As lições do velho mundo

As lições do velho mundo

» LÁZARO GUIMARÃES Magistrado (jlaz@uol.com.br)
postado em 27/05/2014 00:00

Ao brasileiro em passeio pela Europa oferece-se a oportunidade de constatar a supremacia do Estado Democrático de Direito, a importância do bom funcionamento das instituições e o reflexo da generalidade da educação sobre a ordem pública e a qualidade da vida.
Em Lisboa, como em Madri, Milão, Roma, Berlim, Paris, Londres ou Liverpool, é possível andar sossegado nas ruas, sem temer assalto nem tomar ônibus, trem ou metrô para se locomover por todos os pontos. E os jornais, o rádio, a televisão apresentam programas em que se revela a participação política das diversas camadas da sociedade.

Naquelas cidades, poucos anos atrás, a população enfrentava os efeitos de uma forte crise financeira, que os governos souberam praticamente superar, sem abalo institucional. E tudo vai voltando ao normal.

A situação é bem diferente daquela da primeira metade do século passado, na mesma Europa, na qual as crises econômicas, os fanatismos e as ideologias totalitárias fascista e comunista resultaram nas terríveis guerras civis e nas duas guerras mundiais, com dezenas de milhões de mortos.

Uma narrativa fiel e profunda daquela época encontra-se no romance histórico O homem que amava os cachorros, em que o escritor cubano Leonardo Padura descreve os últimos anos da vida de Leon Tróstski, o comandante do Exército Vermelho, assassinado no méxico por Ramon Mercader, a mando de Stálin, o feroz ditador, responsável também pelo fuzilamento de todos os líderes da Revolução de Outubro de 1917, após subir ao poder, com a morte de Lenin.

O livro consegue mostrar, ao mesmo tempo, a realidade das lutas fratricidas na Rússia e na Espanha, bem como a atual situação de Cuba, estagnada pelo isolamento e pelo sectarismo castrista, que, infelizmente, tem seguidores desatentos no Brasil, como na Venezuela, na Bolívia, no Equador e na Argentina.

Aquelas tragédias serviram de lição e a Europa Ocidental adotou estruturas políticas social-democráticas que asseguraram a recuperação, o crescimento econômico e a profunda melhoria das condições de todos os estratos sociais.

É certo que problemas existem, a concentração de renda é progressiva e persistente, apesar da elevação do padrão de vida das camadas mais desfavorecidas, a especulação financeira assume aspectos alarmantes, mas nada disso ameaça o equilíbrio político.

Tome-se como exemplo a antes explosiva Irlanda do Norte. Depois de longos anos de terror, a integração à comunidade europeia resultou no desarmamento e num governo de coalizão que estabeleceu a paz e o equilíbrio. Católicos e protestantes, unionistas e separatistas ainda se detestam, mas convivem democraticamente.

A questão de mais difícil solução é a intensidade do fluxo migratório. Se no pós-guerra os imigrantes ajudaram os países devastados no processo de reconstrução, hoje eles se multiplicaram, em coincidência com a crise econômica, que aumentou substancialmente os índices de desemprego ; daí a perigosa reaparição das ondas racistas e o fortalecimento dos partidos nacionalistas e fascistas. A força das instituições garante, entretanto, que não há possibilidade de recidiva dos totalitarismos.

Todas essas reflexões servem para apontar o único caminho seguro para o Brasil, que é a continuidade e fortalecimento das instituições tão bem organizadas na Constituição de 1988 e o repúdio a qualquer tendência autoritária, seja qual for o colorido de suas bandeiras.

O rumo certo é o da democracia representativa, em que o Estado detém a reserva da força e deve reprimir qualquer iniciativa que ponha em risco essa normalidade, como as manifestações violentas, inclusive as greves de policiais militares, que têm por missão defender o Estado e a comunidade, jamais colocá-los em perigo para atender aos interesses corporativos.

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