Jogo em ritmo lento nas lojas

Jogo em ritmo lento nas lojas

Esperança de lojistas é de que a proximidade do início do Mundial empolgue brasileiros a comprar produtos verde-amarelos. Analistas acreditam que a situação econômica do país e as críticas ao evento afastam compradores

» DIEGO AMORIM
postado em 27/05/2014 00:00






Nem a Copa do Mundo parece capaz de livrar o comércio do pessimismo. A menos de três semanas para a abertura do evento esportivo, lojistas ainda vivem apenas de expectativa e torcem para uma corrida de última hora às compras. Os próprios representantes do setor não fogem da percepção de que nos Mundiais passados, mesmo o Brasil não sediando os jogos, o verde-amarelo já estava muito mais presente nas ruas e nas vitrines a esta altura.

Para os vendedores, que atuam na linha de frente, e os analistas da retaguarda, há duas maneiras de tentar entender a reação tardia dos consumidores. A primeira está atrelada ao cenário macroeconômico do país do futebol: a inflação segue alta, o crédito encareceu e as famílias nunca tiveram tão endividadas. Com um quadro insistentemente desfavorável, a euforia da competição não se mostra suficiente para conseguir virar esse jogo.

A outra explicação tem como pano de fundo o turbilhão de críticas e protestos em torno da Copa no Brasil. Boa parte da população, na opinião de quem procura compreender o que está acontecendo, não tem demonstrado, por enquanto, sentimentos de orgulho e entusiasmo, ao contrário do que se podia imaginar. Esse desânimo às vésperas de a bola começar a rolar também acaba contribuindo para as vendas de artigos brasileiros estarem abaixo do esperado.

Os ânimos contidos, no entender do economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), fazem todo o sentido. ;Os consumidores perceberam que não podem se empolgar. Para o comércio em geral, a Copa no Brasil não fará tanta diferença;, decreta ele, com base em pesquisas divulgadas recentemente. Ele reforça o ambiente de inflação persistente e de maior dificuldade no acesso ao crédito.

No mês passado, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) constataram que um em cada três comerciantes não acredita em qualquer impacto do Mundial nas vendas. Há uma semana, um balanço do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) indicou uma ocupação frustrante nas principais redes hoteleiras do país nas vésperas e nos dias de jogos: 45% dos quartos ainda estavam disponíveis.

Em uma grande loja de itens esportivos, o estoque de peças alusivas à Seleção está ;bombando;, como define o gerente Marcos Luz. Só ontem chegaram mais 600 camisetas oficiais. A beleza da vitrine, porém, montada há uma semana e com artista da tevê sorrindo no banner, ainda não garantiu bons resultados. ;Não está sendo o que a gente esperava. Tomara que, na hora ;h;, a paixão pelo Brasil fale mais alto;, diz o gerente, de aparelho verde nos dentes.

Até aqui, comenta Marcos, a maior parte das vendas puxadas, de fato, pela Copa foi feita por empresas que decidiram enfeitar as repartições e comprar brindes para distribuir entre os funcionários. ;De uma só vez, vendemos 220 camisetas. É isso que está segurando o movimento;, afirma Marcos, com a missão de, em junho, bater uma meta semelhante à do Natal. A loja gerenciada por ele é um dos raros estabelecimentos do shopping que já estampam as cores do país nas prateleiras.

As almofadas e os travesseiros com os dizeres do Brasil estão empilhados no fundo de uma loja de cama, mesa e banho do mesmo centro comercial em Brasília. A vendedora mais experiente, Jaciara Santana, 45 anos, diz que já vendeu uma ou outra unidade das peças personalizadas, mas confessa que a procura demora a empolgar. Por ora, a alegria dela se resume à de ter abandonado o uniforme oficial para, assim como as colegas, trabalhar com uma camiseta amarela.

Dia dos Namorados
Com promoções e sorteios, o comércio se esforça para associar o Dia dos Namorados à Copa do Mundo. A data dos corações vermelhos coincidirá com a abertura do Mundial, quando o Brasil enfrentará a Croácia. Jaciara torcerá pelo time de Felipão e para que os turistas da capital federal, onde serão realizadas sete partidas, circulem pelo shopping, cuja administração aposta em alta de 15% no fluxo de pessoas durante este mês.

A gerente de uma loja de roupas de bebê, Raimunda da Luz, juntou a equipe na última sexta-feira e encheu a loja de bandeiras compradas para a Copa das Confederações, no ano passado. Ciente de que ;o povo anda meio desanimado;, ela sustenta um otimismo difícil de encontrar entre os comerciantes. ;Entendo que as pessoas estejam chateadas, mas somos brasileiros e temos de acreditar no melhor. Quero vender mais e não vou torcer contra isso;, comenta, quase como desabafo.

Coincidência ou não, ontem, em plena segunda-feira, a loja de Raimunda estava movimentada. ;Está vendo só? Isso é por causa das cores do Brasil. O ambiente fica mais alegre e as pessoas entram;, avaliava a empresária. As camisetas infantis com o brasão da Seleção, no valor de quase R$ 50, exemplifica ela, já estão tendo reposta. ;As pessoas vão comprar. Pode esperar que daqui até a Copa a situação vai melhorar;, insiste a comerciante.

Nas ruas, a fiscalização persegue os ambulantes mais do que os clientes. Ontem, o Correio flagrou o momento em que homens da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) e da Secretaria de Estado da Ordem Pública e Social do DF (Seops) recolhiam artigos vendidos às margens do Eixão Sul, no caminho do aeroporto. ;Sem autorização, qualquer comércio em área pública é proibido, seja de artigos do Brasil ou não;, sentenciou o tenente Domingos Aguiar.

Longe dali, o carioca João Machado, 56, expunha artigos do Brasil sem ser incomodado pelos agentes públicos. Do Rio de Janeiro, de onde o ambulante se mudou há um mês, chegaram 200 bandeirinhas para colocar no carro. Já se passaram duas semanas e ele não vendeu nem 20. ;Meu negócio são as frutas. Coloquei isso aí só para aproveitar a época da Copa, mas, até agora, nada;, comenta Machado, que pagou R$ 3,50 por cada unidade e as vende por R$ 5.


; Produtos
especiais

Com a Copa do Mundo chegando, alguns empresários apostaram em produtos temáticos, como doces decorados com as cores da Seleção Brasileira. Outros passaram a oferecer serviços mais inusitados, como o de sósias de jogadores e técnicos de futebol, que fazem participações em eventos, comerciais e podem até ser dublês dos famosos. Em uma agência de modelos consultada pelo Correio, a procura por pessoas parecidas com os ídolos do futebol aumenta cerca de 70% em períodos próximos ao Mundial, e a oferta também cresce. O cachê dos

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