Primeiro suspeito de linchar mulher é preso

Primeiro suspeito de linchar mulher é preso

Homem confessa ter espancado Fabiane de Jesus por achar que ela era sequestradora de crianças. Parentes e amigos protestam

postado em 07/05/2014 00:00
 (foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)
(foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)

Um suspeito de participar da morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, espancada depois de ser confundida com uma sequestradora de crianças, no Guarujá, litoral de São Paulo, foi preso temporariamente ontem. O delegado Luiz Ricardo Lara Dias Junior, que conduz a investigação, identificou o eletricista Valmir Dias Barbosa, de 42 anos, que teria acertado um pedaço de madeira na cabeça da vítima, em imagens do espancamento público entregues pela população à polícia.

Duas pessoas acusadas de incitar o homicídio também já foram identificadas. Enquanto o corpo de Fabiane era enterrado, pela manhã, sob clima de revolta e tristeza, o responsável pelo site que propagou um retrato falado da verdadeira sequestradora, atribuído equivocadamente à dona de casa, prestou depoimento no 1; Distrito Policial da cidade.

Diego Scarpa, advogado do responsável pela página Guarujá Alerta, hospedada em uma rede social, disse que o seu cliente está sendo ameaçado de forma injusta. Em dezenas de mensagens, internautas acusam o dono do perfil de assassinato. Scarpa nega, entretanto, que o cliente tenha incitado a população com as divulgações.

Na página, desde ontem, uma postagem afirma que os responsáveis não farão nenhum pronunciamento no momento para não atrapalhar as investigações. O boato, que a internet teria ajudado a fomentar, era de que uma sequestradora que raptava crianças para usá-las em rituais de magia negra estaria no Guarujá. A polícia, entretanto, insiste que ainda é cedo para apontar a responsabilidade do site na morte de Fabiane.

As pessoas que atacaram a mulher acharam que ela era a criminosa estampada em dois retratos falados que circularam pela internet e por mensagens de celular. O grupo se juntou para surrar Fabiane, por cerca de duas horas. Ela morreu dois dias depois, vítima de traumatismos cranianos.

Valmir, que foi preso ontem, alegou aos policiais que também tem filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações eram verdadeiras. No entanto, não havia nem registros em delegacias locais dos tais sequestros, nem qualquer informação concreta sobre o assunto. É possível que mais prisões sejam efetuadas hoje.

Revolta

Centenas de pessoas acompanharam, ontem, o enterro de Fabiane, no cemitério Jardim da Paz, no Guarujá. A cerimônia reuniu familiares e amigos, que se revezavam entre a dor e a revolta com a morte cruel da mulher de 33 anos, mãe de duas filhas. Parentes lembraram que Fabiane, que sofria de transtorno bipolar, estava bem, sendo medicada, e tinha planos de ajudar o marido, Jailson Alves das Neves, nas contas de casa, com trabalhos manuais.

Neves falou, durante o enterro, que, ;apesar da brutalidade;, não guarda ;ódio;, nem outro ;sentimento ruim no coração;. Ele lamentou que pessoas tenham assistido ao linchamento e ;não tiveram coragem de salvar uma pessoa inocente;.

Depois do enterro da dona de casa, amigos e parentes fizeram uma passeata no bairro Morrinhos. Com cartazes, pediram paz e justiça. Maria José Dias, que viu Fabiane viva pela última vez, contou que a vítima havia ido à casa dela para pegar uma Bíblia que tinha esquecido na igreja. Ao sair, pediu à Maria José para não se esquecer de rezar por ela.

Fabiane, segundo a amiga, estava bonita, pois tinha pintado os cabelos na véspera. Familiares se disseram revoltados, ao falar que os agressores teriam achado que a Bíblia que Fabiane carregava era um livro de magia negra.

Confusão
Os retratos falados atribuídos a Fabiane pelos agressores foram feitos em 2012, por policiais da 21; Delegacia de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Eles procuravam, na ocasião, uma mulher acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe na Zona Norte da capital fluminense. A mãe da criança, de apenas 15 dias, estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde, quando se deparou com a mulher, na porta da unidade, que tentou levar a criança. A descrição da vítima levou os investigadores a fazer o retrato falado, mas ninguém nunca foi preso com base nas duas imagens divulgadas.

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