As bandeiras da baiana

As bandeiras da baiana

postado em 08/06/2014 00:00



Daniela Mercury - Há pouco mais de um ano, Daniela Mercury se colocou no centro de um debate importante para o avanço dos direitos civis na sociedade brasileira. A exposição do casamento com a jornalista Malu Verçosa foi apenas mais um grito de liberdade entoado pelos cantos das cidades. Daniela sempre usou a influência que tem na música para levantar bandeiras e interferir em questões de militância étnica, política, cultural e de gênero. O início da relação originou o livro Daniela & Malu ; Uma história de amor. Hoje, a cantora, no auge dos 48 anos, viaja o mundo não mais apenas para difundir os ideais defendidos em suas músicas marcantes e de raiz negra. Daniela Mercury tem tomado para si a responsabilidade de personificar a identidade de uma brasileira livre em todas as formas de ser.

Você é uma entusiasta de Brasília.O que tanto a liga à cidade?
Brasília foi a primeira grande cidade que eu conheci depois de Salvador. É um lugar que parece obra de arte. Essa é minha relação afetiva. É como eu vejo Brasília, como eu sinto e me ligo a tudo daqui. A filha de JK chegou para mim em um dos aniversários da cidade e disse uma frase que foi muito emblemática: ;Você é desbravadora e tem esse espírito positivo brasileiro igual ao meu pai. Uma mulher que acredita no Brasil e tem esse sentimento de pertencimento que foi o que significou Brasília;. Quem veio para cá foram os corajosos. Poucas pessoas se deslocaram de seus estados e fizeram isso por um sonho de país, de prosperidade. Hoje, isso nos faz falta.

Como assim?
Ainda se discutem questões básicas de infraestrutura, educação, mas precisamos recuperar quem somos nós, o significado do Brasil para nós mesmos. Já sabemos que é o país do futebol. Tudo bem, pode reiterar, mas em relação a Brasília e a esse sonho que JK teve há 54 anos é que eu acho que o brasileiro está precisando lembrar e pensar o que é que ele quer ser para o mundo, o que ele significa e como é que ele quer construir essa perspectiva de significado. Eu digo muito que a gente perde um pouco do sentido da vida aqui porque se preocupa demais com crises, com momentos de prosperidade, mas esses são todos ciclos curtos. Por quê? Porque a gente não tem projetos a longo prazo para nós mesmos.

Então há um problema de identidade cultural? O que você acha que interfere negativamente nesse ponto?
O brasileiro se preocupa muito pouco com o que ele é, com a questão de identidade. O país se protege muito pouco das invasões culturais. A gente vai sendo impregnado pela cultura de outros países. Por um lado quer se apropriar de muitas coisas ; e essa troca cultural é muito enriquecedora. Por outro, a gente deixa entrar muita coisa de fora. Na França, eles não deixam entrar nenhum queijo para competir com o produto que é uma identidade francesa. Então eu pergunto: o que é que o Brasil faz para se proteger? O que a gente faz para reiterar o que somos? Quem somos? Qual é a nossa identidade?

Esse questionamento é feito por você em relação à Copa do Mundo. E uma de suas críticas aponta para a desvalorização da música brasileira no evento deste ano. Como você avalia esse cenário?
Eu sou uma apaixonada pelo Brasil e várias vezes tive a opção de cantar em inglês. Fiz versões em espanhol das minhas músicas e não sou contra isso. Acho que é a forma natural de as letras serem compreendidas no mundo. A Fifa tem o costume de usar o inglês como língua principal da Copa do Mundo, mas, no caso do Brasil, em que a música é tão importante quanto o futebol, eu acho que eles poderiam ter feito de maneira diferente. Eu torci muito para que a FIFA realmente escolhesse uma música brasileira de origem, ainda que fosse colocada para o inglês. Uma música produzida no Brasil, com ritmos brasileiros, porque nós temos Sérgio Mendes, grandes produtores e artistas que são conhecidos internacionalmente.

Você tem grande presença internacional. Mas como é ser cantora no Brasil? Quais condições os artistas brasileiros como você encontram para manter o próprio trabalho?
Eu vejo os artistas brasileiros lutando como empresários comuns à mercê dos seus próprios riscos. Nós somos empresários que trabalhamos com riscos de 80% em uma indústria em que somos ícones nacionais. Eu, por exemplo, só em quatro apresentações no carnaval deste ano, signifiquei R$ 50 milhões de mídia para o Estado, para a minha cidade. Isso foi o que eu dei de retorno em quatro dias. Imagine o que eu não dei de retorno para a minha cidade e para o meu país sendo a artista internacional que eu sou durante esses mais de 20 anos de carreira, e com as dimensões que têm a minha carreira. Isso é o que nós contribuímos em termos de identidade. E como somos vistos? Como empresários comuns.

Em 24 anos de carreira solo, você levanta bandeiras, valoriza as culturas locais ; principalmente a afro-brasileira. Qual você considera ser seu legado para a música?
Eu firmei o samba-reggae como um ritmo, uma síntese musical brasileira e me tornei rainha do gênero no mundo. Fiz o mundo conhecer um outro samba e o Brasil se fortalecer porque, no momento em que minha música se fortalece fora do país, eu a trago de volta e os compositores se sentem orgulhosos. Testei a minha capacidade de dialogar com o mundo e ser respeitada. Eu não tenho uma crítica negativa de nenhum grande veículo de comunicação do mundo e isso é uma coisa que me orgulha profundamente. Fiz os melhores festivais do mundo, as melhores casas de show e meus músicos sempre voltam realimentados de respeito, dignidade e reconhecimento. O meu legado é esse: é fazer o Brasil mais forte lá fora.

Você é um dos expoentes do axé.O gênero ainda é muito criticado negativamente. Qual é o motivo?
É porque as pessoas não conhecem. Acho que o Brasil é muito grande e é difícil compreendê-lo. A gente tem que acreditar na gente, sabe? Às vezes, a gente é mais estrangeiro no Brasil do que fora. O axé é uma variação da MPB. A gente tem as bases de frevo, de samba, de galopes de são-joão, xote, xaxado, baião; É realmente uma terra riquíssima de variantes rítmicas originais da MPB e que nós, enquanto nova geração, engolimos tudo e misturamos com rock, funk, reggae e fizemos isso, desculpe, com uma excelência que ninguém no mundo pode contestar. Então eu sinto muito que existam críticos de música que não compreendam tudo aquilo que foi feito até hoje. A gente tem um grupo de músicos, intérpretes e percussionistas que ganharam um protagonismo nesse gênero, além de cantores que usam as rítmicas percussivas para imprimir essa musicalidade na própria voz.

Com o lançamento do livro voc

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