Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 17/05/2014 00:00
Luto na arquitetura
Morreu nessa quinta-feira, aos 92 anos, em Florianópolis, o arquiteto Miguel Alves Pereira. Embora pouco conhecido fora do circuito da arquitetura, teve um papel importante na reconstrução do curso da UnB, após a devastação promovida pela ditadura militar. Com o apoio de Oscar Niemeyer, Miguel Pereira foi escolhido para liderar a reabertura da FAU-UnB em 1968. Ficou até 1975, portanto, no pior período dos anos de chumbo, mas conseguiu ;contribuir de modo singular com o que se constitui nosso caráter como escola, ainda hoje;, lembrou o atual diretor da Faculdade de Arquitetura, José Manoel Morales Sánchez.

Três vezes presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) nacional, Miguel Pereira foi muito importante para o ensino e a organização da arquitetura e do urbanismo no Brasil. ;É imensa a tristeza pela perda do amigo por 40 anos, nosso timoneiro de tantas pelejas. Seu discurso apurado ; emoldurado pela voz firme e postura ereta ;, construído sobre décadas de reflexões e lutas pela democracia e pela arquitetura, nos fará tanta falta;, declarou Haroldo Pinheiro, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU).

As conexões de Miguel Pereira com Brasília ultrapassam o período em que dirigiu a FAU/UnB. O arquiteto dedicou sua tese de doutorado a Oscar Niemeyer, não à obra projetada, como seria de se prever. Pereira investigou a obra escrita de Niemeyer. ;É o arquiteto brasileiro que melhor usa seus escritos para descrever seus projetos (;). Seu método de trabalho era começar a desenhar em estudos preliminares e, em seguida, quando encontrava alguma dificuldade, parava tudo para escrever textos explicativos às vezes na própria prancha. Para ele, se o arquiteto não consegue explicar seu projeto, é porque algo está errado;, disse Pereira em depoimento à UnB, quando da morte de Niemeyer.

Miguel Pereira era um arquiteto militante das causas da categoria e das causas sociais. Dizia que a arquitetura, passada a fase de esplendor do modernismo, entrava em uma segunda fase, e, nesta nova etapa, precisava ;aprender e se empenhar a ir aonde o povo está;. Lembrava das angústias de Niemeyer. Em sendo comunista, nunca conseguiu projetar para o povo. ;As obras públicas daquele tempo privilegiavam somente as obras caras para a burguesia brasileira.;

Menos de um ano atrás, em agosto de 2013, Miguel Pereira saiu em defesa do colega João Filgueiras Lima, o Lelé, autor de um projeto para o Minha Casa, Minha Vida que foi engavetado pelo atual governo. ;Lelé teve uma reunião com a presidente Dilma e ela perguntou a ele o que achava do programa Minha Casa; Ele disse que era uma porcaria. Então, ela pediu que ele desenvolvesse um outro projeto.; Lelé criou um novo tipo de moradia para as populações carentes. Em vão.

;Lelé projetou coisas melhores, porque o Minha Casa é um conjunto de objetos arquitetônicos iguais, um ao lado do outro. Uma casa é igual à outra, então, é casa de ninguém. Não tem escala humana, é inumano. Era preciso também tirar os projetos das mãos das empreiteiras que não têm a preocupação da qualidade;, fustigou Miguel Pereira.

A FAU/UnB prepara homenagem ao arquiteto para o próximo dia 28.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação