Petardos de um peladeiro

Petardos de um peladeiro

O artista plástico Cildo Meireles era um craque do futebol da poeira nos tempos inaugurais de Brasília. Ele afirma que o maior ganho da Copa será a implosão da arrogância dos donos da bola

Severino Francisco
postado em 08/06/2014 00:00




Severino Francisco

Cildo Meireles, um dos artistas brasileiros de maior renome internacional, é um peladeiro de primeira linha. Ele jogava de meio-armador no Bac (Brasília Atlético Clube) e, quando tinha 16 anos, chegou a ser convidado por olheiros do Cruzeiro e do Flamengo para treinar em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro: ;Eu disputava os jogos estudantis e, naquela época, já existiam olheiros;, conta Cildo.

Recusou as propostas, pois já havia começado a namorar, a beber e a desenhar: ;Gostava era de jogar, treinar não era comigo, não tinha o perfil para o futebol profissional. Eu sou um peladeiro;. O futebol brasileiro perdeu um grande meia-armador, mas, em compensação, a arte nacional ganhou um artista inquieto, político e polêmico.

Ele inventou, entre outras, a instalação Desvio vermelho, a nota de 1 cruzeiro em que inscreveu a pergunta: ;Onde está Herzog; (o jornalista desaparecido durante o regime militar).

Hoje, aos 66 anos, Cildo continua a ser um praticante do futebol, mas pela tevê: ;Antigamente, eu via três jogos por dia. Mas, depois que o futebol-força passou a dominar, os jogos ficaram meio chatos; , conta o artista, que conversou com o Correio, especialmente sobre futebol, durante a passagem pela cidade para inaugurar a exposição A experiência da arte ; Arte para crianças, em cartaz no CCBB.

Cildo só utilizou o futebol, de maneira explícita, em duas obras: na pintura Campos de jogo e na instalação Glove trotter, na qual usou as bolas da sua coleção e as cobriu com uma fina malha de aço. Ele imaginou alguém atirando uma rede e pescando novos mundos. No entanto, as suas instalações, quase sempre, são povoadas por uma infinidade de esferas, evocação talvez inconsciente do amor de peladeiro ao futebol.

Mas Cildo permanece um observador do que acontece no mundo do futebol. Não acredita que a Seleção Brasileira tenha condições de ganhar a Copa: ;A Seleção começou a treinar há uma semana, existem times mais fortes e mais preparados.;

Cildo apoia as manifestações de protestos contra os gastos delirantes na construção dos estádios de futebol. ;Claro que é uma loucura. a Fifa tomou conta do futebol feminino, do masculino e do futebol de salão. Daqui a pouco, eles vão querer ser os donos das peladas de crianças nas calçadas;.

O jogo inaugural da Copa das Confederações em Brasília, Brasil x Japão, é simbólico, para Cildo: ;A presidente Dilma quis fazer um discurso inadequado para um jogo de futebol. Aí, o Blatter tomou o microfone da Dilma, de uma maneira extremamente deseducada, para dar um pito na torcida. Só um otário que nunca deu um chute em uma bola faria uma bobagem como essa em um estádio de futebol.;

Para Cildo, a grande vitória não é o Brasil levantar o hexacampeonato. O ganho deve ser de consciência: ;A grande vitória é conseguir uma mobilização para frear essa arrogância da Fifa, que se espelha no governo brasileiro. Essa gente nunca deu um chute em uma bola, só pensa em dinheiro. Temos de montar esse esquema cretino;.




;A grande vitória será de consciência, se a gente conseguir frear a arrogância da Fifa ;
Cildo Meireles, artista




Evocações de um brasilianoCildo Mirelles é leitor apaixonado das crônicas de futebol de Nelson Rodrigues e torce pelo Fluminense há 40 mil anos antes do Paraíso. Morou em Brasília dos 7 anos 19 anos numa época em que a cidade vivia envolvida pela poeira e pela utopia dos tempos inaugurais: ;A sensação que a gente tinha não era de estar construindo uma cidade, mas, sim, de estar construindo uma catedral!”, evoca Cildo. Ele estudou no célebre colégio Ciem, escola experimental do ensino médio coordenada pela Universidade de Brasília.

Mas a influência crucial veio com um curso coordenado pelo pintor Félix Alejandro Barrenechea, que o estimulou a fazer desenhos inspirados em esculturas e máscaras africanas. Os anos de formação foram muito importantes em Brasília, mas Cildo não sabe dizer até que ponto eles teriam sido a base para a criação do movimento de arte conceitual no Brasil, do qual ele é o representante mais ilustre;Existe uma simultaneidade, as coisas acontecem em vários lugares ao mesmo tempo;.

Com exceção dos tempos do regime militar, Cildo tem boas lembranças da Brasília: ;A gente via o cascalho à noite e no outro dia, as ruas estavam asfaltadas. Brasília tem uma Atlântida submergida. É a Vila Amaury, onde foi construído o lago, eu joguei muita bola por lá;.

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