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Conversa de ninar

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 08/06/2014 00:00
A decisão do Banco Central de se despedir de 2014, ao suspender os aumentos da taxa de juro básica, associada à queda das intenções de voto nas três principais candidaturas presidenciais a apenas quatro meses da eleição, conforme a nova pesquisa do Datafolha, escancarou a insegurança que toma conta do país, inclusive (ou sobretudo) pela carência das ideias para o próximo quadriênio. O sentimento difuso combina receios sobre o que pode vir com expectativas de que, se há dúvidas, o melhor a fazer é esperar, consumir menos e não investir.

Os índices de confiança estão todos em baixa acentuada, como expôs a própria ata do Comitê de Política Monetária, Copom ; a alcunha da diretoria do BC quando se reúne para decidir a calibragem da Selic. E a fez de modo a não pairar dúvidas sobre o viés negativo que está a embicar a economia, justificando a parada da Selic, apesar de não haver sinal de que a inflação volte à meta de 4,5% antes de 2016. Tipo assim: ;primeira queda em oito meses; (apurada pelo IBGE) da produção manufatureira; confiança do setor de serviços (medida pela FGV) no ;menor patamar desde abril de 2009;; faturamento industrial com a ;maior queda mensal desde novembro de 2008; (CNI); confiança do comércio, conforme a FGV, no ;menor nível da série histórica;. A base de comparação é a mais recente, sem mudança de viés à vista.

Com níveis de confiança ;modestos;, diz o BC na ata do Copom, ;os efeitos das ações; sobre a inflação ;tendem a ser potencializados;. Isto deixa antever, segundo Fernando Montero, o economista-chefe da Tullett Prebon, que, ;com inflação lá em cima e o PIB possivelmente em queda neste trimestre, não sendo descabida retração no acumulado de quatro trimestres, o BC julgou melhor nada fazer, e também nada dizer;. E que o mercado ;leia a ata como quiser;, ele acrescenta.

O mercado financeiro fez a leitura de que o BC deve ter um mandato duplo: o formal, para controlar a inflação; outro oculto, voltado a preservar um crescimento mínimo do PIB, acionado à luz das pressões políticas da hora. O ministro Guido Mantega e o ex-presidente Lula, por exemplo, andam reclamando do ritmo do crédito ao consumo. ;Se a gente não tem inflação de demanda, por que a gente está barrando o crédito?;, Lula questionou na quinta-feira. O seu nexo é eleitoral.

Premissas arriscadas
As mensagens de Lula e de Mantega, que ora tenta erguer o PIB com projeções otimistas que nunca se cumprem, ora reconhece que a coisa está ficando brava (como ao tirar o último ônus contra a entrada de fundos externos, reduzindo de 12 para seis meses o prazo mínimo de permanência), colidem com as precauções do BC, cuja atuação está no limite. Sua torcida é para que o quanto a Selic já subiu (de 7,25% a 11% desde abril de 2013), o fim do choque dos alimentos e o dólar no patamar de R$ 2,20 até dezembro bastem para segurar a inflação. São premissas arriscadas, dependentes do imponderável, no caso dos preços agrícolas, ou difíceis de gerenciar, como na área cambial. A menor eficácia das ações do BC para suprir a liquidez sem sacar da reserva de divisas tende a inflar o dólar, segundo Sidnei Nehme, um veterano no tema, o que desafia o cenário de estabilidade cambial.

Quem intui o amargor
A percepção entre parcelas do eleitorado mais atento, em contraste com a do piso da pirâmidade de renda e das regiões Norte/Nordeste ; alvos das políticas sociais ;, é de que o próximo presidente, seja qual for, vai pisar no freio em 2015 e implantar medidas amargas. A intensidade do ajuste está condicionada ao grau de confiança que o futuro presidente, que pode ser Dilma em nova versão, obtiver dos mercados. Como ela e seus desafiantes Aécio Neves e Eduardo Campos escondem o jogo, não faltam suspeitas. Mas não generalizadas. ;O mercado de trabalho continua robusto e aquecido, para infelicidade de alguns;, disse a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ao comentar a queda do desemprego de 8% no primeiro trimestre de 2013 para 7,1% este ano, segundo o novo índice do IBGE, a Pnad Contínua.

Falta tocar o coração
A fala de Belchior deixa subentendido que para o modelo de Dilma o que falta é só o crescimento, como ironiza Montero. E de algo mais, diríamos, que toque o coração até do mercado (que deve tê-lo), já que por agora só há consenso sobre a receita do purgante. Qual?

Alta de imposto e moderação de gasto fiscal, deixando ainda algum desemprego como sequela do aumento de produtividade empresarial. É o preço pouco admitido para a indústria reaver sua competitividade (nem se diz para exportar, mas para defender seu quinhão no mercado interno sem depender de subsídios). Tecnologia e moeda fraca levam a isso, exigindo ações compensatórias que abram empregos em outras atividades. Mas disso os marqueireiros não deixam o cliente falar. Não por menos, voltou a subir a taxa de indecisos no Datafolha.

Festões de fim de era
Que não fossem os indicadores da economia a apontar a obstrução do caminho do crescimento, a cobertura dos eventos sociais ajuda a que se intua também o fim de épocas. Em tempos idos, bailes marcavam as transições. Hoje, são os festões (de casamento, aniversário etc.) promovidos pelo dinheiro novo e frequentados pelos políticos, mas raríssimos industriais e empreendedores sem medo de tempo ruim.

Sem juízo de valor, só um detalhe: a coincidência desses eventos e fortunas recentes, quase sempre de serviços, tais como a crônica de Tom Wolf em ;A Fogueira das Vaidades;, sobre os EUA da riqueza imensa dos yuppies. Ou Honoré de Balzac em ;A Comédia Humana;. Onde o poder se confraternizou com fortuna fácil e lobbies, havia cheiro de algo queimado no ar. Não só as ruas e as pesquisas sugerem a vontade da sociedade por transformação. Os festões e seus convidados também.



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