Lá fora, cá dentro

Lá fora, cá dentro

affonsors@uol.com.br Affonso Romano de Sant%u2019'nna escreve quinzenalmente neste espaço
postado em 08/06/2014 00:00
Estávamos ali no Hotel Tivoli, em Lisboa, no jantar oficial do Prêmio Camões. Já havia sido anunciado o nome de Alberto da Costa e Silva como o escolhido de 2014. Estavam à mesa, entre outros, os membros do Juri : Mia Couto (Moçambique), José Eduardo Agualusa ( Angola), José Carlos Vasconcelos e Rita Marnoto (Portugal) e Antonio Carlos Secchi e este escriba (pelo Brasil). Os jornais, tvs e rádios espalharam a notícia.

Alberto da Costa e Silva é um caso raro de intelectual brasileiro que faz a ponte entre três continentes. Seu trabalho de historiador e ensaísta, recuperando nosso passado na África e em Portugal, é excepcional. Basta ler A enxada e a lança: África antes dos portugueses , As relações entre Brasil e a Africa negra, De 1822 à Primeira Guerra Mundial , A manilha e o Libanbo: a África e a escravidão de 1500 a 1700, Um rio chamado Atlântico , e Francisco Feliz de Sousa, mercador de escravos.

Como à minha frente estava o embaixador do Brasil em Portugal Mario Vilalva e ao meu lado o Secretário de Cultura de Portugal Jorge Barreto Xavier, era natural que conversássemos sobre projetos culturais que deveriam integrar Portugal, Brasil e África. Lembrei-me de alguns secretários de cultura de Portugal com quem tive contato em outras rodadas do Prêmio Camões nos anos 1990. Onde estariam? Que aconteceu com aqueles projetos que propunhamos?

Lembrei ao secretário Jorge Barreto que há uns 20 anos, numa reunião no Ministério da Cultura em Brasília, na presença do Secretário de Cultura de Portugal Manuel Carrilho, propuz 10 projetos, que foram desastradamente esquecidos pelas administrações que se seguiram à minha. No serviço público, é assim : a descontinuidade e a mediocridade vencem sempre. Teria que rever esses projetos e o relatório que deixei na Biblioteca Nacional e que foi censurado e cortado por quem me sucedeu. (Isso em plena democracia ).

A ideia básica era a necessária aproximação entre Brasil-Portugal-África. Programas conjuntos entre a bibliotecas e arquivos nacionais, publicação de uma ou mais revistas culturais que abrangesses os três continentes, encontros, feiras, bienais, enfim um intercâmbio econômico cultural. Ou seja, exatamente isto que Alberto da Costa e Silva faz em seus textos e isto que o incansável José Carlos Vasconcelos prega sempre no bravo Jornal de Letras ao defender a Palop (Países de língua portuguesa).

Eu havia ido a Moçambique onde, pela Biblioteca Nacional, ajudei a organizar a primeira feira do livro naquela país. Já havia estado com intelectuais dos demais países de fala portuguesa. E parecia urgente um projeto governamental que unisse nossas culturas e povos. Aliás, abro um espaço e dou um pequeno exemplo: ainda agora estava eu num restaurante no bairro de Alfama (Lisboa) e um caboverdiano sabendo-me brasileiro fez, com estardalhaço, uma declaração de amor ao Brasil. Amam tudo que é nosso gratuitamente, e nem nos damos conta de como isto é precioso.

Os chineses já descobriram a África, estão lá faturando. Os escritores portugueses e africanos já descobriram o Brasil e vêm lançar aqui seus livros e aqui têm público. Empresas brasileiras estão construindo rodovias e hidroelétrica no contimente africano. E o que temos feito na área cultural, no setor do livro junto deles e a Portugal?

Eu ia falando dessas coisas ao secretário Jorge Barreto Xavier e ao embaixador Mário Vilalva, lembrando que havíamos perdido 20 anos. Aliás, acho que perdemos 500 anos. O Brasil por ser grande demais e não conseguir resolver problemas internos, acaba se esquecendo do mundo. Por isso, os brasileiros se referem a ;lá fora; quando falam do estrangeiro.

Acontece que o ;lá fora; e o ;cá dentro; fazem parte da mesma moeda. E é isso que o Alberto retoma com sua obra.


;O Brasil, por ser grande demais e não conseguir resolver problemas internos, acaba se esquecendo do mundo;

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