Inflação fica próxima do limite da meta

Inflação fica próxima do limite da meta

Puxado de novo pelos alimentos, indicador de preços usado como referência pelo governo desacelera em abril, mas sobe 6,28% em 12 meses

» ROSANA HESSEL
postado em 10/05/2014 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


A inflação oficial deu uma freada em abril, mas ainda o insuficiente para se mostrar sob controle. A alta de 0,67% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ainda puxado pelos alimentos, surpreendeu analistas e investidores ao vir bem abaixo da mediana das expectativas do mercado, medidas pelo Boletim Focus do Banco Central (BC), de 0,80%. Essa desaceleração frente ao salto de 0,92% registrado em março não se mostra confortável ao perceber que o ritmo de alta do IPCA no acumulado em 12 meses até abril foi de 6,28%, acima dos 6,15% registrados até março e próximo da meta anual do governo, de 6,5%. Com isso, a curva segue para cima.

O consumidor está sentindo essa escalada no bolso. A aposentada Alzivera Saldanha, 66 anos, tem notado a disparada dos preços, sobretudo de carnes, verduras e frutas, a cada ida semanal ao mercado. Da última vez, gastou mais de R$ 100. ;Não temos como fugir da carestia de alimentos básicos, como os presentes na salada. O jeito é pesquisar preços e substituir por legumes mais baratos;, aconselhou.

A dona de casa Oneyde Maria de Almeida Milhomem, 55, também reclamou da rotina de aumentos e faz questão de aproveitar os dias de promoção, levando produtos da estação, mais em conta. ;Do leite aos legumes, nada escapa das altas. Antes, eu conseguia encher um carrinho com R$ 250. Com R$ 100 hoje não compro nada;, lamentou.

Tendência

;O resultado de abril foi inesperado se comparado às expectativas gerais. Houve uma inversão sobre o mês anterior, mas isso ainda não significa acomodação. Os preços dos alimentos subiram 1,19%, ante os 1,92% de março. Apesar de crescer menos, a inflação continua subindo;, revelou a gerente de pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Irene Maria Machado. Alimentação e bebidas, acrescentou, pesaram com 0,3 ponto percentual da alta do mês.

Entre os itens que mais subiram de preço, a batata inglesa foi a campeã, com alta de 22,26%, em abril, e de 43,5%, no ano. O tomate, vilão em outros tempos, teve, por sua vez, uma queda de 1,94%, insuficiente para reverter o aumento desde o início do ano, que já soma 29,17%. Oito das 13 cidades pesquisadas pelo IBGE registraram IPCA acima da média nacional. Brasília, que liderou a alta em março, figurou entre as cinco que ficaram abaixo dessa linha, com 0,62%. ;A taxa de março na capital do país foi puxada pelas passagens aéreas, que pesam no índice e recuaram em abril;, explicou Irene.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou ontem que o IPCA não vai estourar a meta anual do BC. ;Não vamos ultrapassar o teto, assim como não fizemos nos últimos 10 anos;, prometeu, repetindo um bordão da presidente Dilma Rousseff. Para ele, assim como a inflação subiu em março, agora vai descer ;para um patamar menor;. Em 2004, o IPCA estourou em 7,6% e, em 2011, o indicador chegou a 6,5% e, por pouco, o governo não teve que se explicar no Congresso.

Desconfiança
Os especialistas discordam do otimismo de Mantega e alertam para o fato de que o IPCA está ficando cada vez mais próximo do teto da meta do BC, elevando a pressão de alta na taxa básica de juros (Selic), o que poderá inibir ainda mais o consumo e os investimentos diretos, em prejuízo do crescimento econômico. ;Infelizmente, esperamos que esta situação piore nos próximos meses, mesmo considerando que as leituras mensais devem desacelerar no curto prazo. O IPCA deverá romper o teto em meados de 2014;, apostou Flávio Serrano, economista do BES Investment Bank.

Para ele, a autoridade monetária manterá o ciclo de alta da Selic, hoje em 11% ao ano, ;se os diretores estiverem realmente empenhados em trazer a inflação para o centro da meta;. ;Não acreditamos ser esse o caso;, acrescentou. Na sua avaliação, o BC não vai aumentar os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no fim do mês, mantendo a taxa atual até dezembro, porque indicadores recentes mostram perda de fôlego na atividade econômica.

Dados do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), divulgados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostram que a inflação na primeira semana de maio deu sinais de desacomodação e voltou a subir forte nas sete capitais pesquisadas. Na semana encerrada em 7 de maio, o IPC-S subiu de 0,77% para 0,84%. Alimentos continuaram sendo o maior impacto, pesando 0,33 ponto percentual.

;Os preços dos alimentos desaceleraram, mas é preciso ver qual é a tendência. Ainda não podemos comemorar porque itens como pão e batata tiveram aumentos expressivos;, alertou o coordenador da divisão de gestão de dados da FGV-RS, Marcio Fernando Mendes da Silva. Ele lembrou que saúde e cuidados pessoais, itens que incluem remédios, saltaram de 0,31% para 1,52%. ;O IPCA de abril foi importante por ter como destaque a desaceleração dos alimentos no atacado;, afirmou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal.


; Cesta mais cara

A disparada do valor da cesta básica em Brasília no acumulado dos quatro primeiros meses de 2014 é a maior entre as 18 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese): 14,43%. Apenas em 2014, a variação foi de 7,04%. Segundo o Dieese, a alta foi influenciada, principalmente, pelos aumentos nos preços da carne bovina, leite, batata, café em pó e óleo de soja. Em abril, ela alcançou R$ 331,53, a oitava mais cara do país, de uma lista liderada por Porto Alegre (R$ 359,37). Só o leite subiu 11% no mês passado.

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