É hora de recompor-se com os EUA

É hora de recompor-se com os EUA

postado em 18/06/2014 00:00

O Brasil tem, desde ontem, a chance de estabelecer novo padrão de relacionamento comercial com seu mais tradicional parceiro, os Estados Unidos. Desde setembro, quando a presidente Dilma Rousseff cancelou uma visita a Washington, agendada para 23 de outubro, as relações de troca se mantiveram, mas ficaram congeladas as conversações em busca de avanços.

Não foi um cancelamento qualquer. A agenda previa uma visita de Estado de alto nível. Muito além das homenagens de praxe, esse tipo de recepção pelo governo norte-americano abre portas para tratar diretamente com o presidente da República de questões de interesses comercial e diplomático do visitante.

O motivo do cancelamento também não foi comum. Reportagens na mídia internacional revelaram que a Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, sigla em inglês) espionou ligações telefônicas de Dilma Rousseff e de executivos da Petrobras. Não houve mais clima para tapinhas nas costas, e o governo brasileiro acertou em criar constrangimento para a Casa Branca, agravado pela revelação de que outros chefes de Estado também foram espionados.

O governo brasileiro foi dos que mais resistiram às investidas norte-americanas para recompor as relações entre os dois países. Fez bem. O Brasil precisa cobrar caro sua volta à mesa das negociações, que entre a primeira e a sétima economia do mundo são inevitáveis. Além disso, como líder da América do Sul, o Brasil tem de dar valor ao fato de que precisa ser ouvido quando qualquer potência ou bloco de países pretende avançar em acordos na região.

E o governo de Barack Obama não tem mais como esconder sua omissão em relação ao subcontinente. Por isso mesmo, cabia a ele dar o passo mais firme e claro para a superação do mal-estar da espionagem.

É nesse contexto que a Casa Branca despachou para o Brasil seu vice-presidente, Joe Biden. Ele foi recebido pela presidente em Brasília e saiu do encontro garantindo que a reunião foi produtiva, pois os EUA teriam reforçado as garantias de que o episódio da espionagem não se repetirá.

Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que tal promessa será integralmente cumprida, mas o gesto precisa ser aceito como chave para abrir um período de reagenda das conversas que interessam ao Brasil. E elas não são poucas e precisam ser tocadas logo.

O país tem assistido à perda de brilho em seus negócios com o mundo nos últimos anos. A dependência da exportação de commodities minerais e agropecuárias para a China e outros emergentes tem se revelado temerária, já que são mercadorias de baixo valor vendidas em mercados voláteis.

É hora de conseguir espaço para nossas exportações de manufaturados para o maior mercado do mundo, com o qual já tivemos superavit e, hoje, temos deficit, que pode chegar a US$ 8 bilhões este ano. Os EUA serão os primeiros a deixar a crise de 2008/2009 para trás e estão em busca de parcerias que compensem os avanços comerciais da China. Nossa diplomacia é mais do que apta a tirar vantagem dessa disputa. Basta que se veja livre de vieses ideológicos e improdutivos, que só atrapalham.

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