Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

postado em 18/06/2014 00:00
;Uma porcaria;

Começo do segundo tempo. Desço do metrô na Estação da Rodoviária e pergunto, ansiosa, para uma funcionária como está o jogo: ;Uma porcaria, zero a zero;, ela responde, com uma mistura de desilusão e irritação. Fiz bem em pegar o metrô para ir à Fan Fest. Vi brasileiros ainda entusiasmados, colombianos aos montes. E pude apreciar os sobrados das QND, área nobre de Taguatinga.

Duas horas antes do começo do jogo, só duas das oito bilheterias da estação do metrô na Rodoviária estavam funcionando.


A Avenida Comercial Norte, de Taguatinga, é um dos maiores centros comerciais do Distrito Federal, senão o maior. E tem um dos trânsitos mais confusos. Com as lojas fechadas e sem viv;alma e nenhum carro, ela revela o caos arquitetônico de suas construções. Tudo muito feio, tudo muito improvisado. Uma profusão caótica de painéis, calçadas maltratadas, muita pichação. Não é uma avenida, é uma terra sem dono e sem lei. Arqueologia viva da falta de urbanização e de um plano diretor que regulamente a ocupação.

Cheguei à Fan Fest vinte minutos antes do começo do jogo. Estava semivazia, mas por certo iria atrair muito mais torcedores, dadas as levas de camisas amarelas que chegavam ao Taguaparque. Nenhum reparo evidente à organização (pra que mesmo duas áreas reservadas a ;camarotes; numa festa popular?).

Vi muito policiamento, tanto entre a Praça do Relógio e o Taguaparque (mais de 2km de caminhada), quando no local da festa, na Rodoviária, no Setor Hoteleiro Sul, no Eixo Monumental. Onde estavam esses policiais no restante do ano?

O melhor da aventura foi que não assisti ao 0 x 0, e pude me encantar com a arquibancada de motoristas de ônibus, bombeiros, policiais militares, mocinhas saídas do emprego, todos assistindo ao jogo na escadaria da Rodoviária que dá acesso ao metrô ; o telão à frente. Meninos vendedores de balinha brincavam de escorrega no corrimão da escada rolante.

Os jogos do Brasil fora de Brasília têm o poder de nos devolver a cidade-maquete. O Eixo Monumental recupera a imensidão original. A Plataforma Rodoviária reconquista as qualidades urbanas e arquitetônicas projetadas pelo doutor Lucio. Sem enxame de carros, a cidade se aproxima do que ela poderia ter sido se não tivesse sido invadida pelo transporte individual.

Na volta, pude perceber a diferença escandalosa entre as estações do metrô do Plano Piloto e os do Guará, Águas Claras, Taguatinga e demais cidades adiante. E dizer que esta cidade nasceu de um desejo de democracia urbana.




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