O tio histriônico de minha biblioteca

O tio histriônico de minha biblioteca

Vinicius Jatobá Especial para o Correio
postado em 10/05/2014 00:00



De todos os escritores em minha biblioteca, estimados, valorosos, há aqueles que são amigos de toda vida (Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Guillermo Cabrera Infante), e padrastos sinistros (Juan Carlos Onetti, William Faulkner, Italo Svevo), e musas amorosas (Virginia Woolf, Eudora Welty, Alice Munro), e cúmplices de decidia (Thomas Bernhard, Vladimir Nabokov, Danilo Kis), e até credores ocasionais (João Ubaldo Ribeiro, Saul Bellow, José Saramago).

Minha biblioteca, preciosa, é minha outra família: nos reunimos em festas, celebramos conquistas, lamentamos derrotas. Há, contudo, aquele tio arruaceiro ; de quem os outros falam sempre em cochichos ;,que vem sempre para bagunçar o coreto, e com quem tomei porres e fiz asneiras, e que gargalha feroz na minha cara sempre que falo sério de literatura. É meu tio Bohumil Hrabal, o mais histriônico parente de minha biblioteca afetiva.

Meu tio Hrabal completa 100 anos de nascimento. Ele foi salafrário, exagerado, louco. Bebia o quanto podia, e quando não podia bebia também. E mentia, mentia loucamente, pois ninguém poderia viver da mesma forma que as personagens com que me divertia em suas estórias. Mas sobre verdades e mentiras há apenas uma verdade: é fato aquilo que se conta acreditando, e naquilo que não se
acredita quando se conta não pertence nem à verdade nem à mentira, mas ao território aborrecido do tédio.

E meu tio Hrabal queria tudo menos entediar: tirando algumas estórias, como Ternos Bárbaros e Trens Rigorosamente Vigiados, meu tio Hrabal tinha apenas uma missão: nos fazer rir, e nos fazer ter acesso à um mundo reconhecível e malcomportado. Lições de Dança para Idosos, Bodas em Casa, Uma Solidão Demasiado Ruidosa, A vila em que o tempo parou, todas estórias profundas e francas e desesperadas, mas todas estórias de humor e alegria, de absurdo e de euforia, pois com tio Hrabal aprendi que a única pobreza imperdoável é a pobreza de espírito.

Tio Hrabal é tcheco. Vem de longe. É de longe. Fala uma língua estranha. Mas a sua Praga foi meu Rio de Janeiro. A sua Praga de tabernas, e trabalhadores braçais, e de vagabundos e mendigos, de excluídos sociais loucos e criativos, de festas sem motivos e de incessante busca de motivos para festas, foi a Irajá, Vaz Lobo, Vicente de Carvalho e Madureira de minha infância e juventude, onde matava aulas para andar pelas ruas e avenidas e ir aos botequins e restaurantes e escutar gente muito parecida com meus avós, meus bisavós e meus trisavós contarem estórias loucas de suas vidas.

Há uma estória do meu tio favorita. Eu servi o rei da Inglaterra é uma experiência hedonista que se intensifica a cada vez que a escuto. Acompanhar o garçom Dittie em suas travessuras de hotel em hotel, onde conquista improváveis títulos de nobreza, coleciona aventuras amorosas até se casar com a impagável professora de ginástica Lise, e acaba enriquecendo por acidente e perdendo tudo com a mesma facilidade, é gargalhar forte a cada página.

No entanto, o romance é também uma mordaz crítica social: da covardia da sociedade tcheca diante do avanço do nazismo, da prosperidade construída por meio de acordos econômicos escusos, da maneira como os despossuídos são jogados de um lado ao outro conforma os interesses dos dirigentes mais poderosos. Engenho de linguagem ; com seu estilo sôfrego e torrencial ; e exploração irônica do namoro entre o Eros e a razão, Eu servi o rei da Inglaterra é uma imbatível obra-prima contemporânea do humor.

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