Entrevista / BORA MILUTINOVIC

Entrevista / BORA MILUTINOVIC

Perdido na noite antes de voltar a Copacabana, o técnico de cinco seleções diferentes em Copas e comentarista de rádio mexicana esbanja bom humor. Para ele, Brasil tem tudo a seu favor no Mundial

CASSIO ZIRPOLI MARCOS PAULO LIMA Enviados especiais
postado em 16/06/2014 00:00
 (foto: Fadi Al-Assaad/Reuters - 12/12/13)
(foto: Fadi Al-Assaad/Reuters - 12/12/13)

Treinador globalizado


Rio de Janeiro ; Aos 70 anos, o técnico Bora Milutinovic não tem vergonha de dizer: ;Não gosto de praia, não sei nadar;. O sérvio teme as águas agitadas do Rio de Janeiro, mas não abre mão do paraíso. Hospedado em Copacabana, estava desorientado na saída do Centro de Imprensa do Maracanã, às 23h de sábado. ;Como vou embora para Copacabana?; Depois de ouvir as dicas, caminhou até a rua mais próxima e foi de táxi. Antes, treinador presente em cinco Copas seguidas ; sempre treinando uma seleção diferente ;, atendeu gentilmente ao Correio. Consultor do Comitê Organizador da Copa de 2022, no Qatar, evitou comentar a crise envolvendo a vitória do país em que mora para receber o torneio da Fifa. Credenciado como comentarista de uma rádio mexicana, Bora falou de tudo um pouco na entrevista a seguir. Bem-humorado, avisou antes da conversa que não falava português e responderia em espanhol. Surpreendentemente, o espanhol dele é muito mais parecido com a língua de Camões.


O senhor é consultor do Comitê Organizador Local da Copa de 2022, no Qatar. Qual é a sua opinião sobre a crise que pode até tirar o Mundial de lá?
Estão falando muitas coisas, mas penso que as condições para a prática do futebol no Qatar são perfeitas. Há hotéis de primeira categoria para os torcedores. Além disso, eles podem ver duas partidas por dia. Os estádios são muito próximos, o país é pequeno.

Qual é a sua opinião sobre a Seleção Brasileira?

A Seleção Brasileira joga em casa, tem uma torcida extraordinária, que apoiou o time na estreia, jogadores que atuam em clubes internacionais de alto nível e dois treinadores campeões do mundo (Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari). É quase tudo perfeito, só falta ganhar.

O que acha do Neymar?
É um grande talento. Estou seguro de que terá uma carreira exemplar.

Em quem o senhor apostaria para enfrentar o Brasil na final?
Não disse que o Brasil é o favorito (risos). A minha favorita é a Espanha. Há possibilidade de se classificar. É muito cedo para descartá-la. Mas estou também estou muito contente com a Costa Rica e o México, e torço para que Nigéria, Honduras e Estados Unidos me deem alegria (risos, citando as seleções que estão na Copa e foram dirigidas por ele).

O técnico da Bósnia e Herzegóvina, Safet Susic, disse antes da partida contra a Argentina que Lionel Messi é o melhor da história. Concorda?
Também sou um dos que dizem que Messi é grandíssimo. Safet Susic também era um craque, um dos maiores de todos os tempos da Iugoslávia.

O que você acha da seleção da Bósnia e Herzegóvina, mais uma da ex-Iugoslávia?
Nasci a 200m da Bósnia. É sério. É só um rio que separava o lugar. A Bósnia era do mesmo país, do mesmo coração, por hora separado, mas com o mesmo sentimento. Sobre o time, tem um atacante muito bom (Dzeko) e jogadores que jogam fora do país.


Petkovic é um injustiçado pela Iugoslávia e, depois, pela Sérvia?
Um sérvio triunfando no Brasil é sensacional. O nome dele está na calçada da fama do Maracanã, isso é incrível. Mas, para atuar na seleção, você deve estar jogando próximo. É difícil o treinador vê-lo, as informações sobre o jogador são mais difíceis.

Qual foi a sua campanha inesquecível no Mundial?
A única coisa que lamento na Copa é ter jogado três vezes contra o Brasil. É sério! Com a Costa Rica, perdemos com um gol contra (na verdade, o gol foi de Muller). Em 1990, perdemos com um gol de Bebeto. Em 2002, perdemos para um time com Roberto Carlos e Ronaldo. Sempre. Mas também sou muito feliz de estar aqui no Rio, na terra do futebol mais importante do mundo.

Ainda há tempo de superar Parreira, que também treinou cinco seleções em Copas?
Respeito Parreira muitíssimo. É um treinador vencedor. Eu nunca fui atrás de números para ser ou não o recordista. Penso no destino. Deus me deu o destino de disputar cinco Copas do Mundo. A história ainda não acabou. Estou aqui.

Como é trabalhar no Qatar?
Quando era treinador, me perguntavam, por exemplo, em que temperatura eu queria jogar e eu pedia 23 graus. Um país que tem dirigentes com essa visão é muito feliz.

Como seria o time da Iugoslávia, hoje, caso o país estivesse unido?
Asseguro que o time não seria unido, porque esse é o grande problema (gargalhada geral). Temos talento, sim. Como seria, não se sabe, mas é uma lástima que isso não ocorra. Mas que bom que neste Mundial temos duas equipes (Croácia e Bósnia e Herzegóvina).

Qual é o seu time aqui no Brasil?
Desde criança, chama a minha atenção o Flu-Fla. Depois, nasceu o Pelé. Sabia que eu joguei contra o Pelé? É verdade. Empatamos por 1 x 1 em Strassburg. Sabe quem marcou o Pelé? Não importa, o Pelé era eu (risos). As equipes mais famosas são as que têm os jogadores mais famosos. Foi assim na época do Pelé, depois do São Paulo, do Grêmio, do Corinthians.

A decisão será aqui no Maracanã, em 13 de julho. Quem serão os finalistas?
Espero que alguma seleção que admiro (risos). Mas, falando sério, prefiro guardar isso para mim. Vocês acreditaram no que viram, a vitória da Costa Rica sobre o Uruguai? E vocês (brasileiros) estão felizes, sabia? Não vão jogar a final contra o Uruguai.


A Espanha é a sua favorita. A Argentina é a outra?
A Argentina tem jogadores excepcionais. Quando estão em um bom dia são muitos difíceis.

O bom de uma Copa do Mundo no Brasil é a oportunidade de ir à praia?
Não gosto de praia, não sei nadar (risos). Na verdade, é sempre bom que a seleção da casa chegue à final. O povo brasileiro precisa de alguma coisa positiva.


"O Brasil joga em casa, tem uma torcida extraordinária, jogadores que atuam em clubes de alto nível e dois treinadores campeões do mundo. É quase tudo perfeito, só falta ganhar;


"Deus me deu o destino de disputar cinco Copas do Mundo. A história ainda não acabou. Estou aqui;


Quem é ele

Velibor Obrad Milutinovic
  • Nascimento: 7/9/1944
  • Local: Bajina Basta, Iugoslávia
  • Posição nos tempos de jogador: volante

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