Mudança climática já afeta os EUA

Mudança climática já afeta os EUA

Aquecimento provoca secas, enchentes e causa grandes prejuízos à agricultura do país, aponta relatório apresentado na Casa Branca

» Paloma Oliveto
postado em 07/05/2014 00:00
 (foto: Gary Cameron/Reuters - 11/1/2013)
(foto: Gary Cameron/Reuters - 11/1/2013)

Os Estados Unidos nunca estiveram tão quentes quanto na última década. Também jamais choveu tanto, houve secas tão severas, assim como enchentes e alagamentos. Mais do que nunca, a composição química do ar e do mar mudou. A agricultura registra perdas bilionárias, a disputa por recursos naturais se intensificou, florestas estão agonizando, e geleiras, derretendo. De norte a sul, os desafios se agigantam. ;Acreditava-se que as mudanças climáticas eram um problema para o futuro. Mas isso mudou, elas são um problema do presente;, observa Jerry Melillo, cientista do Laboratório de Ciências Marinhas da Universidade de Yale.

Onze meses depois do lançamento de um plano nacional de enfrentamento das mudanças climáticas (leia Memória), o governo americano divulgou, ontem, um relatório de 839 páginas com dados sobre cenários futuros e também impactos que os EUA já estão sentindo. Transmitida pelo site da Casa Branca, a apresentação foi feita por cientistas climáticos que elaboraram o documento. Eles enfatizaram o fato de que, embora as previsões para as próximas décadas sejam sombrias, as mudanças já estão sendo sentidas nesse país continental, com diferentes efeitos dependendo das características geográficas de cada região. Hoje, o presidente Barack Obama vai falar sobre o relatório em uma série de entrevistas a emissoras de televisão.

Não se trata apenas do calor, mostram os dados. Eventos extremos ameaçam a infraestrutura, afetam os ecossistemas mais diversos, ocasionam perdas agrícolas e pecuárias, colocam em risco a saúde dos mais de 300 milhões de habitantes do país. O relatório reconhece: ;O aquecimento global nos últimos 50 anos é primariamente devido a atividades humanas, predominantemente a queima de combustíveis fósseis;. ;O clima mudou naturalmente ao longo da história da Terra. Contudo, fatores naturais não podem explicar o aquecimento recentemente observado;, diz o texto, contrariando a afirmação dos céticos das mudanças climáticas, para quem o fenômeno tem causas naturais.

O documento mostra que, nas últimas quatro décadas, observaram-se alterações ambientais nas áreas rurais, resultando em menos área para agricultura e a pecuária e queda na produção de grãos. Por ano, o país produz quase US$ 330 bilhões em commodities agrícolas, uma cifra ameaçada pelas mudanças climáticas. ;Essa produtividade é vulnerável a impactos diretos (;) das condições climáticas e dos eventos extremos e indiretos, como aumento de patógenos e pestes;, destaca o texto. ;Para mim, a grande preocupação é a segurança alimentar;, observou, na apresentação da Casa Branca, o cientista Richard Grotjahn, da Universidade da Califórnia em Davis, lembrando que o mundo terá 9 bilhões de habitantes em 2050.

Atraso
Os cientistas destacaram os diferentes efeitos que estão sendo observados nas diferentes regiões do país (veja quadro). No Sudeste, a maior preocupação é com a intensificação da seca na localidade mais árida dos EUA. Falta de água e incêndios florestais são alguns dos desafios que deverão constar na agenda de políticas públicas, observaram os cientistas. Nas zonas costeiras, a grande ameaça está no sistema de portos. O aumento do nível do mar afeta o fluxo de mercadorias e a produção de petróleo, exigindo medidas urgentes de adaptação, conforme apontou o relatório. Já no Alasca, onde a temperatura aumentou duas vezes mais rapidamente que no restante do país, o derretimento das geleiras e do permafrost (camada de gelo permanente que recobre o solo) podem acabar com esse ecossistema único, lar de 40% dos índios americanos.

;Esperamos que esses dados sejam usados pelo setor público, por organizações e por formuladores de políticas públicas para orientar as medidas de adaptação. Estamos 10 anos atrasados, mas ainda é possível fazer muitas coisas, desde que ações sejam aplicadas urgentemente;, disse Katherine Calvin, coautora do artigo e cientista do Laboratório Nacional do Nordeste Pacífico da Universidade de Maryland. Apesar da insistência dos pesquisadores, a luta contra o aquecimento global, uma promessa de campanha de Barack Obama, enfrenta a oposição do Partido Republicano, maioria na Câmara dos Representantes. O discurso conservador é que o corte nas emissões de CO2 implicarão um freio no crescimento econômico.

Memória

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Em junho do ano passado, a Casa Branca divulgou um documento histórico. Em 21 páginas, o governo americano anunciou o lançamento de um plano ambiental ambicioso para diminuir a produção de gases de efeito estufa nos Estados Unidos e liderar globalmente as negociações de combate às mudanças climáticas. Em um discurso para estudantes da Universidade de Georgetown, em Washington, o presidente Barack Obama disse que não há mais como questionar se algo precisa ser feito. ;A pergunta, agora, é se teremos a coragem de agir antes que seja tarde. Como presidente, pai e americano, eu digo: precisamos agir;, declarou, ovacionado pela jovem plateia.

Pela primeira vez, um governante americano se comprometeu de forma enfática com o combate às mudanças climáticas ; os EUA jamais ratificaram tratados internacionais que estipulam índices de redução de emissões, como o Protocolo de Kyoto, cuja implementação da segunda fase será discutida em Paris, no ano que vem. O plano, porém, não explicita os mecanismos pelos quais o país conseguirá frear as emissões de CO2.

Na ocasião, o presidente reafirmou o desejo de alcançar o corte de 17% até 2020, mas não mencionou a condição, expressada por ele durante a 15; Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de Copenhague (COP-15), de economias emergentes também terem metas, proposta rechaçada pelos Brics, que são estimulados a adotar medidas voluntariamente, mas não têm obrigação de fazer isso, de acordo com a Convenção-quadro da ONU.

Ressaltando a necessidade de buscar novas formas de energia além dos combustíveis fósseis, o presidente americano citou o Brasil e a China, afirmando que as nações de economia emergente também precisam colaborar para reduzir a produção de gases de efeito estufa. ;Países em desenvolvimento estão usando mais e mais energia. Dezenas de milhares de pessoas estão entrando para a classe média mundial e, naturalmente, querem comprar mais e mais carros, assim como nós, ameri

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