Conexão diplomática

Conexão diplomática

Os EUA insistem em virar o disco das relações bilaterais para o "lado A", o do Zé Carioca e do chiclete com banana

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 17/05/2014 00:00
 (foto: Maglio Perez/Reuters - 11/3/14 )
(foto: Maglio Perez/Reuters - 11/3/14 )



Imagina depois que a Copa passar;
A frequência com que o ministro Luiz Alberto Figueiredo tem comparecido a audiências na Câmara e no Senado, para discutir temas pontuais ou mesmo o conjunto da política externa, permite supor que a discussão sobre posições e opções da diplomacia brasileira venha a ter algum espaço na agenda concorrida do segundo semestre. Será o intervalo entre a final da Copa e a eleição presidencial, com o balanço de ganhos e perdas no megaevento quase com certeza na pauta. Ainda que seja um exame voltado em boa parte para o impacto doméstico, antecipado com eloquência pelas manifestações dos últimos dias, estará em perspectiva também o resultado do torneio para a imagem do país.

De toda maneira, chama já atenção o apetite dos congressistas para monitorar e questionar a atuação brasileira na crise em curso na Venezuela. Hoje e amanhã, por sinal, o chanceler estará em Caracas para mais uma rodada do diálogo entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição, um processo que passa por momento delicado. Dez dias atrás, Figueiredo ouviu de congressistas de oposição a cobrança reiterada de uma atitude mais pública e incisiva a respeito das insistentes denúncias de abuso dos direitos humanos em um vizinho e sócio de Mercosul. Até aqui, a política traçada no Itamaraty e no Planalto tem privilegiado, na definição do ministro, o binômio ;discrição e eficiência;.

Em portunhol claro: diante de câmeras e microfones, o governo Dilma prefere se ater ao discurso em favor do entendimento e da moderação. E reserva para a intimidade eventuais observações sobre a conduta das partes.

Chiclete & banana
Virá embutida na Copa, aliás, a oportunidade para passar em revista outro item das relações exteriores que vem merecendo atenção e debate: o vice de Barack Obama, Joe Biden, que esteve no país em março (foto), deve voltar para torcer pela seleção norte-americana, e pretende aproveitar a ocasião para reunir-se uma vez mais com a presidente. O cancelamento da visita de Estado que Dilma faria a Washington, no segundo semestre de 2013, deixou à vista algo mais do que o atrito diplomático causado pela revelação de que as comunicações do Planalto foram grampeadas pela inteligência do Tio Sam. No plano doméstico, o episódio colocou sobre a mesa, ainda que por linhas tortas, o debate necessário sobre as relações bilaterais com a grande potência do Hemisfério.

Em público, um e outro lado procuram ostensivamente circunscrever o incidente ao terreno dos contatos entre governos ; sem influência sobre uma parceria fluida no terreno econômico, em especial na esfera privada. O Departamento de Estado tem enfatizado o interesse em virar a página da espionagem, ou apenas em virar o disco para aquela que considera o ;lado A; das relações, uma espécie de boa vontade recíproca expressa no personagem de Zé Carioca ou na ginga de Jackson do Pandeiro para misturar Miami com Copacabana e chiclete com banana.

Qual dos dois?
O cerne da questão sobre os laços com os EUA é o mesmo que permeia a polêmica, mais acesa do que aparenta ser, em torno da estratégia a adotar no tabuleiro do comércio mundial. Lançar-se ao Pacífico, quase nunca dantes navegado, ou retornar às rotas conhecidas do Atlântico, rumo ao norte? ; eis a questão, existencial e hamletiana para alguns. Ela estará na berlinda, uma vez mais, em seguida à Copa e ao encontro de cúpula do Brics, que trará a Fortaleza os líderes de Rússia, Índia, China e África do Sul. O novo presidente chinês, Xi Jinping, fará na ocasião uma visita de Estado a Dilma. E, na sequência do encontro com os sócios emergentes, os dois receberão quatro governantes da Celac, a comunidade latino-americana e caribenha. Os convidados são Raúl Castro (de Cuba, último país a presidir o bloco), Luis Guillerme Solís (da Costa Rica, atual presidente), Rafael Correa (do Equador, próximo na fila) e o líder de São Vicente e Granadinas, representando o Caribe.

Nas entrelinhas da agenda do chanceler, têm se repetido os encontros com porta-vozes empresariais, temerosos de que a prioridade fixada para os parceiros regionais mande o país para escanteio na sucessão de acordos comerciais fechados entre blocos e regiões. Na perspectiva eleitoral, a oposição vai ao ataque na defesa de uma reaproximação com EUA e Europa, os ;grandes mercados;. Mas, no entorno do Itamaraty e do Planalto, vozes de peso respeitável sustentam que o caminho das Índias é outro ; e expressam o receio de que, em um revival com os parceiros tradicionais, caiba à indústria brasileira a conta do banquete.

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