Tema de filme, câncer de tireoide tem 95% de cura

Tema de filme, câncer de tireoide tem 95% de cura

Mais de 95% dos pacientes com a doença que acomete a protagonista de A culpa é das estrelas são curados. Segundo especialistas, o filme e o best-seller têm um cenário muito sombrio sobre tumores na adolescência

Roberta Machado
postado em 08/06/2014 00:00
 (foto: Fox Film/Divulgação)
(foto: Fox Film/Divulgação)

Hazel Grace pode mesmo culpar os astros pelo seu destino dramático. A protagonista do filme A culpa é das estrelas, que estreou na última quinta-feira, sofre de um mal raro para a sua idade: um câncer de tireoide diagnosticado aos 13 anos. A doença, que acomete apenas uma em cada 1 milhão de crianças por ano, costuma ter um final feliz na maioria dos casos de todas as faixas etárias, mas, em alguns pacientes, o drama é similar ao da literatura. Se não curado, o carcinoma pode se espalhar para outras partes do corpo e causar até mesmo a morte.


O drama da adolescente doente que se apaixona por outro garoto em condição similar surgiu pela primeira vez em 2012, no best-seller homônimo de John Green, que, por sua vez, teria se inspirado em um caso real para criar a personagem. Mas, mesmo verossímil, o quadro de saúde ilustrado no romance é pouco comum. Tumores malignos de tireoide em crianças e adolescentes correspondem a menos de 3% de todos os cânceres na glândula e têm uma taxa de sobrevivência de 95%. As chances são melhores nos casos do tipo mais comum do tumor, o carcinoma papilar. Ele representa 70% dos casos e costuma ser resolvido com a retirada da glândula e dos nódulos, além do tratamento com iodo radioativo e hormônios.


O problema está nos raros quadros em que a doença se espalha pelo organismo. ;A maior parte dos casos papilíferos nos adultos é de baixo risco;, ensina Valéria Guimarães, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). ;Mas, quando é uma criança ou um adolescente, isso não é só para o câncer de tireoide, qualquer outro fica mais grave porque se trata de uma célula jovem que não deveria estar velha, multiplicando-se anomalamente;, explica. Nesses casos, é comum que a doença surja nos gânglios linfáticos, migre para os pulmões, para o sistema vascular e, em quadros mais graves, para os ossos.

Remédio irreal
Na narrativa fictícia, a garota descobre a doença no estágio mais fatal e passa por diversos tratamentos até acabar com uma colônia de tumores nos pulmões. Com os órgãos cheios de líquido, ela é forçada a andar com um tanque de oxigênio a tiracolo, e visitas dramáticas à emergência hospitalar são constantes. ;A não ser que seja operável, e às vezes são vários nódulos, vai se tratando paliativamente. Não é porque a pessoa tem metástase que ela vai morrer rápido, ela pode viver muitos anos;, explica Evanius Wiermann, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).
A esperança da protagonista de A culpa é das estrelas está em um remédio fictício chamado falanxifor, também inventado pelo autor. A droga é inspirada no remédio real trastuzumab, um anticorpo produzido por células geneticamente modificadas para se ligar a proteínas das células tumorais e causar a morte dos tumores.


A medicina já conta com medicamentos inibidores de atividade quinase intracelular contra cânceres de rim, de fígado e de tireoide, mas muitos ainda estão sendo estudados e nenhum deles promete a cura da doença: esse tipo de remédio é recomendado principalmente para prolongar a sobrevida do paciente em estado grave, sem chance de tentar outro tipo de terapia.


As pessoas que recorrem a esse tipo de tratamento podem ter complicações, como fadiga, alterações cardíacas e a síndrome mão-pé, como é conhecido um tipo de inchaço dolorido nas extremidades. ;Há um custo, não só financeiro, mas também de qualidade de vida;, ressalta Evanius. ;Quando o paciente está em situação incurável, a qualidade de vida é muito importante. Então, se a pessoa tem uma doença sem cura que cresce lentamente, mas não apresenta sintomas, a ideia de não tratar não é completamente absurda.;

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