O Rei versus o biógrafo

O Rei versus o biógrafo

Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia de Roberto Carlos, conta ao Correio o que o motivou a escrever outro livro, O réu e o rei

Diego Ponce de Leon
postado em 08/06/2014 00:00



Roberto Carlos parece protagonizar os mais acalorados episódios acerca das controversas biografias não autorizadas, que povoam a opinião pública desde o ano passado. Superado o desentendimento com Caetano Veloso e demais integrantes da associação Procure Saber (defensores ferrenhos do direito à privacidade e, portanto, contrários à liberação das biografias. Chico Buarque, Djavan e Paula Lavigne, entre eles), o cantor e compositor voltou aos debates, na última semana, por conta do lançamento de O réu e o rei, do jornalista baiano Paulo Cesar de Araújo.

O livro anterior de Araújo (justamente uma biografia não autorizada, Roberto Carlos em detalhes) se tornou um marco do conflito, que se arrasta há anos nos tribunais. O novo trabalho esmiúça o embate judicial entre o autor e Roberto, que resultou no recolhimento dos exemplares da biografia. ;A não ser em Portugal ;lá o livro foi editado ;, vendem, publicam, reproduzem em todos os lugares. Fazem o que querem com o meu trabalho. Eu é que não posso fazer nada;, desabafou o escritor, em entrevista exclusiva ao Correio.

Diferentemente do que se imagina, o novo título não apareceu por conta da discussão atual, que ganhou grande força nos últimos meses. ;Comecei esse livro há cinco anos, em 2009. Quisera eu conseguir escrever em tão pouco tempo. Eu não teria somente três títulos. Seriam 30, pelo menos.;

O público, desta vez, poderá conferir o conteúdo sem maiores dificuldades. O advogado de Roberto afirmou que o cantor não pedirá a proibição de O réu e o rei. Araújo, no entanto, ainda deve dar trabalho ao artista. Nesta conversa, o jornalista diz que novos livros virão. Ele aproveitou para abordar questões delicadas, como o vegetarianismo e o envolvimento de Roberto com ditaduras latinas. Por fim, traça um perturbado perfil psicológico do mais popular artista brasileiro.



O réu e o rei
De Paulo Cesar de Araújo. Companhia das Letras. Páginas: 528. Preço: R$40.



Ponto a ponto / Paulo Cesar de Araújo


Novo livro
A ideia desta nova obra partiu do público. Em 2007 e 2008, quando as dificuldades com a biografia vieram à tona, participei de vários eventos. Neles, as pessoas me perguntavam se eu não pensava em contar aquela história. Não a do Roberto, mas do imbróglio que surgiu por conta da biografia. Achei que era válido publicar o relato, ter o registro histórico.

Biografias
Estou otimista que a questão das biografias possa ser revertida. O que está acontecendo no Brasil é uma aberração. Vivemos em um estado democrático. Temos uma Constituição que garante liberdade de expressão. Essa anomalia atual não pode prosperar. Parece-me uma questão de tempo. O direito à informação há de prevalecer no ordenamento jurídico.

Autocensura
Nem no outro, nem nesse, eu me censurei. Te digo, sinceramente, que publiquei tudo que julguei necessário. Recebi resistência em relação a certos temas, mas não tirei nada. O livro sai, exatamente, como eu queria.

Advogados
Gostaria muito que ele (Roberto Carlos) lesse o livro. Ali ele poderia relembrar que a história dele é resultado de uma multidão de pessoas. Que ele nada seria se o povo não o tivesse abraçado. Isso iria iluminar a cabeça do Roberto Carlos. Porém, mais uma vez, parece que ele não lerá o livro. Ele pede um relatório para os advogados. Olha que situação! O artista delega alguém para afirmar se ele está ofendido ou não.

Prisão
Roberto Carlos trata a própria história como patrimônio dele, como se fosse um automóvel, um apartamento, uma propriedade particular. ;Sou o dono da minha história;, ele enfatiza sempre. Foi por conta dessa visão patrimonialista, mercantil, que ele pediu minha prisão. Ele acredita que, ao escrever o livro, eu teria invadido a propriedade dele.

Obsessão
Estamos falando de uma pessoa que sofre de transtorno obsessivo-compulsivo . Isso é fundamental para entender Roberto Carlos. As pessoas acreditam que a reação dele à biografia foi gerada por conta de um episódio, mas pode ter sido por conta da cor da capa, da fonte da letra. Talvez, ele tenha se incomodado com a palavra que termina a página 20. Essa história de que teria sido o episódio da perna é lenda. Ele próprio fala sobre isso. A questão é a obsessão. Ele precisa controlar tudo que acontece em torno de si.

Vegetarianismo
Ele nunca foi vegetariano. A questão não era essa. Roberto tem uma restrição alimentar no que diz respeito à carne vermelha. O problema é que ele sempre se mostrou sensível à causa animal. Ele fez uma canção às baleias! Protestou contra as touradas, contra a caça aos pombos. Aí ele vai para a televisão fazer propaganda de carne e endossa um genocídio em escala industrial? Isso só se explica pela visão comercial que ele tem mantido. Nos últimos anos, Roberto tem enfatizado a questão financeira, o comércio. Ele é mais empresário do que cantor, tanto é que não lança um álbum de inéditas desde 2003.

Ditadura
Roberto sempre preferiu manter boa relação com todos os poderes. Se era interessante para os negócios, ele topava. Na África do Sul, enquanto todos boicotavam o regime de apartheid e recusavam se apresentar, ele ia. Não por concordar com o regime, mas porque o cachê era bom. O mesmo com a história do Pinochet (polêmico vídeo no qual Roberto saúda o ditador chileno). Ele estava apenas cumprimentando o presidente que estava na plateia. Se fosse o Salvador Allende, ele teria feito o mesmo. Como aconteceu quando ele se apresentou na Argentina e encontra o exilado Juscelino Kubitschek. Diplomacia.

Ressentimentos
Não tenho ressentimentos. Te digo, do fundo do meu coração, não tenho problema nenhum. Minha relação com a música dele não mudou. Não acho que Detalhes se tornou uma música feia ou que As curvas da estrada de Santos deixou de ser aquela obra-prima porque ele me processou. Separo as coisas. Por isso, inclusive, volto a escrever sobre ele. E, certamente, voltarei a fazê-lo no futuro. Eu apenas lamento. E me defendo, quando necessário.

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