Economia encolhe

Economia encolhe

Prévia do PIB indica retração de 0,11% em março, afetada pelo desempenho desanimador do comércio e da indústria

» DECO BANCILLON
postado em 17/05/2014 00:00
A campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição terá um desafio a mais. Além da inflação elevada, que corrói a renda das famílias e mina a confiança de consumidores e de empresários, a dificuldade de reação do Produto Interno Bruto (PIB) está cada vez mais evidente. Nos primeiros três meses do ano, o comércio e a indústria, até então dois dos principais motores econômicos, patinaram. Diante do desempenho débil desses setores, o PIB estagnou. Só em março, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR) retraiu-se 0,11%. Tido por analistas como termômetro do PIB, o indicador reflete o que para muitos analistas já era esperado: mesmo diante das medidas de estímulo adotadas pelo governo, a economia ainda não sinalizou melhora.

Pior do que isso. A cinco meses das eleições de outubro, já não há muito o que fazer para reverter o quadro. ;A verdade é que 2014 já acabou, quer queira o governo ou não. Agora, é juntar os cacos da economia e tentar salvar 2015;, disse o economista-chefe de um grande banco de investimentos, sob condição de anonimato. Nos primeiros meses do ano, a indústria e o varejo mostraram desempenho irregular. Em janeiro, ambos registraram dados positivos.

Não por acaso, o IBC-BR daquele mês apresentou forte alta de 1,47% ; até então o melhor percentual em um ano. Bastou fevereiro chegar para que os empresários tivessem de rever o otimismo do início do ano: no mês, tanto as vendas do varejo quanto a produção industrial ficaram estagnadas. Março foi ainda pior, com a atividade no comércio e no setor fabril encolhendo fortemente.

Decepção
Mesmo assim, o mercado financeiro ainda apostava numa alta de 0,6% do IBC-BR em março, resultado que se mostrou otimista diante do número, enfim, alcançado: queda de 0,1%. No trimestre, era estimada alta de 1,7%, número que chegou a 1% ao fim de março. O mercado tratou então de refazer as contas e passou a prever dias ainda mais difíceis para a economia em 2014.

Até conhecer o dado divulgado ontem pela autoridade monetária, o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, estimava em 0,5% o crescimento do PIB no primeiro trimestre. Ontem, porém, revisou o dado para uma alta de, no máximo, 0,2%. Segundo projeções do boletim Focus, um levantamento feito pelo BC com 100 instituições do mercado financeiro, o PIB deverá crescer 1,69% este ano. A estimativa reflete resultados piores do que o esperado do IBC-BR.

O crescimento econômico mais baixo, disse Rosa, é explicado pelo pessimismo de consumidores e empresários com a economia e, sobretudo, pelo cenário político. ;Não vejo investimentos crescendo este ano pelo quadro de incertezas elevadas, sobretudo por conta das eleições. Isso tudo deixa os empresários com o pé atrás. E, com baixa confiança, ninguém investe;, disse.

Intervencionismo
Um dos entraves ao investimento é o descrédito do setor privado com o governo. Analistas dizem que o excesso de intervencionismo em setores-chave, como o enegértico e o bancário, marcou o fim da lua de mel do mercado financeiro com a equipe de Dilma. A troca de farpas entre setor privado e governo intensificou-se há dois anos, quando, para fechar as contas públicas, o Tesouro, sob o comando do secretário Arno Augustin, adotou uma série de manobras contábeis para fechar as contas públicas, dando início ao que o mercado chamou de ;contabilidade criativa;.

Ciente da falta de diálogo, o Planalto determinou que o Ministério da Fazenda centralizasse toda a comunicação do governo com o setor privado, de modo que não provocasse novos ruídos. A ordem, dizem assessores, é tentar mostrar o máximo de transparência nas ações do governo.


; Aperto na renda

A escalada da inflação e dos juros básicos fez encolher a renda das famílias e produziu uma situação de endividamento que tem preocupado analistas. Em nove anos, o volume de dívidas contraídas por consumidores mais do que dobrou, conforme números do Banco Central. Em 2005, só 21,47% da renda das famílias eram destinados a pagar financiamentos bancários. O comprometimento do orçamento doméstico foi crescendo à medida que o governo elegeu o consumo como o principal motor do crescimento econômico, a partir de 2008. Não por acaso, a parcela da renda deixada todos os meses no banco alcançou 32,2% naquele ano, e foi subindo até chegar a 45,86%, em fevereiro último ; um recorde. Com mais dívidas contraídas, sobrará menos espaço para que as famílias continuem comprando, o que poderá reduzir o crescimento da economia daqui para a frente.

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