Dores da inflação

Dores da inflação

postado em 16/06/2014 00:00

O videogame comprado para os filhos é o item mais recente incorporado à casa da vendedora autônoma Lídia Marques Gomes, 34 anos, moradora da Estrutural. Não faltam ali móveis e eletrodomésticos. Ela pretendia renová-los, mas esbarrou no descompasso entre a renda de R$ 1.400 e a escalada dos preços. ;Trocar os bens de casa, na situação atual, está impossível. Tenho medo de que a alta dos preços saia do controle, como há duas décadas;, diz.

O temor de Lídia é justificável, afirma o economista Cláudio Porto, presidente da Consultoria Macroplan. ;A inflação no patamar em que está, próxima de 6,5%, corrói boa parte da renda dos brasileiros. Não bastasse isso, a maioria deles chegou ao limite do endividamento;, diz. Ele explica que o país já esgotou os dois ciclos de aumento de consumo. O primeiro ocorreu a partir de 2004, com a expansão do emprego e a eliminação da capacidade ociosa da indústria. A partir de 2008, o ganho veio por meio da elevação do crédito. ;Hoje, a expansão dos empréstimos se dá apenas pelos bancos públicos. E as pessoas estão tomando dinheiro para pagar o que devem às instituições privadas;, emenda.

Na avaliação de Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), depois de sorverem os benefícios da estabilidade econômica, dificilmente os brasileiros vão aceitar de volta a alta do custo de vida. Para justificar os males da inflação, ele menciona Elias Canetti, escritor búlgaro que retratou as relações entre a cultura e a carestia na Alemanha da década de 1920, processo que resultou na Segunda Guerra Mundial. ;As pessoas sentiam a desvalorização dos bens como uma perda corporal;, relata.

Romano recorre ao outro autor, Maquiavel, para explicar o problema. ;Para ele, o governo precisava estabelecer constantemente o equilíbrio entre o medo e a esperança. A inflação faz as pessoas pensarem que todos os bens podem ir embora. Isso cria uma situação ruim não só para a presidente Dilma Rousseff, mas para o Estado;, aponta.

Para o soldador Lisandro de Araújo, 28 anos, que estudou até a 5; série, não há a menor hipótese de ver a sua vida regredir seja pela resistência da inflação, seja pelo descaso do governo. ;O que eu quero é melhorar, não perder o pouco que conquistei;, diz. Ele ressalta que, se pudesse, trocaria sua moto por um carro. ;Isso só acontecerá se as coisas continuarem melhorando, não piorando.;

Morador de Ceilândia, Lisandro gasta R$ 500 com aluguel pelos três cômodos que divide com a mulher, Maria de Lourdes, 29, e o enteado, João, 5. Sobra pouco do salário de R$ 1.400. Com as horas extras, a renda mensal já chegou a R$ 1.800. Mas, nos últimos meses, elas sumiram. (PSP e RC)

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