Sem intermediários

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Um grupo de jovens editores funda site dedicado exclusivamente ao crowdfunding para lançamento de livros

Nahima Maciel
postado em 10/05/2014 00:00






Depois de deixar a universidade e adquirir experiência no mercado editorial, um grupo de quatro leitores compulsivos decidiu mergulhar em um projeto idealizado ao longo dos últimos anos. Ancorados na ideia de que é possível inventar uma nova forma de comercializar livros graças à internet, os editores Breno Barreto, Raquel Maldonado, Fabrício Fuzimoto e o engenheiro Arthur Granado montaram o site bookstorming.com, exclusivamente dedicado ao crowdfunding para produção de literatura.

O primeiro projeto do site tem sete autores, todos jovens, alguns premiados, a maioria com um ou dois livros publicados, graças ao dinheiro de financiamentos públicos ou bancados do próprio bolso. A ideia foi fuçar no mar de jovens escritores brasileiros quais eram aqueles que mereciam ser lidos, mas não conseguiam chegar ao potencial público leitor. Para esse mapeamento, os fundadores do bookstorming contaram com a ajuda de autores consagrados. Daniel Galera, José Luiz Passos, Paulo Scott e José Castelo fizeram parte do grupo que indicou os sete nomes para o primeiro projeto. ;A gente sente que o mercado do livro é muito engessado e não se beneficia nem de 10% do poder da internet. O crowfunding é algo que funciona bem e pensamos ;por que não fazer livros;?;, conta Breno Barreto, que também é editor da Casa da Palavra. A ideia de curadoria é fundamental para a equipe de editores. ;A gente não quer fazer qualquer projeto. Queremos a literatura do presente, que instiga. São autores brasileiros que estão fazendo excelente literatura mas não chegam ao grande público;, completa.

Degustação
A ideia de que o leitor não precisa de meio de campo para chegar ao autor está na base do site. Na rede, a relação é direta e quem escolhe se o livro deve ou não existir é o próprio público. A primeira edição, Desordem, reunirá contos de Katherine Junke, Erika Veiga, Cristiano Baldi, Paulo Bullar, Natércia Pontes, Olavo Amaral e Patrick Brock e tem 45 dias para acontecer. Durante esse tempo, o leitor tem acesso a pequenos trechos já produzidos e decide se quer comprar o livro antecipado.

Cada edição custa R$ 35 e são necessários 700 compradores para transformar o livro virtual em físico. Os primeiros 700 compradores entram para uma lista de leitores agraciados com pequenas vantagens, como encontro com autor, nome impresso no livro e outros brindes. O site foi lançado no dia 5 e, até ontem, 84 livros haviam sido comprados. Veja quem são alguns dos autores de Desordem.



"O sistema editorial tradicional não é eficiente e não há editora que vá mudar isso;
Olavo Amaral, escritor


Quem é quem

Erika Veiga

Mestra em bioética pela Universidade de Brasília (UnB), 37 anos, funcionária licenciada da Anvisa, escreveu o primeiro livro, Ressaibo, depois de morar cinco meses no Zimbábue e passar outros cinco viajando pela África. Nona é o segundo romance. Os dois livros foram publicados pela 7Letras e financiados pela própria autora.

;Meu estilo decididamente não é comercial. Para autores não comerciais como eu, o crowdfunding pode ser a melhor saída. Veja, mesmo que um livro meu não chegue a ser publicado, na plataforma da bookstorming meu trabalho ganha visibilidade, trechos do que escrevi alcançam pessoas que provavelmente jamais teriam acesso aos meus escritos. Lá, leitores exigentes e profissionais do meio editorial terão acesso à minha proposta, a trechos do que escrevi, saberão de meus trabalhos anteriores.;


Paulo Bullar
Soteropolitano radicado em São Paulo, 34 anos, publicou Húmus pela Livros do Mal, a editora independente de Daniel Galera, Guilherme Pilla e Daniel Pellizzari. No pequeno romance, os personagens são animais e cada um tem sua neurose e sua psicologia. Para Desordem, ele prepara contos históricos sobre piratas.

;Comecei a escrever no fim da adolescência para me divertir. Na época, eu lia muito, três ou quatro livros por semana, então acho que começar a escrever foi um processo natural, como um adolescente que passa o dia escutando rock e resolve tocar guitarra. Eu publicava os contos e minicontos que escrevia num mailzine de literatura, o K-Zine, editado por Patrick Brock.;


Olavo Amaral
Médico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é autor de dois livros de contos, Estática e Correnteza e escombros, ambos publicados de forma independente. Aos 35 anos, ele acha que o mais chato não é a dificuldade de publicação, e sim a falta de retorno para saber, ao menos, se foi lido. Os dois livros estão disponíveis no site http:/www.olavoamaral.com.br e podem ser baixados gratuitamente.

;O sistema editorial tradicional não é eficiente e não há editora que vá mudar isso. Acho que a gente tem que aceitar que um sistema em que nem a maior parte dos autores consegue se sustentar com o que escreve (porque as vendas são baixas e 90% do dinheiro fica com alguém mais) e nem a maior parte do público leitor consegue ter acesso aos livros (porque a distribuição é restrita e o livro ainda é muito caro no Brasil), é um fracasso tentar mudar. Dá pra fazer melhor do que isso. Mas não é uma questão de mudar as editoras, e sim de reformular a cadeia toda. Com isso tudo, o que acaba acontecendo é que o principal público interessado em `jovens autores; é o pessoal que escreve ou que é muito ligado em literatura por outras razões.;


Katherine Funke
Aos 33 anos, a jornalista catarinense escreveu os romances Sem pressa e Viagens de Walter graças a duas bolsas da Funarte. Também publicou um livro de contos curtos, Notas mínimas, escritos originalmente para um blog. Viagens de Walter foi pensado para ser lido em tablets e celulares e está disponível gratuitamente e unicamente em versão digital. Também teve contos inseridos em uma antologia publicada na Alemanha. Escreve na tentativa de dar sentido ao que vê, vive, imagina e vivencia.

;Vivemos numa época em que as pessoas estão potencialmente mais bem informadas e mais seletivas, em vez de passivas. Portanto, o crowdfunding é obra do Zeitgeist, e tem tudo para dar certo. O sucesso do modelo significa que o público está mais exigente e mais ativo. Não quer apenas que digam do que gostar, digam quem é o artista do momento, o livro da moda, etc. Há uma parcela do público que quer ver o que há fora do mainstream, por saber que o Brasil é vasto, que há muita gente boa escrevendo bem.;

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