A última gota

A última gota

MALU NUNES Engenheira florestal, é diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza
postado em 16/06/2014 00:00




A crise no Sistema Cantareira, que abastece 9,86 milhões de pessoas na Grande São Paulo e no interior, é um exemplo concreto de que o abastecimento de água pode ficar comprometido também em outras cidades do Brasil. Ainda que tenhamos uma visão otimista, os últimos episódios de seca no Sudeste e no Sul mostram claramente que há urgência na implantação de ações de conservação para a manutenção dos recursos hídricos no país.

De acordo com o Atlas do Brasil de abastecimento urbano de água, produzido pela Agência Nacional de Águas (ANA), há quatro anos, grande parte dos sistemas produtores instalados no país estava no limite máximo de sua capacidade operacional. Somente a Região Sudeste representava 51% da capacidade instalada de produção de água no país. Atualmente, as duas maiores regiões metropolitanas do Sudeste ; Rio de Janeiro e São Paulo ; têm o abastecimento garantido porque é realizada a transferência de grandes vazões de mananciais localizados em bacias hidrográficas próximas. São duas fontes que começam a ficar saturadas porque servem a milhares de consumidores.

Não podemos credenciar, porém, os motivos para a crise de abastecimento somente ao consumo excessivo e ao mau uso da água por parte da população. A questão é mais complexa: vai desde a falta de políticas públicas que incentivem a proteção dos mananciais ao desmatamento de áreas naturais, o qual altera o ciclo da água e a variabilidade de chuvas nas regiões em que antes predominavam.

As áreas naturais possuem grande importância na regulação dos recursos hídricos. Sem elas, a água não realiza o seu ciclo natural, que inclui a evaporação, formação das nuvens e das chuvas nas cabeceiras dos rios que alimentam as bacias hidrográficas do país, causando desequilíbrio.

É essa situação que acontece no caso do Sistema Cantareira, considerado um dos maiores sistemas produtores de água do mundo. As chuvas têm caído pouco, mesmo no período das cheias que terminou em março, nas cabeceiras dos rios Jacareí, Jaguari, Cachoeira de Piracaia, Atibainha e Juqueri que formam as seis represas do sistema. Os índices pluviométricos abaixo da média histórica reduziram os fluxos de água nos rios, de modo que os níveis de suas represas começaram a baixar rapidamente. A redução da disponibilidade hídrica resultou na crise de abastecimento à população.

E agora, o que fazer diante dessa grave situação? Os governos federal, estaduais e municipais precisam buscar mecanismos para melhorar a gestão da água e garantir a segurança hídrica. Esse conceito representa o direito da população de ter acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente para garantir a sua subsistência, bem-estar e o desenvolvimento socioeconômico do país.

No Brasil, faz-se necessária, ainda, a construção de uma forte aliança entre os diversos setores da sociedade ; iniciativa privada, organizações não governamentais, população e poder público ; como parte de um esforço global para proteção dos recursos naturais. Proteção que passa pela criação e implementação de unidades de conservação, primordiais para garantir a conservação dos recursos naturais e dos serviços ambientais que essas áreas proporcionam, entre eles a produção de água em qualidade e quantidade adequadas.

É fundamental proteger as matas ciliares e as nascentes dos rios também em propriedades rurais, evitando a poluição e o assoreamento e assegurando margens arborizadas, de modo que a água infiltre lentamente o solo e possa cumprir o seu ciclo, de maneira regular. Nesse contexto, é importante a manutenção de reservas legais e das áreas de proteção permanente (APPs), com a função ambiental de conservar os recursos hídricos e a manutenção dos processos ecológicos.

Está mais do que na hora de todos os setores conscientizarem-se de que o problema de escassez da água não é somente de São Paulo ; é hoje o mais grave. Caso contrário, a nossa desatenção pode ser a gota d;água. O desafio consiste em como garantir o abastecimento às grandes cidades brasileiras nos próximos anos, uma vez que é previsto crescimento populacional e, consequentemente, aumento das demandas de consumo.

São necessários investimentos urgentes para a adequação dos sistemas produtores de água, sobretudo no Sudeste, e planejamento para a otimização de uso das fontes hídricas. Além disso, a proteção de áreas naturais é condição sine qua non, pois a qualidade e a quantidade de água produzida pela natureza dependem da manutenção da vegetação nativa.

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