Eles andam tão desligados

Eles andam tão desligados

Seja em zonas rurais do Entorno, seja em áreas irregulares no Distrito Federal, quem vive sem energia elétrica já planeja o que fazer para não perder um jogo do Mundial. Último recurso, como há mais de meio século, é o radinho

JÉSSICA RAPHAELA E MAÍRA NUNES - Especial para o Correio
postado em 08/06/2014 00:00
 (foto: Fotos: André Violatti/Esp. CB/D.A Press - 27/5/14

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(foto: Fotos: André Violatti/Esp. CB/D.A Press - 27/5/14 )

Há 60 anos os jogos da Copa do Mundo são transmitidos pela televisão. O Mundial da Suíça, em 1954, foi o primeiro a expor o rosto dos craques para uma considerável parte do planeta. Quinze edições mais tarde, alguns torcedores brasileiros ainda não conseguem ver as partidas da Seleção pela tevê no conforto de casa. Famílias que vivem a 40km do gigantesco e imponente Mané Garrincha terão de apelar para o velho radinho de pilha.

De acordo com dados do Ministério de Minas e Energia, referentes a abril, cerca de 250 mil famílias no Brasil esperam atendimento do programa Luz para todos. Apesar de o DF não participar do programa do governo federal, por já ter o serviço universalizado, torcedores que moram em áreas irregulares não têm direito ao benefício e precisam se virar para acompanhar as partidas.

Não é exatamente simples. Cheron Tereza Pablo, moradora de uma invasão às margens da rodovia que une São Sebastião a Unaí (MG), reconhece o dilema. ;Não sei como a gente vai fazer;, diz a dona de casa de apenas 25 anos. ;Gostaria de ver os jogadores, mas não temos energia para a Copa. Talvez, a gente vá no bar de um amigo;, planeja a moça, que mora com o marido e dois enteados em um pequeno barraco em construção.

Apesar da expectativa em relação à Copa, esse é o menor dos problemas enfrentados por Cheron. No chão de terra batida, cercado por um barraco de alvenaria, há diversos aparelhos eletrônicos sem uso, inclusive duas televisões, com videogame e DVD. Fora de casa, virada para a rodovia, a geladeira leva sol o dia inteiro. ;Não conseguimos guardar comida, tomar banho quente, beber água gelada;, lamenta. E o destino não podia ser mais irônico com a família: o marido de Cheron é eletricista.

Próximo ao lote parcelado de forma ilegal, é fácil encontrar casas com antenas de televisão. A energia que ilumina as casas à noite vem de perigosas gambiarras. O motivo para o serviço não chegar à cidade é simples: a região não é regularizada. A Companhia Energética de Brasília (CEB) não pode instalar o serviço em regiões irregulares ou que não estejam passíveis de regularização. Diferentemente de Cheron, muitos moradores de São Sebastião deram um ;jeito; na falta de energia. Nas invasões da cidade, fios de alta tensão ficam expostos, sob risco de curto-circuito e incêndios.

Paixão às escuras

Um local onde esses ;gatos; ficam evidentes é no Morro da Cruz, também em São Sebastião. As pessoas que moram em recentes construções convivem com gambiarras instáveis. ;Quando a gente mudou para cá, há três meses, não tinha energia. Meu compadre que colocou;, conta Rosenira Oliveira dos Santos, 38 anos. A luz cai constantemente, o que causa preocupação à empregada doméstica apaixonada pela Copa do Mundo. ;A gente está na expectativa de assistir ao jogo. Se não der certo aqui, entra no carro e vai para a casa de alguém;, diz.

O clima do Mundial será intensificado com a decoração em verde e amarelo que ela planeja sapecar pela residência, alugada por R$ 250 ao mês. ;A gente ainda vai enfeitar a casa, comprar blusa. Se a energia não acabar, vou reunir as amigas aqui. A tevê é pequenininha, mas dá;, diz, empolgada por ver a atuação dos atacantes Fred e Hulk.

Enquanto Rosenira confia no improvável, Edmílson da Silva ainda procura um local para ver os jogos. Apelidado de Pernambuco, o trabalhador rural de 49 anos passou os últimos oito meses em um barraco sem energia elétrica na área rural de São Sebastião. ;Flamenguista doente;, como ele mesmo categoriza, Pernambuco ouve jogos no rádio a pilha e cozinha em fogão a lenha. À noite, ilumina com velas o barraco abafado, feito de madeira. O lote parcelado irregularmente também não pode receber o serviço da CEB. Mas nem mesmo os banhos gelados tomados ao ar livre desanimam o torcedor. ;Tenho irmãos em Ceilândia, São Sebastião e no Gama. Vou deixar meu radinho aqui e ir para a casa deles;, conta.

Para saber mais
Universalização até o fim do ano
Passados 10 anos desde a criação do programa Luz para todos, do Governo Federal, 242 mil famílias brasileiras ainda vivem sem energia elétrica. O último levantamento divulgado em abril pelo Ministério de Minas e Energia (MME) mostra que, dos 715 mil domicílios sem energia identificados no último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), de 2010, 473 mil foram atendidos. O problema é identificado, principalmente, em regiões rurais, onde as condições de acesso são complexas. Criada em 2003 para universalizar a eletricidade, a iniciativa foi baseada no Censo 2000, no qual constavam 2 milhões de famílias sem o serviço na zona rural. Durante a implementação do sistema, até janeiro de 2014, foram iluminadas as casas de 3.113.248 famílias ; 56% a mais que a estatística inicial. Segundo o Governo Federal, à medida que o programa avançava pelo interior do país, novas casas era ;descobertas;, e, por isso, o número cresceu.

"Vai vir um monte de turista para o país, gastaram bilhões em estádios, e a gente aqui, parado no tempo;
José Carlos Rezende, pecuarista

242 mil
Número de domicílios sem energia elétrica no Brasil


Sem solução aparente, Entorno só espera

Enquanto toda região regularizada do Distrito Federal conta com energia elétrica, algumas zonas rurais de Goiás aguardam o benefício. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no início deste ano, pelo menos 19,6 mil residências da região estavam sem luz. O Ministério de Minas e Energia (MME), no entanto, é bem mais otimista e calcula que, até abril, 7.014 famílias não tinham energia no estado.

Áreas do entorno ficam sem o abastecimento por dificuldades de acesso e limitação financeira da Companhia Energética de Goiás (Celg). Segundo a assessoria de imprensa do órgão, licitações não são finalizadas porque as empresas veem a dificuldade e perdem o interesse em fazer o serviço.

Zonas rurais de 208 municípios goianos passam pelo apuro, como Planaltina, Formosa e Cavalcante. Os prejudicados são os moradores que vivem à base de lampião. O pecuarista José Carlos Rezende vive em Luziânia sem televisão, geladeira e chuveiro elétrico. Da Copa do Mundo, fica s

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