Acima de tudo, mulheres

Acima de tudo, mulheres

Por Gláucia Chaves

postado em 04/05/2014 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)



Ter em mãos o resultado positivo para gravidez é um rito de passagem. A partir daí, a futura mamãe experimentará um novo universo, povoado por fraldas, horários de sonecas, amamentação e muito, muito trabalho. Acontece que esse novo mundo precisa se espremer no antigo, em que saídas com os amigos e idas ao salão também eram importantes. A maternidade multifuncional pode até não ser novidade, mas não se deixar engolir completamente pela nova ordem infantil é uma preocupação atual. Afoitas por manter interesses da vida pré-filhos, as mães modernas reúnem-se em espaços virtuais para conversar sobre vaidade, emprego, forma física e, de vez em quando, maternidade.
A administradora Ana Paula Leite Sousa, 30 anos, tem três filhas: uma de 8, outra de 6 e uma caçula, com 2 anos de idade. Ao se mudar para Águas Claras, sentiu dificuldade de encontrar restaurantes para ir com as meninas, pediatras de confiança, indicações de profissionais e mesmo alguém para conversar. Em junho de 2012, resolveu criar o grupo Mães Amigas de Águas Claras para que outras mães tão perdidas quanto ela pudessem trocar informações sobre a cidade. ;Sinto que, no mundo virtual, as pessoas podem se soltar mais, conversar, trocar mais ideias.;

Apesar do nome, na página da rede social de mães, há de tudo: dicas de beleza, desabafos sobre relacionamentos, indicações de médicos de confiança, piadas e o que mais vier à cabeça das mais de 14 mil inscritas. Questões sobre maternidade estão naturalmente presentes, mas não são, nem de perto, as únicas preocupações das mães multifacetadas. ;A gente, quando vira mãe, pensa muito no filho;, explica Ana Paula, moderadora do grupo. ;Queremos fazer a mulher pensar nela, voltar a ser vaidosa, sair à noite, se divertir.; Para ajudar nessa volta à vida social, as mães são estimuladas, a partir de diversos projetos encabeçados pelas mulheres da página, a saírem da frente das telas e se conhecerem em carne e osso.
Entre os principais projetos, segundo Ana Paula, estão o Bolsa de Empregos, em que mães empresárias divulgam as vagas disponíveis em seu negócio; o casamento coletivo Casando Mães Amigas; o Medida Certa, para orientar a melhor forma de emagrecer e a Feira Expo Mães Amigas, para participantes empreendedoras divulgarem produtos e serviços. ;Também fazemos encontros para mulheres em que chamamos sexólogos para conversar e levantar a autoestima;, completa a administradora.

Carol Porto Xavier, 36 anos, conta que, quando o filho nasceu, há quatro anos, sentia-se solitária. ;Amigos que antes eu via muito e que não têm filhos distanciam-se, e eu vivia para meu filho;, conta a empresária. O fato de ela ter decidido largar o emprego para viver a gravidez e os primeiros anos do filho também contribuiu para aumentar a sensação de que estava se afastando de tudo. ;Vivi os dois lados da moeda, em relação a ser uma mãe que trabalha e uma que não;, compara. ;Foi ótimo poder me dedicar ao meu filho, não ter que esperar uma licença-maternidade. Mas, com o tempo, percebi que me faltava alguma coisa.; Independência financeira e queda da autoestima foram os primeiros sinais de que a vida pessoal estava ficando em segundo plano.

Ao encontrar o grupo da internet, Carol conta que descobriu uma nova gama de oportunidades que nem imaginava existir. Abriu uma loja on-line. O negócio virtual tornou-se físico, assim como a interação entre as colegas que fez na internet. ;Eu me dedico muito ao grupo porque sinto necessidade de incentivar quem está lá, já que muitas mães largam a vida profissional para se dedicar a um sonho e estar mais perto dos filhos;, justifica. As mudanças de vida após entrar em um grupo virtual, segundo Carol, são visíveis: além da oportunidade de tocar um negócio próprio, há a possibilidade de aprender a lidar com os diversos papéis diários e a entender a verdadeira dimensão dos próprios problemas, a partir de relatos de outras mães.

Mais que a hora certa de desmamar ou qual fralda comprar, Carol diz que a troca de experiências significa um momento (para muitas, o único) de falar exclusivamente sobre o universo feminino. ;Não somos só mães e esposas. Somos filhas, netas, irmãs;, enumera. Como uma das moderadoras, Carol recebe críticas, elogios e dicas sobre a página. Para ela, definir um limite entre a exposição e o apoio das colegas virtuais é fundamental. ;Muitas mães usam o grupo como ponto fundamental de apoio;, comenta. ;Mas é importante saber usufruir sem que ultrapasse a vida social. O ideal é estipular um prazo para estar no grupo e depois se desconectar e viver.;




Missão
possível

Conciliar casa, trabalho e filhos é complicado, porém, viável. Desde que começou a moderar o grupo de Mães do Guará, Natália Santos Alencar, 31 anos, está um pouco mais habilidosa ; mas confessa que ainda não encontrou o equilíbrio entre as diversas funções. Com um filho de 1 ano e 6 meses, a advogada e empresária diz que ainda não conseguiu se achar. ;A gente que é mãe precisa ser uma supermulher;, brinca. Antes de o filho nascer, diminuir o ritmo de trabalho nunca foi uma opção. ;Nunca achei que fosse parar de trabalhar. Até levantava essa bandeira, de não parar por causa de filho.;
Em meio a tantas prioridades, a própria Natália acaba ficando por último. ;Esse lado mulher fica um pouco em segundo plano, sim;, admite. Ler o depoimento de outras mães na mesma situação, para ela, foi um alívio. No ;consultório virtual;, Natália diz que confissões e desabafos são uma maneira de ter conforto, trocar experiências e diminuir o isolamento natural dos primeiros anos sendo mãe. ;Esse feedback é interessante porque é imediato;, resume. ;Muitas vezes, a gente precisaria ligar para uma amiga que já está distante. Não por culpa de ninguém, mas é uma coisa que vai acontecendo.;

Fernanda Machado, psicóloga membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), presidente da Associação de Terapia Familiar de Goiás (Atfago) e terapeuta de casais, explica que balancear as preocupações da maternidade e os interesses pessoais exige planejamento. ;Esquemas contendo horários e bastante organização podem ajudar no cumprimento de todas as tarefas;, ensina. Para a especialista, contudo, antes de se debruçar em planilhas, o mais importante é ter disposição para incluir funções anteriores na nova rotina. ;A inclusão dos projetos individuais e das preocupações que ficam fora do campo da maternidade em sua lista de prioridades só existirá quando a pessoa tem a co

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