Retrato de um país

Retrato de um país

» ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 10/05/2014 00:00

Mudar de assunto é, as vezes, salutar. A política está começando a ficar interessante com a disputa entre os candidatos, que se torna cada momento mais emocionante. A candidata que deveria ser reeleita sem sustos em primeiro turno escorrega nos índices de aprovação popular e abre espaço para um segundo colocado, que também ascende, lenta e até agora, vigorosamente. E até o terceiro colocado, Eduardo Campos, depois de consagrado pela convenção do partido, começa a evoluir.

São os dados da realidade atual. Tudo pode mudar até porque, depois da convocação da Seleção Brasileira, o assunto Copa do Mundo passa a ocupar o espaço das preocupações nacionais. As eleições vão aparecer depois. Neste momento, o time do Felipão é mais importante que qualquer outro tema. Exceto os já tradicionais gritos contra o transporte coletivo, serviços de saúde e de educação. São eles que deverão fornecer as razões para eventuais manifestações antes e depois dos jogos. Sua magnitude poderá influir no resultado eleitoral.

É bom andar de carro pelo país, de carro. Descobrir o desenvolvimento desta nação imensa, desengonçada, desestruturada e muito pouco assistida pelo poder central. Daí aceitar convite de um amigo para conhecer o tão falado Jalapão, no interior de Tocantins, perto da fronteira noroeste da Bahia. Decidimos fazer um roteiro diferente: subimos por São João da Aliança, Campos Belos e Dianópolis, a mais de 600 quilômetros de Brasília. No meio, há um rio chamado de Azuis, assim mesmo, no plural, que encanta pela cor. É a diversão do pessoal que mora naquela área. Cada um na sua praia.

Depois do Distrito Federal, ao longo de todo o trecho, tanto em Goiás quanto em Tocantins, não há vestígio do agronegócio. Existe a lavoura tradicional, de subsistência, e alguma criação de gado de maneira extensiva, a mais antiga que se conhece. A região é pobre. As cidades são tímidas. São limpas, mas não se consegue churrasco, nem pizza. Só uma galinhada, de galinha caipira, que costuma ser magra. Nada parecido com as de supermercado. O povo é bom, ingênuo, prestativo. Mas os serviços são ruins.

Os fenômenos da natureza são espetaculares. Grandes sertões, veredas imensas. Cachoeiras lindíssimas, como a da Fumaça, depois de Ponte Alta. Nessa altura, já apontando para o Jalapão, começa a tortura das estradas de terra. Não são picadas, são rodovias de verdade, construídas com engenharia, com curvas e retas benfeitas, obras de arte no lugar certo. Está tudo no lugar. Exceto o asfalto. Não existe.

Digamos que é um bom acesso, de qualidade péssima. Parece proposital. Órgãos ambientais não gostam de turistas visitando os locais onde a natureza caprichou no interior do Brasil. A chegada à pequena cidade de Mateiros, porta de entrada do Jalapão, é sofrida. São 180 quilômetros de uma rodovia, que figura nos mapas, malcuidada e toda esburacada. Antes, lá embaixo, ainda no asfalto, o pessoal de Dianópolis fechou a estrada, protestando contra a sua qualidade.

As pessoas, mesmo no mais remoto interior brasileiro, estão zangadas. O governo faz pouco por elas. A cidade de Mateiros é bem-servida por energia elétrica. Naturalmente, não tem saneamento básico. As casas possuem água encanada. E apenas a metade da avenida principal recebeu algum revestimento. Todo o resto é estrada de chão. Mas, de novo, a paisagem é espetacular. Serras lindas, morros cortados pelo misterioso facão da natureza, numa linha reta surpreendente sobre a savana.

Existem os chamados fervedouros. São olhos de água, nascentes translúcidas, em que se pode ver o fundo e ninguém consegue afundar. A pressão da fonte mantém a pessoa boiando, quer ela queira ou não. E cachoeiras como a da Formiga, também de água pura e completamente limpa. É possível enxergar o fundo, o que dá a falsa impressão de que é rasa. Não é não. É preciso saber nadar. Tudo muito arborizado e lindo. E, ainda, para completar o quadro de surpresas, as dunas do Jalapão. Areia branca de praia no sertão brasileiro, coisa incrível. Ver o pôr do sol do alto da montanha de areia branca e fina é algo indizível. Simplesmente maravilhoso.

Tudo isso está escondido pelas péssimas estradas, pela falta de informação e pelo desinteresse governamental. Os dogmas dos ambientalistas tornam difícil o acesso às maravilhas da natureza no Brasil. É pena. Poucos quilômetros à frente, na região chamada de Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o agronegócio prospera. Lá o asfalto chegou.

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