A escrita surgiu depois, já acadêmica, com textos destinados para adultos. Em seguida, veio o carinho pela literatura infantil, à qual se dedica e conta com parceiros importantes, como o ilustrador Jô Oliveira.

Vanessa Aquino
postado em 04/05/2014 00:00



Como foi a sua infância?
Morava em Belo Horizonte e passava as férias em Uberaba, para onde ia de trem. Foi uma infância muito tranquila. Muito gostosa, brincando na rua.

Como foi seu primeiro contato com os livros?
O ensino em Minas Gerais sempre foi muito bom. Estudava em escola pública e o meu pai era um comprador de livros inveterado. Comecei lendo histórias em quadrinhos, depois comecei a ler fotonovelas. Em seguida, descobri os romances da literatura brasileira e não parei mais.

O que mais gostava de ler?
Cursava mais ou menos o correspondente à 5; série do ensino fundamental hoje em dia, e o primeiro livro que eu li foi Clarissa, do Érico Veríssimo. Descobri que a literatura brasileira era muito melhor do que as coisas que eu lia nas bancas de revista. Achei na minha casa uma coleção de José de Alencar e outra de Machado de Assis, que meu pai havia comprado. Li todas essas coleções.

Quando a senhora começou a escrever? Foi quando descobriu a leitura?
Comecei a escrever literatura muito tardiamente porque fui professora da Universidade de Brasília (UnB) e lá você tem que escrever para os colegas, tem que mostrar competência técnica. Escrevi dois livros para adultos a respeito de produção de texto. Então, Jô Oliveira, que é ilustrador, me encomendou um livro de literatura infantil, que é a biografia de Luiz Gonzaga. Esse foi meu primeiro livro de literatura infantil. Descobri que era muito gostoso produzir para crianças e nunca mais parei. Já tenho 17 livros.

Como funciona a parceria com Jô Oliveira?
Jô tem uma ideia atrás da outra. Ele apresenta muitas ideias e a gente vai fazendo as trocas: ele propõe, eu faço a pesquisa. E a gente vai trocando informações e produzindo ao mesmo tempo. Alguns livros não fiz com ele. Tenho livro ilustrado pelo Ciro Fernandes, que é um gravador famoso, por exemplo.

Como você avalia a questão do incentivo à leitura no país?
Estamos caminhando. Os professores estão mais motivados. Há muitos voluntários trabalhando no país inteiro nesse sentido. A gente nota um movimento muito interessante nas feiras de livros, nas festas literárias, com incentivo de formar leitores. Ainda temos um longo caminho a percorrer porque 50% da população não leem e 75% nunca entraram em uma biblioteca.

Que caminhos seriam esses?
Primeiro é o investimento na educação, na qualificação dos professores. Os professores precisam ser leitores para estimular a leitura. Sem esse investimento na qualificação dos professores, nós não vamos a lugar algum.

As escolas estão fazendo algum trabalho para estimular a leitura e a formação dos professores?
Temos ilhas de excelência, colégios muito envolvidos com o estímulo à leitura; Mas temos escolas que não têm bibliotecas, professores que não leem;

Acha que o mercado editorial brasileiro é favorável aos novos autores?
As editoras, atualmente, estão muito interessadas na literatura infantil. Até porque o governo é o maior comprador de livros do país. Existe um programa chamado Programa Nacional de Biblioteca Escolar que compra livros para crianças. As editoras estão procurando autores novos e há muito impacto na literatura infantil.

As feiras internacionais, como a de Bolonha ; onde o ilustrador Roger Mello foi premiado ; representam também um incentivo aos novos autores e ilustradores?
Nós temos ilustradores que são os melhores do mundo. Tanto que o Roger ganhou o prêmio. O nosso texto também é muito bom. Alguns autores já receberam o Nobel da Literatura infantojuvenil, que é o Hans Christian Andersen. Então, nós estamos muito bem na fita. (risos)

Atualmente, o que mais agrada à senhora, poesia ou prosa?
Sou uma leitora voraz. Leio todos os dias e leio de tudo, principalmente romance, poesia; Estou lendo muito os africanos, os autores brasileiros contemporâneos. Não paro de ler.

Dos africanos, quem tem lido mais?
Ultimamente, tenho lido muito o José Eduardo Agualusa, que é um escritor angolano, Valter Hugo Mae ; ele é considerado português, mas nasceu na África.

E dos escritores brasileiros contemporâneos?
Recentemente, li Ricardo Lísias. Estou lendo Stella Maris, que ganhou o Jabuti no ano passado.

Essas premiações a autores brasileiros também servem de incentivo e valorizam nossa literatura?
Claro. Nossos escritores e ilustradores são muito bons e reconhecidos internacionalmente. São artistas maravilhosos e isso nos valoriza, sim, claro.

A leitura pode mesmo transformar nossa sociedade?
É um exercício cognitivo. Metade do cérebro não usa para mais nada, a não ser para a leitura. Alguns neurônios são ativados pela leitura. As pessoas ficam mais inteligentes e mais sensíveis, mais conectadas com o mundo. A leitura é muito importante.

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