Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 16/06/2014 00:00

Sangue bom
Assisti na tevê a uma reportagem sobre a Copa de 1970, levantada pela Seleção Brasileira, e lembrei-me de Gérson, o chamado Canhotinha de Ouro. Por uma ironia do destino, ele ficou marcado como encarnação da esperteza, depois de participar de uma infeliz propaganda em que afirmava: ;Eu gosto de levar vantagem em tudo, certo?;. Virou a malfadada Lei Gérson, a do atropelamento dos limites éticos para vencer a qualquer preço. Mas a verdadeira Lei Gérson é a do caráter. Além de ter sido um dos mais brilhantes armadores da história do futebol brasileiro e mundial, ele é uma pessoa de rara integridade.

Gérson estava jogando pelo Botafogo e teve uma discussão com o atacante Quarentinha, que insistia em chutar de longa distância, sem sucesso. No estilo irritado, nervoso e impaciente, Gérson esbravejou, gesticulando e argumentando pelos cotovelos que, daquele jeito, o colega arremataria 20 vezes e só acertaria meio chute.

Quarentinha era baixinho, mas marrento, não gostou e replicou rispidamente. Como todos vocês sabem, ninguém se trata em um campo de futebol com termos do gênero: ;Por fineza, poderia calibrar a pontaria de sua chuteira?;. Ou: ;Por obséquio, será que você poderia abster-se de chupar a hemoglobina do time?;. Logo, a conversa esquentou e os dois passaram a trocar palavras que costumam ser representadas nas histórias em quadrinhos por asteriscos, relâmpagos, estrelas, cobras, lagartos e outros bichos. O juiz estava em cima do lance e expulsou Quarentinha.

Contudo, o pior é que, além de expulso, o atacante pegou uma supensão de três partidas e o jogo seguinte era um clássico contra o Flamengo. Gerson foi convocado pela diretoria do Botafogo para limpar a barra de Quarentinha no tribunal esportivo e o meritíssimo interrogou o Canhotinha sobre a razão de tanto desrespeito com um companheiro em campo. Gerson respondeu com uma pergunta: ;O senhor já jogou futebol alguma vez na vida?; O juiz devolveu que tinha disputado umas peladas nos tempos de moleque. Gérson emendou: ;O senhor levava um dicionário debaixo do braço para dizer palavras bonitas? Eu também não, o que vem eu digo, não quero saber;. O magistrado absolveu Quarentinha.

Gérson foi um dos jogadores que naufragaram no vexame do Brasil durante da Copa de 1966, na Inglaterra. Diziam que não tinha sangue. Mas na Copa de 1970, ele deu passes de 40 ou 50 metros, que só parecem possíveis nos joguinhos de videogame, com a bola girando na estratosfera e caindo caprichosamente no peito de Pelé ou Jairzinho, na cara do gol. Foi um leão em campo; quando precisava, dava um tremendo bico para a lateral, apesar de toda a categoria.

Por isso, depois de a Seleção Brasileira sagrar-se campeão do mundo, Nelson Rodrigues resolveu dar um interurbano para um especialista em sangue, na Transilvânia, o Conde Drácula, em busca de uma opinião abalizada. O Conde Drácula experimentou o sangue de Gérson, lambeu os beiços de satisfação, se deteve por alguns segundos no exame e deu o veredito categórico, com toda a autoridade no assunto: ;Sangue bom, do puro, do legítimo, do escocês;.

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