Os clássicos em versão simplificada

Os clássicos em versão simplificada

Idealizadas pela jornalista e escritora Patrícia Secco, adaptações de obras de Machado de Assis e de José de Alencar provocam alvoroço nas redes sociais e dividem as opiniões de especialistas

Nahima Maciel
postado em 17/05/2014 00:00



Frequentar a ironia de Machado de Assis e mergulhar no romantismo ingênuo de José de Alencar são aventuras tão prazerosas quanto desafiadoras. A prosa sofisticada de Machado não permite um segundo sequer de desatenção, mas de tão bonita é capaz de fisgar o leitor em milésimos de segundos. Há percalços e obstáculos pelo caminho, palavras nem sempre coloquiais, mas que obrigam o leitor a ampliar o próprio vocabulário ao vasculhar dicionários para compreender o texto. Alencar também tem lá suas construções e desafios que, para alguns leitores, podem ser uma barreira. Preocupada com o afastamento entre livro e leitor provocado pelo estilo dos autores, a jornalisa Patrícia Secco decidiu reescrevê-los substituindo trechos e palavras para facilitar a leitura e adaptar a narrativa a uma linguagem mais contemporânea. O projeto Os clássicos e a leitura ganhou apoio do MInistério da Cultura (MinC), que liberou a captação de R$ 1 milhão para descomplicar os clássicos brasileiros. A notícia provocou espanto em muitos especialistas e ganhou as redes sociais.

Os dois primeiros volumes ; A pata da gazela, de José de Alencar, e O alienista, de Machado de Assis ; estão prontos e serão vendidos em livrarias por R$ 1,67 e distribuídos pelo Instituto Brasil Leitor (IBL), parceiro de Patrícia no projeto. São 600 mil exemplares que vêm acompanhados de um livreto sobre como formar um bom leitor. Facilitar a leitura dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século 19, reescrevendo seus textos e substituindo palavras, não parece, para muitos, a maneira mais correta de lidar com os baixos índices de leitura e a deficiência crônica da educação no Brasil. Mas há também entusiastas de adaptações que encaram o processo como a possibilidade de aproximação entre o leitor e a obra.

Para Patrícia, o projeto faz parte de uma iniciativa de democratização do livro e da leitura. ;Diariamente, me deparo com pessoas que não leem, de diferentes níveis de escolaridade e faixa de renda. É o caso do Marcos, do Seu José, da Damiana e de tantas outras pessoas que não tiveram oportunidade de estudar ou tiveram acesso a um ensino de baixa qualidade: jovens, adultos e idosos que não completaram o ciclo educacional e são constantemente excluídos do acesso à cultura. É para essas pessoas que o projeto dos clássicos da literatura foi desenvolvido;, avisa. Quanto às críticas, ela rebate: ;Trata-se de uma disputa entre o purismo e a democratização da leitura. Tenho, desde então, me esforçado a esclarecer as características dessa ação que reputo fundamental para ampliar o número de leitores em nosso país.;

Tradução facilitada
Autora de livros infantojuvenis e de técnicas de redação, Lucília Garcez acredita que a descomplicação de Patrícia pode ser mais maléfica do que benéfica. ;Ler Machado e Alencar é uma oportunidade para as crianças ampliarem o vocabulário. O valor de literatura está justamente na forma. Traduzir um clássico facilitando é uma coisa, mas um autor brasileiro considerado um dos melhores da nossa língua não deve ser mexido;, lamenta Lucília. ;A gente deve é qualificar o professor e não facilitar a linguagem.; Lucília lembra que a leitura dos clássicos deve sempre ser feita com mediação de professores. ;Eles ajudam a introduzir (o leitor) naquela sintaxe.;

Lilian Zamboni, que já foi professora de ensinos médio e fundamental e é aposentada do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), ficou interessada em ler os livros do projeto e vê com bons olhos, de modo geral, as iniciativas de adaptações de clássicos. ;Do mesmo modo que existem adaptações ou reescrituras de grandes obras clássicas para jovens, crianças e adultos para que tenham acesso ao universo desses autores, acho que adaptar obras brasileiras para leitores é bem-vindo. Quanto mais leitores tiver um país, mais civilizado ele será;, acredita Lilian, que também é doutora em linguística. ;É um processo em prol da humanização e da democratização da leitura.;

Escritora há 18 anos e idealizadora do projeto Ler é Fundamental, que ganhou o prêmio Virada Sustentável em 2013, Patricia contou com uma equipe para realizar a ;descomplicação; dos dois primeiros volumes de Os clássicos da leitura. Embora a narrativa tenha sido alterada, a assinatura continua sendo a dos autores do texto original. ;Em uma adaptação, o texto é assinado pelo autor, mas deve estar marcado como tal. De qualquer modo eu não assinaria as adaptações, pois não foram feitas por mim;, avisa Patrícia.

Especializada em literatura contemporânea, escritora e crítica literária, Regina Dalcastagn;, professora da UnB, não entende por que tanta polêmica em torno do projeto de Patrícia. ;Acho essa polêmica fora de época;, diz. ;São tantas adaptações que já foram feitas. Não sei por que o drama. Não vejo necessidade de adaptação de Machado de Assis, mas também não vejo problema.; Regina acredita que há um endeusamento do autor e que ele foi colocado num pedestal no qual não se pode tocar. O estranho, para ela, é a quantidade de dinheiro público no projeto. ;O que estranhei foi o valor absurdo para essa publicação. Por quê? Qual a necessidade? Mas como é o Brasil, você nunca sabe ao certo, né?; Ao lado, Patrícia Secco explica por que e como investiu na ideia de reescrever, de forma facilitada, a prosa de Machado de Assis e José de Alencar.



Cinco perguntas para/ Patrícia Secco


Qual a ideia do projeto para reescrever os clássicos? É mesmo descomplicar a leitura para jovens e adultos?
Desenvolvo projetos de estímulo à leitura há quase duas décadas. Viajo o Brasil todo visitando escolas, feiras de livros, projetos sociais... É onde eu gosto de estar, com leitores, falando sobre livros e sobre como é importante ler. Eu tenho certeza absoluta de que é na leitura que a educação encontra base para se desenvolver. Entretanto, diariamente, me deparo com pessoas que não leem, de diferentes níveis de escolaridade e faixa de renda. É o caso do Marcos, do Seu José, da Damiana e de tantas outras pessoas que que não tiveram oportunidade de estudar ou tiveram acesso a um ensino de baixa qualidade: jovens, adultos e idosos que não completaram o ciclo educacional e são constantemente excluídos do acesso à cultura. É para essas pessoas que o projeto dos clássicos da literatura foi desenvolvido.

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