ONU alerta sobre abusos no leste

ONU alerta sobre abusos no leste

Relatório denuncia violações dos direitos humanos por milícias e acusa os separatistas pró-russos de perseguir a minoria étnica tártara na Crimeia

» LUCAS FADUL
postado em 17/05/2014 00:00
 (foto: Vasiliy Batanov/AFP)
(foto: Vasiliy Batanov/AFP)



A Organização das Nações Unidas divulgou ontem um documento no qual denuncia a ;deterioração alarmante; dos direitos humanos na região leste da Ucrânia, tomada pela turbulência separatista pró-Moscou, e na península da Crimeia, anexada pela Rússia em março. No quadro nebuloso descrito pela ONU, há menção a assassinatos, torturas, agressões, sequestros, atos de intimidação e até estupros cometidos por milícias ;bem organizadas e bem armadas;. Em entrevista coletiva, a Alta Comissária para os Direitos Humanos, Navi Pillay, instou as pessoas com influência sobre os rebeldes a ;fazer o possível para conter esses homens, que parecem determinados a desmembrar o país;. O Kremlin criticou o relatório, classificado como ;encomenda política para inocentar as autoproclamadas autoridades de Kiev;.

Redigido com dados recolhidos entre 2 de abril e 6 de maio, o texto aleerta também sobre a perseguição aos tártaros, minoria étnica da Crimeia. ;A liberdade de movimento, os casos de violência física, as restrições impostas aos meios de comunicação, o medo de perseguição religiosa para os muçulmanos praticantes e a ameaça de acabar com o Parlamento dos tártaros; são as principais preocupação. Segundo a ONU, a crise na Crimeia forçou o deslocamento de ;mais de 7,2 mil pessoas naturais da península, em sua maioria tártaros;.

O professor Alexandre Eugenio Pereira, coordenar do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), disse ao Correio que a situação na Ucrânia ;é, em parte, uma resposta russa à estratégia expansionista da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia (UE);. Na sua avaliação, ;movimentos separatistas dentro da ex-república soviética ganharam força estimulados, também, pelo que ocorreu na Crimeia;, onde um referendo aprovou por grande maioria a incorporação do território à Federação Russa.

;Terceira guerra;
O primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, voltou a pedir ajuda internacional e acusou o Kremlin de tentar provocar ;uma terceira guerra mundial; com seu apoio ao levante separatista no leste do país. Yatseniuk fez eco ao receio exposto dias atrás, em entrevista ao jornal Bild, pelo ex-chanceler (chefe de governo) da Alemanha Ocidental Helmut Schmidt. Líder do país em um período crítico da Guerra Fria e hoje com 95 anos, Schmidt atribuiu à UE parte da responsabilidade pela crise. ;Cresce a cada dia o risco de que a situação se agrave, como em agosto de 1914;, alertou o veterano dirigente social-democrata, referindo-se ao início da 1; Guerra, há 100 anos.

;O exemplo mais recente é a tentativa da Comissão Europeia (CE) de integrar a Ucrânia. E isso depois da Geórgia (que teve uma breve guerra com a Rússia em 2008). É preciso lembrar que a Geórgia está fora da Europa. Isso é megalomania por parte de Bruxelas;, concluiu. Como chanceler, entre 1974 e 1982, Schmidt deu continuidade à Ostpolitik, estratégia de distensão com a hoje extinta Alemanha Oriental e o bloco soviético, iniciada por Willy Brandt. Além de facilitar o contato entre alemães dos dois lados, essa política é vista como um dos fatores que favoreceram a reunificação do país, em 1990.


Avanço rebelde em Donetsk
Em Donetsk, reduto pró-Rússia, separatistas tomaram ontem um quartel da Guarda Nacional da Ucrânia. Homens armados invadiram a base das forças especiais do Ministério do Interior e os seguranças, aparentemente, não resistiram ao ataque, informou a agência de notícias France-Presse. ;Nós controlamos a base;, festejou um ativista, em frente ao edifício. De acordo com uma agência de notícias local, uma autoridade da ex-república soviética garantiu que a instalação se encontra em poder dos rebeldes. Os soldados da Guarda Nacional abandonaram o posto
em um caminhão.

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