Dívida compromete renda de servidor por cinco anos

Dívida compromete renda de servidor por cinco anos

Governo quer estimular o crédito para incrementar o PIB raquítico, mas as famílias estão com o orçamento no limite devido à inflação alta e aos débitos recordes com os bancos

» DIEGO AMORIM » RODOLFO COSTA
postado em 08/06/2014 00:00
As dívidas e a preocupação com elas não param de crescer. Ainda ressaqueados pelo fim da euforia do consumo e do crédito farto, brasileiros penam para ajustar as contas e se adaptarem a uma realidade de inflação e juros altos. Somente às instituições financeiras, de acordo com o Banco Central, as famílias estão devendo R$ 1,3 trilhão, um recorde correspondente a 26,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos últimos 12 meses, esse montante acumula alta de 15,2%, ilustrando o aperto no orçamento doméstico.

O real saldo do comprometimento da renda dos brasileiros com empréstimos é ainda maior do que o calculado pelo BC. O mapeamento da autoridade monetária não inclui as dívidas alheias ao sistema financeiro, como aquelas assumidas pelos consumidores diretamente com o comércio. Não à toa, o endividamento das famílias tem alcançado patamares nunca antes registrados: a carestia deu a sensação de que o salário encolheu e os débitos alargaram.

O consumo não tem mais força para garantir o crescimento do país, apesar da insistência do governo de que os brasileiros precisam de mais crédito para ajudar a atividade a sair do atoleiro em que se encontra. O nebuloso cenário da economia, traçado pelos principais indicadores, reforça incertezas e potencializa um sentimento de apreensão, sobretudo porque a ameaça de recessão é cada vez maior. Em períodos de contração do PIB, o desemprego aumenta e fica mais difícil honrar os compromissos em dia. Por isso, educadores financeiros são unânimes ao orientar uma postura conservadora dos consumidores. Mais do que nunca, a ordem agora, para todas as classes, é conter gastos e consumir apenas o necessário, não abrindo mão da poupança.

Na casa de Cícera Souza, 78 anos, os R$ 720 da pensão não conseguem mais suprir as necessidades básicas. ;O dinheiro entra e já sai. Dá para comprar só arroz, feijão, açúcar, café e carne, alguns medicamentos e olhe lá;, afirma. Quando a conta não fecha, quase sempre, ela recorre a empréstimos. Há dois meses, a pensionista mandou cortar o telefone fixo, para economizar. ;Eram R$ 70 que me faziam falta no fim do mês;, explica.

Sufoco geral
Como se observa com milhares de brasileiros, a vida de Cícera não anda fácil. Cada centavo é valorizado. ;Precisei reformar a casa há uns dois anos. Desde então, a situação apertou;, lembra. O arrocho atinge toda a família. Uma das filhas, a servente Maria José de Souza, 52, recorreu a um empréstimo consignado e acabou se enrolando mais ainda. ;Peguei R$ 1,5 mil, mas já paguei, até o momento, quase três vezes esse valor;, calcula, prometendo se desapegar do crédito.

Maria José ganha R$ 780 e, para aumentar a renda, trabalha como diarista nos fins de semana. Pela faxina, cobra R$ 80. Para passar roupa, R$ 30. Tanto esforço não basta para solucionar os problemas financeiros da casa. ;Uso esse dinheiro extra para comprar alimentos, mas as compras estão sufocadas pela inflação;, reclama. A última vez que comprou algo para si, acrescenta ela, foi com o 13; salário, torrado com algumas roupas e itens para a cozinha.

Ajuda a amenizar as dívidas da família Souza o aluguel do quarto dos fundos, ocupado atualmente pela diarista Lucineide Lopes, 41, que paga R$ 250 por mês pela moradia. A inquilina também está com dificuldades para fechar as contas. Os cuidados com o filho mais novo, Fernando, de 1 ano, a têm impossibilitado de trabalhar todos os dias. Com isso, a renda despencou. ;No mês passado, juntei apenas R$ 400;, conta. O dinheiro garantiu o aluguel e a alimentação básica.

O endividamento das famílias se deu basicamente pelo mau uso do crédito, na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Educação Financeira (Abef), Edmilson Lyra. Ele prevê um ;sofrimento; ainda maior, já que a inflação se mantém em níveis insistentemente elevados quando se analisa o acumulado de 12 meses. ;E o índice divulgado oficialmente não tem o mesmo peso da inflação percebida pelo consumidor nos supermercados;, comenta.

Sem o sustento do consumo, o Produto Interno Bruto (PIB) do país patina, sem sinais de retomar o fôlego. O pífio avanço de 0,2% no primeiro trimestre faz Lyra se preocupar com o emprego dos brasileiros. ;Essa onda de demissões programadas é algo explosivo. O quadro não é nada animador. Muitas famílias não conseguirão sair tão cedo do endividamento;, acredita o analista, para quem o baixo crescimento da atividade em 2014 é fato consumado.

Agravantes

O cenário internacional não contribui muito para previsões positivas a curto prazo. Júlio Miragaya, do Conselho Federal de Economia, lembra que a Índia e a China desaceleraram, e a Europa não consegue destravar. ;Não há certeza alguma no horizonte. Não dá para apostar em recuperação de nível de consumo. Há muita gente apostando que a atual crise passe de 2020;, sublinha o economista. No Brasil, há o agravante dos sinais de esgotamento da capacidade de consumo do mercado interno.

A alta dos juros, após uma política desastrosa do governo, ajudou a afundar os brasileiros nas dívidas. Em 1; de maio de 2012, em pleno Dia do Trabalho, a presidente Dilma Rousseff protagonizou um fatídico discurso em que declarou guerra aos bancos. Começava ali uma estratégia para derrubar a taxa básica de juros (Selic) a níveis históricos. Foi o que ocorreu, em outubro de 2012, quando a Selic chegou a 7,25%. A façanha, forçada pelo BC a mando do Planalto, não se sustentou. Em abril do ano passado, a Selic passou a subir e está, hoje, em 11% anuais.

O servente Quester Oliveira Santana, 33, sentiu no bolso as nove elevações consecutivas dos juros básicos da economia. Nesse intervalo, ele tomou dois empréstimos. O segundo, na semana passada, para pagar a fatura do cartão de crédito. Em maio, quando ele confessa ter exagerado nos gastos, incluindo o presente de Dia das Mães, a fatura chegou a R$ 450, bem acima do que ele esperava. ;O problema também é que o crédito está cada vez mais caro;, pondera. Os juros médios dos empréstimos bancários estão em 42% ao ano, o maior patamar em dois anos.

Do salário mensal de Santana; R$ 1,1 mil ;, quase 60% estão comprometidos com o pagamento da prestação do carro comprado há sete meses. Para não prejudicar tanto o padrão de consumo, ele não escapa do crédito, apesar de reconhecer que o ideal seria quitar as despesas apenas com a renda. ;Tento sempre pagar o máximo da fatura do cartão de crédito, mas, se não tenho condições, o jeito é arcar com o mínimo e ir levando do jeito que puder;, diz.

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