Conexão diplomática

Conexão diplomática

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 10/05/2014 00:00



Putin na farda do generalíssimo
É bem mais do que um simples desfile de soviética o espetáculo ao qual milhares de espectadores assistiram ontem, na Praça Vermelha de Moscou e no porto de Sebastopol, na Crimeia. Se os sinais se acumulavam já por alguns anos, as celebrações pelo Dia da Vitória dissiparam qualquer dúvida sobre o que Vladimir Putin busca na Ucrânia. O discurso do presidente russo surfa na vitória sobre a Alemanha nazista, ponto de virada no desfecho da 2; Guerra Mundial, não apenas para conquistar pontos com o público interno. Nem, tampouco, para enviar um recado quase transparente aos vizinhos que integravam a União Soviética e o bloco socialista do Leste Europeu.

Formado na escola da KGB, uma das poucas instituições que sobreviveram ao vendaval que pôs por terra o Muro de Berlim e a Cortina de Ferro, há um quarto de século, Putin conhece de cor e salteado a cartilha legada por Josef Stalin. Diante do cenário decorado com a fina flor dos símbolos que invocam a extinta União Soviética, o novo czar reencenou o roteiro escrito há sete décadas para aquele que então era chamado ;guia genial; ; do Báltico ao Pacífico, passando pelas estepes e atravessando os Urais, mas igualmente nos meios sindicais e de esquerda de Paris e Roma, na América Latina em turbulência, na Ásia e na África em franco processo de descolonização.

À parte o juízo que se faça sobre o seu longo reinado, entre 1924 e 1953, Stalin soube invocar com maestria imagens e nomes capazes de falar a um patriotismo ancestral. Se tinha desmantelado a cúpula militar e dizimado a velha guarda revolucionária na década anterior, em meio à luta encarniçada pela herança do intocável Lenin, o generalíssimo da resistência a Hitler não titubeou na hora de mobilizar o inconsciente coletivo soviético. Reabilitou a memória de heróis da Rússia imperial, assim como reintroduziu no Exército Vermelho elementos czaristas de hierarquia e disciplina.

Vladimir Putin, no esforço para restaurar o império esgarçado pela derrota na Guerra Fria, invoca os dias de glória da URSS, ainda que não necessariamente o regime comunista. Fala aos jovens da Rússia com a linguagem da mitologia que aprenderam com os avós, mas se dirige também à memória dos demais súditos de Moscou. Busca a síntese entre nobres conquistadores da Idade Média e Moderna, patriarcas eternos da fé ortodoxa, heróis stakhanovistas do trabalho coletivo, cosmonautas, mísseis intercontinentais e ginastas olímpicos. À sua maneira pouco ou nada tropicalista, devora com apetite antropofágico a geléia geral de uma civilização multicultural que se estende por dois continentes.

O(s) nome(s) da rosa
Passou um tanto despercebida, no ano passado, uma comemoração que faz parte da progressiva restauração simbólica da era Putin. Em 2 de fevereiro, como de costume, Volgogrado celebrou mais um aniversário ; o 70; ; de sua libertação ao fim de quase seis meses sob cerco nazista. A novidade foi que, dias antes, um decreto restituiu à cidade, por seis dias a cada ano, o nome pelo qual ficou mundialmente conhecida: Stalingrado, palco da batalha que os historiadores consideram o marco da ;virada; na 2; Guerra, o ponto a partir do qual a Alemanha se encaminhou para a derrota. Está em estudos a reabilitação em caráter permanente do nome apagado em 1961, em meio à campanha de ;desestalinização; promovida por Nikita Krushev, que em 1956 denunciara perante o 20; Congresso do Partido Comunista o ;culto à personalidade; do antecessor recém-falecido.

Já no período pós-soviético, várias cidades russas foram rebatizadas com os nomes imperiais: Leningrado por São Petersburgo; Sverdlovsk por Ekaterinemburgo; Gorki por Níjni Novgorod. Mas outras conservam a herança soviética, notadamente nas regiões atualmente sublevadas do leste e sul da Ucrânia: Krasnodon (;Don Vermelho;); Krasnoarmiisk (;Exército Vermelho;); Pervomaisk (;Primeiro de Maio;).

Curta na tela
Não por coincidência, um dos expoentes da arte pós-revolucionária incorporou esse movimento em sua produção dos anos que antecederam e se seguiram à Grande Guerra Patriótica. Sergei Eisenstein, o cineasta inovador de Outubro e Encouraçado Potemkin, clássicos dos anos 1920, lançou em 1938 ; na antessala para confronto entre Stalin e Hitler ; o épico Alexandre Nevsky, inspirado no príncipe que derrotou no século 13 os cavaleiros teutônicos, ancestrais do Reich. Na década seguinte, com o país em pleno esforço de guerra, Eisenstein produziu Ivan, o Terrível, cujo protagonista foi coroado ;czar de todas as Rússias;, o primeiro monarca a usar o título copiado dos Césares romanos.

A primeira parte, que retrata o unificador e patriarca do império, foi exibida sem retardo. A segunda, que focalizava o terror movido pelo Estado onipotente, teve de esperar a morte de Stalin, em 1953. Apenas dois anos depois veio a ser liberado, como parte da ;desestalinização; de Krushev. Eisenstein, que havia falecido em 1948, já tinha engavetado os planos para completar a trilogia inicialmente concebida.

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