A Brasília de Sérgio Sampaio

A Brasília de Sérgio Sampaio

Cantor capixaba, morto há 20 anos, fez uma das mais belas homenagens à cidade quando viveu aqui, em 1993. Zeca Baleiro revela ao Correio entrevista rara com o artista

» GABRIEL DE SÁ
postado em 17/05/2014 00:00
 (foto: Luciana Barreto/Divulgação)
(foto: Luciana Barreto/Divulgação)



Ao andar sozinho por todos os bares e conseguir cantar, mesmo com o ar tão seco, Sérgio Sampaio finalmente se sentiu em casa em meio às asas da cidade-avião. É o compositor capixaba quem descreve a experiência nos versos de Brasília, canção que permaneceu inédita por mais de uma década após a morte dele, há 20 anos, e que desvela de forma estarrecedora a relação do artista com a capital federal, que o acolheu por um mês em seu último ano de vida.

Aqui, o criador de Eu quero voltar meu bloco na rua, que inundou o país no começo dos anos 1970, e de mais cerca de 50 pérolas obscuras do cancioneiro popular brasileiro, foi recebido pelo amigo Roberto Valadão, então deputado federal pelo Espírito Santo, em apartamento funcional na 302 Norte. Sampaio e Valadão eram camaradas desde os tempos de Cachoeiro de Itapemirim (ES), terra natal de ambos.


Aos 46 anos, careta e debilitado pelos anos de farra, Sampaio vivia momento de intenso vigor criativo. Naquele 1993, ele compôs diversas canções, fez shows, reuniu em torno de si um séquito de fiéis admiradores e inventou uma cidade para si. ;Ele estava meio jogado de um lugar para o outro e, aqui, teve dignidade novamente;, garante o amigo Ricardo Jarrão, um dos primeiros a ouvir Sampaio entoar, acompanhado de violão, a música Brasília.

Apaixonado

Apesar de não ser, explicitamente, uma canção de amor, Brasília pode ter sido inspirada em um romance que o artista viveu na cidade, com uma funcionária de empresa terceirizada que cuidava da limpeza do apartamento onde estava hospedado. ;Ele nunca me disse isso, mas produziu a música nesse momento em que estava amando;, contextualiza Jarrão.

Sampaio faria três shows na cidade em junho de 1993, mas acabou se alongando e protagonizando 15. ;Na outra vez que vim, não tive a oportunidade de conhecer. Agora sim está dando para perceber o lado mais humano da cidade. Brasília, a partir de agora, vai fazer parte da minha vida de forma afetiva;, contou o artista ao Correio na época. Ele morreria de pancreatite crônica, causada pelo alcoolismo, em 15 de maio de 1994.

Muito café

;Brasília era uma das cidades que recebia o Sampaio com mais entusiasmo, por isso ele tinha um grande carinho;, comenta o compositor maranhense Zeca Baleiro, responsável por lançar, em 2006, o disco Cruel, com material inédito do artista ; incluindo a faixa em homenagem à capital federal. ;A música é crítica: fala das coisas boas de Brasília, mas também das mazelas políticas;, destaca.
O biógrafo Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! (Editora Muiraquitã), conta que a boa repercussão do primeiro concerto é que o animou a ficar mais. ;A letra de Brasília é bem inteligente, com uma série de associações que se referem à cidade de forma muito carinhosa.; A primeira vez que Sampaio esteve na capital federal para um show, segundo o escritor, foi em 1983, na Sala Funarte.

Quem produzia as apresentações era Cristina Roberto (do emblemático Bom Demais). Ela lembra que tinha que levar uma garrafa de dois litros de café para todos os lugares onde ia acompanhar o artista. ;Ele já não bebia, não fumava nem cheirava, então usava o café para dar um pique. Era um vício maluco, um combustível;, conta ela. Um das apresentações foi na casa de uma fã, Luciana Barroso, no Lago Norte, onde a fotografia que ilustra esta página foi tirada. ;O cara que fez o Brasil todo cantar estava tocando por muito pouco. Era um grande artista, mas não tinha grana. Acho que isso angustiava ele;, opina Cristina.

A cantora brasiliense Ligiana Costa era pré-adolescente no começo da década de 1990, quando Sérgio Sampaio ia visitar a casa dos pais dela (o jornalista Celso Araújo e Ana Costa), na Asa Norte. Ela gravou Eu quero botar meu bloco na rua no primeiro disco dela, De amor e mar (2009), e já cantou Brasília em show. ;Essa música é um diário pessoal sobre a estada dele Bbc7Jr", "region": "prebid-us"}}], "code": "cb-publicidade-retangulo-2", "sizes": [[336, 280], [300, 250]] } ] pbjs.bidderSettings = { appnexus: { bidCpmAdjustment: function(bidCpm, bid) { return bidCpm > .01?bidCpm -.01:0; } },rubicon: { bidCpmAdjustment: function(bidCpm, bid) { bidCpm = (bidCpm * .85); return bidCpm > .01?bidCpm -.01:0; } },criteo: { bidCpmAdjustment: function(bidCpm, bid) { return bidCpm > .01?bidCpm -.01:0; } },smartadserver: { bidCpmAdjustment: function(bidCpm, bid) { bidCpm = (bidCpm * .80); return bidCpm > .01?bidCpm -.01:0; } } } pbjs.que.push(function() { pbjs.setConfig({ bidderSequence: "random", priceGranularity: {'buckets': [{'min': 0,'max': 50,'increment': 0.01}]}, currency: {"adServerCurrency": "USD"} }); }); pbjs.que.push(function() { pbjs.addAdUnits(pbjs.unitsAd); });

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A Brasília de Sérgio Sampaio

A Brasília de Sérgio Sampaio

Cantor capixaba, morto há 20 anos, fez uma das mais belas homenagens à cidade quando viveu aqui, em 1993. Zeca Baleiro revela ao Correio entrevista rara com o artista

» GABRIEL DE SÁ
postado em 17/05/2014 00:00
 (foto: Luciana Barreto/Divulgação)
(foto: Luciana Barreto/Divulgação)



Ao andar sozinho por todos os bares e conseguir cantar, mesmo com o ar tão seco, Sérgio Sampaio finalmente se sentiu em casa em meio às asas da cidade-avião. É o compositor capixaba quem descreve a experiência nos versos de Brasília, canção que permaneceu inédita por mais de uma década após a morte dele, há 20 anos, e que desvela de forma estarrecedora a relação do artista com a capital federal, que o acolheu por um mês em seu último ano de vida.

Aqui, o criador de Eu quero voltar meu bloco na rua, que inundou o país no começo dos anos 1970, e de mais cerca de 50 pérolas obscuras do cancioneiro popular brasileiro, foi recebido pelo amigo Roberto Valadão, então deputado federal pelo Espírito Santo, em apartamento funcional na 302 Norte. Sampaio e Valadão eram camaradas desde os tempos de Cachoeiro de Itapemirim (ES), terra natal de ambos.


Aos 46 anos, careta e debilitado pelos anos de farra, Sampaio vivia momento de intenso vigor criativo. Naquele 1993, ele compôs diversas canções, fez shows, reuniu em torno de si um séquito de fiéis admiradores e inventou uma cidade para si. ;Ele estava meio jogado de um lugar para o outro e, aqui, teve dignidade novamente;, garante o amigo Ricardo Jarrão, um dos primeiros a ouvir Sampaio entoar, acompanhado de violão, a música Brasília.

Apaixonado

Apesar de não ser, explicitamente, uma canção de amor, Brasília pode ter sido inspirada em um romance que o artista viveu na cidade, com uma funcionária de empresa terceirizada que cuidava da limpeza do apartamento onde estava hospedado. ;Ele nunca me disse isso, mas produziu a música nesse momento em que estava amando;, contextualiza Jarrão.

Sampaio faria três shows na cidade em junho de 1993, mas acabou se alongando e protagonizando 15. ;Na outra vez que vim, não tive a oportunidade de conhecer. Agora sim está dando para perceber o lado mais humano da cidade. Brasília, a partir de agora, vai fazer parte da minha vida de forma afetiva;, contou o artista ao Correio na época. Ele morreria de pancreatite crônica, causada pelo alcoolismo, em 15 de maio de 1994.

Muito café

;Brasília era uma das cidades que recebia o Sampaio com mais entusiasmo, por isso ele tinha um grande carinho;, comenta o compositor maranhense Zeca Baleiro, responsável por lançar, em 2006, o disco Cruel, com material inédito do artista ; incluindo a faixa em homenagem à capital federal. ;A música é crítica: fala das coisas boas de Brasília, mas também das mazelas políticas;, destaca.
O biógrafo Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! (Editora Muiraquitã), conta que a boa repercussão do primeiro concerto é que o animou a ficar mais. ;A letra de Brasília é bem inteligente, com uma série de associações que se referem à cidade de forma muito carinhosa.; A primeira vez que Sampaio esteve na capital federal para um show, segundo o escritor, foi em 1983, na Sala Funarte.

Quem produzia as apresentações era Cristina Roberto (do emblemático Bom Demais). Ela lembra que tinha que levar uma garrafa de dois litros de café para todos os lugares onde ia acompanhar o artista. ;Ele já não bebia, não fumava nem cheirava, então usava o café para dar um pique. Era um vício maluco, um combustível;, conta ela. Um das apresentações foi na casa de uma fã, Luciana Barroso, no Lago Norte, onde a fotografia que ilustra esta página foi tirada. ;O cara que fez o Brasil todo cantar estava tocando por muito pouco. Era um grande artista, mas não tinha grana. Acho que isso angustiava ele;, opina Cristina.

A cantora brasiliense Ligiana Costa era pré-adolescente no começo da década de 1990, quando Sérgio Sampaio ia visitar a casa dos pais dela (o jornalista Celso Araújo e Ana Costa), na Asa Norte. Ela gravou Eu quero botar meu bloco na rua no primeiro disco dela, De amor e mar (2009), e já cantou Brasília em show. ;Essa música é um diário pessoal sobre a estada dele

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